A economia vai bem ou mal com Trump? Maioria dos dados é positiva
Mas a opinião pública tende ao pessimismo e ao mau humor, mesmo com o maior crescimento de PIB do mundo desenvolvido
Donald Trump está fazendo uma boa administração econômica? A resposta é sim e não. Pelo lado positivo, os números são bons, a começar por um crescimento do PIB de 2,3%, um espanto entre as economias avançadas. Para comparar: Canadá tem 1,9%; França, 0,9%; Reino Unido, 0,8%; o mesmo para a Alemanha; e 07% para o Japão.
A inflação está controlada em 3% e o desemprego também, com 4,2%, redundando no menor número de demissões desde 1969. Desde que Trump assumiu, o S&P500, que mede a performance na bolsa das 500 maiores empresas, subiu 25,2%. É o melhor indicador de uma economia saudável – e de que o capitalismo está funcionando bem, obrigado.
Até adversários do estilo ou mesmo do modelo de Trump – desregulamentar a economia, furar para tirar petróleo, diminuir impostos e aumentar tarifas sobre produtos importados – admitem que muitos indicadores chegam a ser surpreendentes.
“Por que a economia americana continuou a ter melhor desempenho do que tantos de seus pares, apesar de enfrentar os mesmos choques globais?”, perguntou-se a BBC, algo perplexa, numa reportagem.
“Muitos economistas esperavam que as pressões fossem pesar muito sobre os Estados Unidos, Em vez disso, a economia continuou a crescer a um ritmo firme. A inflação às vezes se mostrou rebelde, mas não aconteceu a combinação de crescimento fraco e preços em alta que muitos temiam”.
COLCHÃO DE ESTABILIDADE
Outros fatores importantes: aumento da produtividade na faixa de 2% – um assunto em geral sequer mencionado no Brasil – e um mercado energético exuberante. A atitude pragmática em relação ao fracking, apesar das restrições ambientais, também criou um colchão de estabilidade quando a Europa penou sob o corte do fornecimento de gás da Rússia. A produção americana de gás praticamente substituiu a dos sancionados. O choque da guerra do Irã está sendo absorvido com muito mais flexibilidade, embora o aumento da gasolina seja um dos fatores que contribuem para a queda na aprovação de Trump, hoje na faixa de 40,2%, segundo a média das principais pesquisas.
O peso do mercado de ações no financiamento das empresas – em lugar do método tradicional de endividamento através de empréstimos bancários, particulares ou do governo – é outra das explicações para a capacidade de renovação da economia de 31 trilhões de dólares.
Pelo lado negativo, a confiança dos consumidores caiu muito desde o início da guerra com o Irã, com dois terços dizendo que precisaram cortar gastos por causa da inflação. Esse mau humor explica muito do esforço que Trump fez para chegar a um acordo com o Irã – esforço frustrado e agora praticamente congelado com os bombardeios retaliatórios por ataques iranianas contra petroleiros no Estreito de Ormuz.
O saldo positivo, apesar dos problemas pontuais e, principalmente, dos humores da opinião pública ,são o lado mais visível de uma mudança de fundamentos que está sendo promovida por Trump e aplicada pelo secretário da Fazenda, Scott Bessent.
Entre os pilares dessas mudanças, está a “segurança econômica”, sinônimo de reindustrialização nas áreas em que o país ficou mais exposto, segundo anotou Mohammed El-Erian no New York Times. É um dos sinais mais fortes de que acabou a era da globalização irrestrita, em que a produção passava para a China e os Estados Unidos ficavam com os serviços e a inovação (ilusão cruelmente desmentida pela realidade).
SEM LAISSEZ-FAIRE
Outro princípio que causa arrepios no mundo inteiro: “A abertura ao comércio e aos investimentos precisa ser estritamente recíproca”. Tradução: mais tarifas para todos. “Chega de brincarem com a gente”, disse Bessent.
Mais um: “A dominância global do sistema financeiro americano precisa ser ativamente protegida”. Pronto, falou. Nada de meias palavras.
Ou seja, segundo o economista, nada simpático a Trump, acabou a era dos produtos baratíssimos, as tarifas viraram uma arma fundamental da política econômica e o protecionismo, obviamente sem esse nome, está em ascensão. “O capitalismo ao estilo laissez-faire como o pregado por Adam Smith e Milton Friedman vai ter pela frente a mão muito mais pesada do governo”.
Vemos assim que estão envolvidas questões muito mais vastas do que o crescimento do PIB ou o índice de inflação. É sempre bom prestar atenção para os rumos da titânica economia americana.







