Centro sumiu, esquerda enlouqueceu, direita bem colocada
Retrato atual da eleição presidencial do ano que vem na França, com a possibilidade que o ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon vá ao segundo turno
As bombas atômicas continuam caindo na política francesa. Segundo a mais recente pesquisa, Emmanuel Macron tem míseros 16% de aprovação. Na queda catastrófica, arrastou com ele o centro, a centro-direita e a centro-esquerda. Consequentemente, aumentaram as possibilidades de que o ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon, já com 17% das preferências, seja o segundo colocado e vá para a disputa final com Marine Le Pen.
Nesse caso, seria massacrado, com 70% dos votos indo para a candidata que se esforça para se livrar do rótulo de extrema direita. Com sucesso relativo, considerando-se que um segundo turno com ela e Mélenchon inverteria a lógica de décadas de eleições presidenciais. Em lugar de todos unidos para bloquear alguém com o sobrenome Le Pen, seja Marine ou seu falecido pai, Jean-Marie, seria uma frente comum contra o abominável Mélenchon.
Uma vitória de Mélenchon, como o segundo mais votado no primeiro turno, seria uma derrota brutal para a tradicional esquerda francesa, tão atordoada que ainda não conseguiu fechar questão em torno de um candidato. O possível nome do Partido Socialista, Raphael Glucksman, vem sendo engolido pelo estilo populista e provocativo de Mélenchon.
À direita e ao centro, acontece um fenômeno similar: o fracasso de Macron contaminou os candidatos que alguma vez foram associados a ele. O respeitável Édouard Philippe murchou e a mesma praga dos 15% de preferências grudou em Gabriel Attal. Os dois foram primeiros-ministros de Macron. Tão inteligente, tão capacitado, tão talhado para promover as reformas que a França precisa, o presidente virou tóxico.
PÁRIA NOS MERCADOS
Abriu-se, assim, espaço para o avanço de Mélenchon, que virou um fenômeno com A França Insubmissa, atraindo uma grossa parcela do eleitorado de esquerda. Quanto mais absurdos ele fala, mais seu público o aplaude. A última aberração foi pregar o calote da dívida, “jogando no fogo” os 18% detidos pelo Banco da França. Muitos partidários acham bonito absurdos assim, que transformariam a França em pária nos mercados internacionais e literalmente levariam o país à ruína.
Quem gosta, secretamente, claro, é Marine Le Pen. Segundo uma pesquisa Elabe, ela teria 69,5% dos votos no segundo turno contra Mélenchon, que levaria 30,5%.
Marine é de direita acima de tudo, e quase exclusivamente, em questões de imigração. Na economia, tende ao tradicional protecionismo francês e não quer nem chegar perto das reformas necessárias para o país. Viu como Macron foi consumido pelo modestíssimo aumento na idade de aposentadoria, o “pecado” principal pelo qual os franceses não o perdoaram.
Se eleita, Marine Le Pen seria uma presidente de direita com simpatia esquerdista pelo Estado grande e todo-poderoso. Mais uma contradição para os aspirantes a filósofo discutirem intensamente nas mesas dos cafés, enquanto um país maravilhoso como a França vai perdendo o pé e a corrida da história.
Para Mélenchon, também é ótimo ser o líder da oposição a Marine. Quem sabe na próxima eleição ele, ou um eventual herdeiro, já tenha argumentos para vencer a rejeição visceral que provoca?
Se aconteceu com Marine…





