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Vilma Gryzinski Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A incrível saga da blogueira Mariana, usada como arma de propaganda

Fotografada antes de dar à luz na maternidade bombardeada em Mariupol, a jovem ucraniana está no centro de uma disputa pela verdade

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 11 abr 2022, 08h50 - Publicado em 11 abr 2022, 05h41

Enquanto mimadas e milionárias influenciadoras russas retalham suas bolsas Chanel em solidariedade à colega que não conseguiu comprar uma numa butique de Dubai, a blogueira ucraniana Mariana Vishemirskaia protagoniza uma saga muito mais complicada.

Mariana foi fotografada e filmada logo depois que a maternidade número 3 da cidade litorânea de Mariupol explodiu num ataque trágico.

É uma foto inesquecível. Envolta num edredom, com o lindo rosto ensanguentado, ela olha para a câmera com uma mistura de dor e desafio. Em outra foto, tirada quando havia ido buscar suas coisas dentro da maternidade, ela aparece com a barriga de nove meses, envolta num pijama de bolinhas com um urso desenhado na frente.

Os dois repórteres visuais da agência AP, Mtislav Chernov e Ievgeni Maloletka, localizaram Mariana dois dias depois, com o mesmo pijama, quando já havia dado à luz a Veronika.

Uma história com final feliz, no meio da tragédia da guerra no lugar onde ela tem sido mais brutal, ao contrário da outra jovem grávida fotografada no mesmo pátio destruído, sendo retirada de maca com um ferimento horrível no baixo ventre. Nem ela nem o bebê sobreviveram.

O impacto das fotos foi imediatamente sentido em todo o mundo e embaixadas russas lançaram a primeira campanha de mentiras: diziam que Mariana era uma blogueira de assuntos cosméticos contratada para se passar por vítima, maquiada com ferimentos cenográficos. Mostraram uma foto de seu blog. Foram desmentidos pelas fotos de Mariana com a filhinha recém-nascida.

Agora, Mariana apareceu numa entrevista por vídeo a Denis Selezniov, blogueiro de Donetsk, a região separatista que a Rússia reconheceu como independente contando uma outra versão.

Mariana disse que tinha vindo de um outro hospital, ocupado por soldados ucranianos. Estava na maternidade número 3, mas o ataque não foi de um bombardeio aéreo porque nenhuma das pacientes nem seus maridos ouviu ruído de qualquer avião. Também diz que  não havia consentido em ser fotografada pelos repórteres da AP e que eles não mostraram a parte do vídeo em que ela contestava um ataque aéreo.

Chernov e Maloletka contam que estavam em outra parte de Mariupol quando ouviram o bombardeio aéreo. Subiram num prédio e registraram a fumaça da explosão se erguendo. Chegaram à maternidade 25 minutos depois e mostraram pacientes sendo retiradas, inclusive Mariana. Na versão integral da entrevista feita depois, ela diz sobre o bombardeio: “Não sabemos de onde veio, quem mandou, o que era e qual o seu alvo. Existem muitas especulações, mas o fato é que não podemos ter certeza de nada”.

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A importância das imagens da maternidade bombardeada – pode existir crime mais revoltante? – obviamente foi captada pelos dois lados.

Num relato dramático, Chernov contou uma semana depois como ele e o colega fotógrafo foram procurados por militares no hospital onde estavam baseados, autorizados a recarregar seus equipamentos no gerador por médicos que queriam mostrar o horror que enfrentavam.

A missão era tirá-los de Mariupol. Motivo: se fossem presos por forças russas, acabariam obrigados a dizer que as cenas da maternidade eram montadas.

A guerra de informação é um componente importante de qualquer conflito e a causa ucraniana desperta obviamente enorme simpatia: um país mais fraco invadido por outro mais forte sem a menor justificativa. Volodymyr Zelensky virou a arma mais poderosa da Ucrânia logo no primeiro dia quando mostrou que não havia fugido, apavorado. A rapidez das redes sociais também joga a favor da Ucrânia, com atrocidades expostas em detalhes excruciantes.

Por isso, temos a impressão de ver uma guerra ao vivo, mas o fato é que a maioria dos acontecimentos não vem à tona de imediato. Quando deixou Mariupol, Mtislav Chernov disse que ele e o colega era os últimos jornalistas ainda em ação na cidade. 

A falta de conexão pela internet também baixou uma cortina de silêncio sobre Mariupol e o controle russo, já quase total, pode obstruir as provas do que aconteceu realmente lá.

Mariana Vishermiskaia, de maneira deliberada ou involuntária, é uma peça dessa história. Ela é uma simpatizante da Rússia que se sentiu usada ou foi constrangida a dar a última entrevista?

A primeira farsa sobre ela – de que era uma atriz contratada para se passar por vítima – foi demolida. Na nova entrevista, ela não desmente essencialmente nada do que aconteceu, fora contestara natureza do ataque. No fim, pede “por favor, presidente Zelensky, negocie um acordo de paz”.

A mensagem, obviamente, deveria ser dirigida ao outro presidente, o que começou a guerra, Vladimir Putin.

A saga de Mariana ainda não acabou.

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