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Brasil é solução para os EUA – e o pior momento foi na era Geisel

Um dos integrantes menos problemáticos da extensa agenda americana, nosso país deveria ser muito mais bem tratado

Por Vilma Gryzinski 10 jun 2022, 08h48

Bate que eu gosto. Este poderia ser um dos motes da política externa americana: quando seus interlocutores criam problemas, a reação dos americanos costuma ser contemporizar e até acenar com benefícios apaziguadores.

Imaginem ter que lidar com aliados como Paquistão, Arábia Saudita ou mesmo o México, o portal para a imigração clandestina em massa, cujo presidente, Antonio Manuel López Obrador, fez o desaforo de não ir à Cúpula das Américas.

Em vez de problemas, o Brasil cria soluções para os Estados Unidos. Uma aliança incontestada, uma garantia de estabilidade em toda a gigantesca América do Sul, um parceiro geoestratégico a ser acarinhado, mesmo quando questões comerciais corriqueiras criam alguma tensão – coisa mínima.

Se os presidentes não se bicam, como Jair Bolsonaro e Joe Biden, o papel dos Estados Unidos, como hiperpotência global, é se comportar como o adulto na sala e fazer de conta que tudo vai bem. Os interesses americanos vão muito além de eventuais faltas de afinidade pessoal. Foi isso que Biden fez, depois de se comportar como criança emburrada.

Aliás, não foi Bolsonaro quem disse o seguinte: “Não é possível que eu veja na televisão o presidente Biden, que nunca fez um discurso para dar um dólar para quem está morrendo de fome na África, nunca vi um discurso dele para dar um dólar, anunciar 40 bilhões de dólares para ajudar a Ucrânia a comprar armas”.

São vários os níveis de contrafação – sem contar que ajuda americana à África em 2020 foi de 8,5 bilhões de dólares. As armas para a Ucrânia são para preservar a independência de um país vitimado por uma guerra absurda – e criar a maior quantidade possível de problemas para um agressor que não deveria ser beneficiado pela lei do mais forte, um fator que simplesmente detona as já nada garantidas bases da convivência internacional,

Uma vitória russa na Ucrânia desestabilizaria toda a Europa do Leste – e o resto da Europa e o mundo, em geral. É do máximo interesse americano, mas não só deles, impedir que isso aconteça. Quarenta bilhões de dólares é um preço baixíssimo para garantir a estabilidade mundial – enquanto muitos países africanos continuam a viver da ajuda americana.

Se o autor das batatadas, que todo mundo sabe quem é, for eleito presidente, qual será a reação de Biden? O primeirão na fila dos telefonemas de congratulações e portas abertas na Casa Branca. Estará certo: comportar-se olimpicamente é prerrogativa de quem tem tanto poder.

Mas mandar recados privados sobre a lisura das eleições via diretor da CIA, vazando-os posteriormente, é uma atitude diplomaticamente complicada.

Em outros tempos, a reação seria muito diferente. Durante a era dominada pela frieza estratégica do general Ernesto Geisel, as relações com os Estados Unidos aproximaram-se do congelamento. Assim o ex-presidente José Sarney, com seu profundo conhecimento das coisas como eram por dentro, relatou o ápice da crise, em 1977:

“Na construção de seu projeto, trombou com os Estados Unidos, pelo qual nunca teve grandes admirações nem afinidades, e quando o Brasil foi atingido nas críticas da Doutrina Carter, dos Direitos Humanos, aproveitou a oportunidade e, indignado, numa noite, sem consultar ninguém, rompeu o acordo militar Brasil-Estados Unidos. No fundo, ele nunca aceitou as missões militares americanas dentro de nossos quartéis, dando instruções e ordens”.

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O próprio ex-presidente relembra que a abertura em câmara lenta para a democracia – na qual Geisel não tinha uma “crença exacerbada” – ocorreu quando “a linha dura dominava majoritariamente os escalões mais importantes de comando das Forças Armadas”, tendo sido sistematicamente neutralizada por Geisel.

“Ernesto Geisel os enfrentou, friamente, como estrategista, sem nenhuma preocupação política”.

A mesma atitude foi usada no relacionamento com os Estados Unidos. Em entrevistas dadas ao jornalista Gilberto Dimenstein, em 1995, Geisel resumiu sua reação às pressões do governo Carter para acabar com os abusos abomináveis – que o próprio general combatia, a seu modo: “Não podia sujeitar o Brasil à interferência externa”.

Geisel também negou que o fim brutal do acordo militar estivesse relacionado às pressões americanas contra o acordo com a Alemanha que daria ao Brasil o domínio do ciclo atômico.

“O Senado americano queria ser o juiz dos problemas dos direitos humanos no Brasil. Eu não podia aceitar isso”.

E a bomba?

“É uma idiotice. Em quem íamos jogar uma bomba atômica? Íamos jogar contra os Estados Unidos?”.

Na era Geisel, o governo brasileiro se aproximou da União Soviética e dos países árabes e votou na ONU contra o sionismo (ou seja, contra Israel e os Estados Unidos). Seu sucessor, João Figueiredo, fez um acordo nuclear com o Iraque, com cláusulas secretas.

Isso sim era problema para os Estados Unidos. Antipatias pessoais e até verborragia movida à doença infantil do antiamericanismo são episódicos.

Miraculosamente, o presidente brasileiro não fez nada para detonar a si mesmo na cúpula de Los Angeles nem prejudicar o encontro diplomática. Declarar-se “maravilhado”, apesar de um certo exagero, ficou muito além das expectativas.

E Biden não seguiu o mau exemplo de seu enviado especial para o clima, John Kerry, que insinuou algum tipo de responsabilidade do governo pelo desaparecimento de Bruno Araújo e Dom Phillips.

Até agora, está todo mundo no lucro.

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