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A guerra silenciosa: demissões ordenadas por Zelensky indicam conflitos

O colaboracionismo foi muito menor do que os russos esperavam, mas é um problema real, tratado em alguns casos na base da execução

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 19 jul 2022, 07h55 - Publicado em 19 jul 2022, 07h54

Um cartaz simples, branco, com uma foto toscamente recortada. No alto, o nome do homem e a acusação de colaborar com os ocupantes russos. Na testa dele, um recado nada sutil: RIP, indicando que o indivíduo já foi para o plano superior.

As iniciais significam descanse em paz em latim (são as mesmas em inglês, que também permite um trocadilho reservado àqueles que, em vez de louvores depois da morte, recebem ódio: Rest in Pieces). 

Pelo menos três homens já foram mortos em Kherson, a cidade originalmente de 300 mil habitantes hoje totalmente ocupada pelos invasores russos e cuja retomada a Ucrânia ainda está montando, fazendo prever uma batalha terrível.

Quando invadiram a Ucrânia, os comandantes russos certamente esperavam um passeio: as bombas iam chover do céu, as principais autoridades fugiriam apavoradas e colaboradores ucranianos estariam prontinhos para assumir as funções principais, dando a falsa impressão de que os bondosos russos estavam apenas restaurando o poder a quem de direito.

Todo mundo viu que o índice de colaboracionismo foi infinitamente menor – corre, desde então, a versão que Vladimir Putin fez uma “limpa” no serviço de espionagem, o FSB, porque encarregados de comprar a cooperação dos invadidos embolsaram o dinheiro, achando que nem precisariam pagar por algo que aconteceria de qualquer maneira.

Mesmo não tendo sido como o Kremlin previa, o colaboracionismo existe e as demissões na alta cúpula feitas pelo presidente Volodymyr Zelensky indicam que o problema é muito maior do que a heróica resistência da maioria dos ucranianos indica.

Zelensky derrubou duas figuras importantíssimas: a procuradora-geral Irina Venediktova, a principal encarregada de investigar os crimes de guerra russos nas áreas recuperadas pela Ucrânia, e Ivan Bakanov, não apenas o chefe do serviço de inteligência, como amigo de infância do presidente e companheiro da época em que comandava a produtora de programas de televisão que abriu caminho para a fama e, depois, a eleição do humorista que virou presidente e comandante-chefe de um país em guerra.

Ambos foram acusados de comandar estruturas infiltradas pela inteligência russa. Os números falam por si: existem 651 processos por alta traição abertos contra ucranianos colaboracionistas. Mais de sessenta funcionários da procuradoria e do serviço de inteligência são acusados de terem se transformado em operadores a serviço dos russos em áreas sob ocupação. Entre eles, um coronel do serviço de inteligência que deu aos russos que avançaram a partir da Crimeia literalmente o mapa das minas ucranianas. Se seus chefes não viram isso, hora de ir para casa, foi a mensagem de Zelensky.

Outro problema: a Ucrânia tem conseguido resistir, entre outros fatores, incluindo a bravura indômita de seus cidadãos, por causa da inteligência que jorra das fontes americanas, com seu sistema de satélites e outros meios eletrônicos que tudo veem. Agentes infiltrados podem comprometer gravemente esse fluxo, vital para a sobrevivência ucraniana.

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Para Zelensky, era confortável ter um amigo e ex-sócio no Serviço de Segurança da Ucrânia, uma organização ao estilo da KGB, uma hidra com mais de 30 mil agentes (sete vezes mais do que o eficientíssimos MI5, o serviço de inteligência britânico). Quem controla a inteligência não é, pelo menos, controlado por ela.

Além do estrago que causam, entregando segredos militares ao inimigo, os colaboracionistas também concorrem para a tese russa de que os ucranianos, fora os malvados “nazistas” no governo, também não querem ter seu próprio país e, no fundo, estão integrados ao mundo russo.

Colaborar com o inimigo é um subproduto de todas as guerras, mas na Ucrânia isso envolve fatores tremendamente complicados. Um dos heróis nacionais é Stepan Bandera, íntimo colaborador do nazismo desde antes que a guerra fosse desencadeada (o que não o livrou de uma prisão alemã, onde ficou estrategicamente recolhido até a hora de se tornar mais útil solto) e líder do maior grupo de resistência aos soviéticos. Bandera foi envenenado pela KGB em Munique, em 1954.

A história dessa parte do mundo é complexa e envolve fatores sem nada da pura clareza da luta dos bons contra os maus. O horror da ocupação russa – imperial ou soviética – criou circunstâncias únicas. Na Finlândia, por exemplo, forças nacionais combateram os soviéticos ao lado dos nazistas (e, no fim, ambos os ocupantes). Quase inimaginavelmente, soldados judeus finlandeses lutavam do mesmo lado de alemães – e estes não diziam nada.

Putin e seus asseclas usam estes fatos históricos para acusar o governo ucraniano de ser formado por nazistas, uma verdadeira abominação.

Por identidade étnica ou interesses materiais, altos integrantes da inteligência ucraniana colaboraram com os russos na campanha atual. O site Politico reconstituiu o caso do general Andri Naumov, encarregado, ironicamente, da corregedoria do serviço de inteligência. Naumov fugiu da Ucrânia poucas horas antes da invasão russa, em 24 de fevereiro. Foi detido no mês passado na Sérvia, em companhia de um contrabandista alemão, com 600 mil euros, 125 mil dólares e um saco de esmeraldas.

A Ucrânia está pedindo sua extradição.

Com os generais russos clamando, publicamente, pela destruição dos HIMARS, os formidáveis lançadores de mísseis americanos que estão causando estragos importantes na logística do invasor, não está na hora de vacilar com agentes duplos que entreguem segredos que influenciam na diferença entre vitória e derrota.

Deve ter muito mais carne debaixo do angu que Zelensky remexeu ao demitir o chefe do serviço de inteligência, mas só saberemos gradualmente os detalhes – se um dia soubermos.

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