A síndrome do filho genial e amigos desinteressados: agora, é Trump Jr.
Despesas de casamento do primogênito do presidente foram pagas por milionário russo; a oposição, evidentemente, quer saber mais
“A amizade não exige uma motivação política. A generosidade não tem necessariamente uma agenda”, argumentou Bettina, a nova esposa de Donald Trump Jr. , exaltando os laços que unem o casal a seu “amigo” de pouca data, mas muito dinheiro, Umar Kremlev, um cidadão russo de etnia tajique e reputação péssima, sem contar os laços de proximidade com Vladimir Putin. É, obviamente, totalmente impróprio que alguém com essa ficha tenha “presenteado” Don Jr. e Bettina com dois dias de aluguel de uma ilha nas Bahamas, com múltiplas celebrações. Só o foguetório custou 70 mil dólares.
A oposição já começou a inquirir, através do deputado democrata Robert Garcia, da Comissão de Supervisão do Congresso. Detalhe importante: se os democratas reconquistarem a maioria na Câmara, Garcia irá presidi-la, com mais autonomia para escavar tudo o que soe suspeito.
Numa carta ao filho mais velho do presidente, ele já vai antecipando tudo que é alvo de interesse, inclusive os pagamentos “encaminhados através de uma entidade dos Emirados associada ao obscuro grupo esportivo do senhor Kremlev, a Associação Internacional de Boxe, que supostamente serve de instrumento de soft power político para o senhor Putin”.
Está, assim, armado o circo. Virou inquérito o que deveria ser uma festa de família, com um descontraído e chique casamento na praia – o primeiro dela, o segundo dele, que tem cinco filhos com Vanessa Trump, atualmente morando com o golfista Tiger Woods.
FACHADA PERFEITA
Por que Don Jr. , que tem uma fortuna calculada em 300 milhões de dólares, iria deixar o próprio casamento ser pago por um russo de reputação duvidosa?
A história se repete tantas vezes, em tantos lugares do mundo, que todos sabemos a resposta: filhos de homens importantes que acham que não precisam seguir as mesmas regras que valem para todo o resto.
Don Jr. não tem nada de bobo e seu nome sempre aparece entre os trumpistas mais empenhados como uma alternativa à candidatura presidencial. Deve ter achado que estava criando a fachada perfeita para a “generosidade” do amigo russo, de quem se aproximou pelo entusiasmo com o boxe e o gosto pela vida na natureza, conforme Bettina Trump, uma mulher de família “bem”, acostumada a circular no ambiente dos muito ricos de Palm Beach.
Dentre estes muito ricos, há os que estão acostumados a pagar e os que têm o hábito de receber. Ela passou a fazer parte do topo do segundo grupo, ao qual já se qualificava pela beleza e juventude, algumas vezes compartilhadas com senhores mais velhos, ao se casar com Don Jr.
PRESENTE PARA A OPOSIÇÃO
É evidente a infração ética de um parente do homem mais poderoso do mundo que aceita ter despesas pagas por um conhecido. “Nosso querido amigo Umar generosamente ofereceu duas noites incríveis de comemorações DEPOIS de nosso casamento”, escreveu Bettina no Instagram, imitando o sogro no uso de maiúsculas.
Evidentemente, não interessa se foi antes, durante ou depois. A ética foi ofendida. Se houve alguma outra infração, os democratas vão adorar investigar. É o tipo de presente que qualquer oposição adora.
Filhos, irmãos e outros parentes “complicados” fazem parte do mundo presidencial americano. São sempre, claro, verdadeiros Ronaldinhos. Joe Biden, cujo filho Hunter agora está quebrado embora aparentemente longe das drogas que o destruíram, dizia que ele era o homem mais inteligente que conhecia. E tome viagens no avião do vice-presidente, na época, para fazer seus negócios.
Inteligentes ou menos brilhantes, todos acabam escorregando nos mesmos tapetes vermelhos, estendidos pelos que entendem como é valioso ter a “amizade” de um filho de pai poderoso, nem que custe 100 mil dólares por noite, como a ilha nas Bahamas onde Don e Bettina fizeram seu casamento “íntimo”, com amigo oligarca e tudo.







