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Bateu o desespero: acuado, governo argentino tenta acordo com oposição

Sem saída, sem dinheiro e sem soluções, com presidente decorativo e ministra da Economia paralisada, o país afunda em mais uma crise existencial

Por Vilma Gryzinski 22 jul 2022, 07h56

Não se pode dizer que a Argentina chegou ao fim porque países não acabam, mas é triste ver a derrocada acelerada do nosso vizinho. O dólar no paralelo chegou ontem a 338 pesos (era 209 em janeiro), o que significa que a moeda simplesmente está virando pó. As reservas líquidas estão no negativo. Negócios com bens mais caros, como automóveis, foram simplesmente suspensos: ninguém sabe quanto cobrar.

“Hoje precisamos da ajuda da oposição”, tentou milongar Axel Kicillof, governador de Buenos Aires, ao propor um diálogo com prefeitos oposicionistas – obviamente não do partido do ex-presidente Mauricio Macri.

“Que façam um programa e o levem ao Congresso”, respondeu uma fonte oposicionista, entendendo perfeitamente bem que o governo fracassado quer repartir responsabilidades depois de repetir neuroticamente os mesmos erros de sempre: gastar o que não tem e manter um sistema de benefícios insustentáveis para se manter no poder. O previsível aconteceu: os benefícios se desmancham no ar diante da inflação e do derretimento da moeda. Os pobres que seriam “protegidos” ficam mais pobres ainda.

Seria de dar dó, se o personagem não se revelasse tão abismalmente incompetente, ver o presidente Alberto Fernández viver numa realidade paralela, fazendo discursos como o do começo da semana, quando disse que não sonha “ser o melhor presidente do mundo, mas o presidente do melhor país do mundo”.

Na verdade, está sendo o pior presidente de um dos países que ombreiam com os piores do mundo, como o Sudão ou o Zimbabwe em matéria de inflação. Vendo o apocalipse chegar, dirigentes peronistas estão tentando armar um governo de salvação nacional em que Sergio Massa, o presidente da Câmara dos Deputados, assuma na prática, como ministro da Casa Civil, o comando, enquanto Fernández desfila o bigodão melancóiico.

Problema: a solução já foi tentada quando aconteceu a crise no Ministério da Economia. Massa ficou fora. Só irá arriscar a pele se Cristina Kirchner, a verdadeira detentora do poder, lhe der um aval público e irrefutável. Isso dificilmente vai acontecer.

“A olímpica falta de audácia do presidente e a desconexão da vice-presidente de tudo o que seja alheio a seu obscuro destino judicial frearam uma manobra de sobrevivência política que tinha o aval dos governadores peronistas, dos prefeitos mais poderosos e até um aceno de Máximo Kirchner”, analisou no Infobae o comentarista Fernando González.

No La Nación, Carlos Pagni fez uma análise brutalmente honesta do tamanho do buraco:

“Qual a razão da crise que se acelera? O governo alimenta um déficit gigantesco. E o financiamento acabou. Impossível aumentar a pressão impositiva. O crédito em dólares está fechado, o que se reflete num risco-país que ronda os 2 800 pontos. Os bancos e financeiras não aceitam títulos do tesouro em pesos e exigem um seguro anti-default do Banco Central para não se descolar deles.”

“Tudo indica, portanto, que haverá mais emissão. Ou seja, o peso continuará se deteriorando. Em consequência, o mercado, que é todas as pessoas, procura se pôr a salvo dessa degradação. E compra dólares. Ou ‘coisas feitas em dólares’. A raiz do problema é que há uma falta de confiança, cada vez mais próxima do pânico, que as autoridades possam interromper essa dinâmica. Para a sociedade, o governo não funciona”.

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Com o quadro de nada menos do que pânico, a nova ministra da Economia, Silvina Batakis, imposta por Cristina, tem duas certezas: há pouco a fazer e tudo o que fizer vai dar errado. Ua proposta que ronda no ar: criar o dólar-soja para os produtores rurais, agravados por impostos incapacitantes, e criar assim as divisas desesperadamente necessárias. Seria o sétimo tipo de dólar que circular no país.

A ministra começou mal, alegando, absurdamente, diante das restrições cada vez maiores a gastos em dólares, que “o direito de viajar colide com o direito à geração de postos de trabalho”.

Fora a hipocrisia, de dizer isso exatamente no momento em que seu filho fazia um curso de férias no exterior, o fato é que os argentinos estão ficando cada vez menos com as duas coisas, viagens e empregos.

“Parece uma funcionária desgastada que assumiu há três anos”, disse Fernando González sobre as três semanas de gestão da ministra. Suas manobras de emergência para “domar o potro empinado do dólar” têm por objetivo “evitar o triste recorde peronista de Celestino Rodríguez, há meio século”, quando a inflação passou de 100%. 

O então ministro da Economia durou apenas 49 dias no cargo, mas foi o suficiente para promover o “rodrigazo”, uma alta generalizada dos preços e tarifas, seguido de um aumento de 65% no salário mínimo. Não só não deu certo como acelerou o sugadouro que levou à queda do alucinado governo de Isabelita Perón, a viúva que havia herdado a presidência do marido falecido.

O nível de surrealismo político sempre se supera na Argentina e é exemplificado, entre tantas outras coisas, pelo estado de ruptura dos “movimentos sociais”, também conhecidos como máquinas de geração de renda e poder para seus dirigentes, com o apalermado Alberto Fernández.

Com o país quebrado, o líder piqueteiro Juan Grabois (um protegido do papa Francisco, o peronista da Santa Sé) está exigindo que o governo aprove um programa de renda mínima. Chegou a ameaçar o presidente.

“É fácil, Alberto, é muito simples nossa reivindicação. Nós te pusemos aí para que haja menos pobreza, não para que haja mais. Se você não gosta da renda mínima, invente outra coisa. Não diga que é preciso acalmar os mercados, apareça e nos acalme”.

O patético presidente evidentemente não tem resposta. Ou, se tiver, ela não tem a mínima importância.

Muitos fatores e personalidades concorreram para criar o programa acelerado de geração de pobreza da Argentina e a contribuição de Alberto Fernández não terá sido desprezível. Já o personagem…

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