Ameaças contra aliados: estaria Donald Trump dando sinais de estresse?
Rebaixar manobras conjuntas com a Coreia do Sul e dizer que pode bombardear Omã são atitudes interpretadas como resultado de frustração
Uma das maiores características de Donald Trump é a imprevisibilidade. Isso pode ser uma vantagem tática, ao deixar adversários confusos sobre suas próximas jogadas, e pode também causar confusão e tumulto entre aliados. Foi o que aconteceu quando mandou “reduzir substancialmente” exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, um dos principais sustentáculos da hegemonia americana na Ásia. E ainda justificou a mudança inopinada “com base no meu relacionamento muito bom com Kim Jong-un, da Coreia do Norte”.
“Como assim? ”, espantaram-se especialistas de todo o mundo. Desde quando Trump tem um “relacionamento muito bom” com o ditador norte-coreano, que testa mísseis e usa seu programa nuclear bélico para intimidar não apenas os vizinhos do sul, como aliados históricos dos Estados Unidos, na categoria do Japão.
Depois do espanto, tentativas de explicação. Trump está furioso com o presidente sul-coreano, Lee Jae-Miung, que tende mais à esquerda, por ter manifestado apoio zero à intervenção americana no Irã. Ele também acha que os Estados Unidos pagam muito para garantir a segurança da Coreia do Sul. E quer criar um clima mais ameno com o ditador do norte, segundo suas próprias palavras.
“Estas manobras não apenas são custosas, com a maioria dos custos bancada pelos Estados Unidos (como sempre), como mandam um sinal totalmente impróprio e hostil”. Mandar um recado hostil a Kim Jong-un sempre foi exatamente o espírito da coisa, uma forma de dissuadi-lo das eternas ameaças que trama contra a Coreia do Sul.
Ameaçar Omã de “mandar bombas” (com o uso de uma palavra impublicável) caso continue a se entender com o Irã sobre um sistema próprio (e pago) de navegação no Estreito de Ormuz também se insere na categoria briga com aliado que poderia ser evitada. As pressões devem ser feitas em particular, não gritadas em público, rezam as regras da diplomacia – certamente não válidas para Donald Trump.
ALTA ANSIEDADE
Claro que, se as coisas estivessem indo bem para os Estados Unidos em relação ao Irã, Trump não precisaria entrar em conflito com o sultanato, a livre circulação por Ormuz estaria garantida e o petróleo reagiria com queda de preços. No momento, ocorre o oposto e a alternativa anunciada por Trump, de desgastar o Irã economicamente, demanda tempo e paciência.
Tudo o que Trump parece não ter: faltam dois meses e meio para as eleições legislativas que podem acabar com a maioria republicana no Congresso, ou pelo menos na Câmara, e a reprovação ao presidente continua a aumentar. Na média das principais pesquisas, no RealClear, a aprovação caiu abaixo dos 40% pela primeira vez (39,4%, contra 58,4% de desaprovação).
“Trump está começando a parecer precário”, escreveu a influente Peggy Noonan no Wall Street Journal, reportando um alto grau de ansiedade entre figuras do Partido Republicano.
Outros observadores anotam sinais de estresse no próprio presidente, como irritabilidade e até episódios de sonolência em público – lembrando, ironicamente, Joe Biden, que destruiu a si mesmo ao insistir que estava bem, física e mentalmente, para tentar um segundo mandato. “Ele só pensa em construir o salão de baile e viajar com Natalie”, espetou o presidenciável democrata em ascensão John Ossof. A referência é à linda e loira assistente Natalie Harp que vive grudada em Trump, provocando muita boataria.
Trump nunca foi o estadista sereno e superior que parece ser o modelo de presidente desejado por tantos. Fez sucesso justamente porque é briguento, faz coisas que ninguém esperaria de um presidente e deixa os adversários desarvorados. Até que ele próprio pareça ter começado a dar sinais de fadiga. Os adversários, obviamente, estão loucos para usar contra ele tudo aquilo que disse a respeito de Biden. O problema é quando ele começa a dar motivos para isso. E num homem de 80 anos, uma idade que pesa para qualquer um, até para um aparentemente inexpugnável Donald Trump.







