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Calma, o capitalismo não acabou

Eclosões de esquerdismo nos Estados Unidos são fenômeno pontual

Por Vilma Gryzinski 30 ago 2026, 08h00
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É uma delícia, reconheçamos, ser de esquerda. A luta é por um mundo utópico, perfeito, sem nenhuma injustiça, com todos perfeitamente atendidos em suas necessidades. Os valores aquecem o peito: igualdade, solidariedade, empatia, a crença coletiva na vitória sobre o “sistema”, tudo ao som da Internacional ou de Geraldo Vandré. Ser de direita, em comparação, é uma pauleira. Tudo tem que ser conquistado com trabalho e esforço, as desigualdades fazem parte do pacote, a riqueza contemplará os mais aptos — e às vezes nem estes, pois o caminho é cheio de pegadinhas, sem falar em juros a 14% em certas plagas. Cada um se vira por si, sob “a frieza implacável do universo”, na definição do bilionário libertário Peter Thiel.

Não existe, claro, nenhum método melhor de produzir riquezas e isso ficou vastamente comprovado quando a China manteve o regime comunista, mas abriu a economia ao livre, ou meio livre, empreendimento. Os reformistas chineses tinham visto muito bem como o comunismo viera abaixo na União Soviética e seus satélites, pela própria incompetência. Ver o Muro de Berlim ruir, metaforicamente e sem sangue, ao som do violoncelo do russo exilado Mstislav Rostropovich, por alguns momentos criou na direita o sentimento embriagante de solidariedade e alegria que parecia exclusivo da esquerda. A liberdade dos povos havia sido conquistada por nações inteiras quando suas populações simplesmente disseram “não” — não vamos falar aqui de outros fatores, inclusive o peso de personalidades como Mikhail Gorbachev e o papa João Paulo II. A esquerda tal como estabelecida no mundo ocidental (com toques orientais da União Soviética) estava derrotada. Mas muito longe de extinta. A ressurreição que hoje vemos acontecer nos EUA é fenômeno surpreendente. É como se ideias esquerdistas estapafúrdias tivessem saído de seu nicho natural, as universidades, e se propagado a ponto de, no exemplo mais conhecido, conseguir eleger o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, um ugandense muçulmano de origem indiana e ideias marxistas.

“Ser de direita é uma pauleira. Tudo tem que ser conquistado com trabalho e esforço”

Algumas das propostas mais lunáticas dessa turma: abolir o Senado e o Colégio Eleitoral, abrir as fronteiras, eliminar a polícia, fechar as prisões e, claro, dar todos os benefícios imagináveis pela inesgotável árvore de dinheiro dos outros. Os mais convictos falam em tomar os meios de produção. Imaginem uma Tesla estatal. Parece comédia de Woody Allen, mas acontece diante dos nossos olhos. E não é só no nicho do radicalismo: uma pesquisa recente mostrou que 23% dos americanos veem o socialismo com simpatia.

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Ah, comemora a esquerda, é a crise final do capitalismo no próprio coração do império. Calma. Existe um evidente mal-estar com as condições de vida nos EUA, mesmo num país com PIB de 32 trilhões de dólares (94 000 per capita, nove vezes mais do que no Brasil). Donald Trump não consegue convencer a população de que as coisas vão bem — 80% dos americanos estão insatisfeitos com a economia. As soluções talvez sejam independentes de decisões políticas: a disseminação da inteligência artificial, de consequências ainda imprevisíveis, mas potencial revolucionário. O capitalismo ainda gosta de se reinventar, agora com um apelo que era exclusivo da esquerda: virar o sistema de cabeça para baixo.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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