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A Colômbia vai entrar no eixão esquerdista redivivo na América Latina?

É bem possível que Gustavo Petro, candidato a presidente pela frente de esquerda, protagonize uma virada sem precedentes no país

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 26 Maio 2022, 07h49 - Publicado em 26 Maio 2022, 07h48

A palavra que Gustavo Petro mais fala, em tom pausado e articulado, é “paz”. É claro que isso reflete um desejo praticamente unânime da população da Colômbia, um país tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente do Brasil, em especial pelo radicalismo, à esquerda e à direita, que já o levou várias vezes à beira do abismo, sem os amortecedores que aqui desarticulam as crises agudas.

O primeiro lugar de Petro, um ex-guerrilheiro que foi prefeito de Bogotá, está garantido, com cerca de 42% dos votos. Ainda há dúvidas sobre quem disputará o segundo turno com ele. As últimas pesquisas mostram que o candidato da direita tradicional, Fico Gutiérrez, foi ultrapassado por Rodolfo Hernández, conhecido como “o velhinho do TikTok”,  uma figura folclórica que faz uma campanha alternativa, marcada por caravanas – de carro, caminhão, a cavalo ou até lombo de burro -, prometendo “acabar com a corrupção”. Lembra alguém?

A divisão de forças praticamente garante a eleição de Petro, inaugurando na Colômbia, infensa à primeira onda “bolivariana”, um governo que parecia impossível, devido à força – e às artes negras – da direita.

Será também, se confirmada, uma vitória excepcional para o eixão de esquerda que em março acrescentou uma joia inesperada, o presidente comunista do Chile, Gabriel Boric, e aguarda ansiosamente a eleição de outubro no Brasil.

Não que a esquerda esteja particularmente bem na foto. O bloco Cuba, Nicarágua e Venezuela é uma das piores vitrines do planeta. Alberto Fernández enfrenta na Argentina uma espantosa desaprovação de 72%, compatível com a crise econômica. Boric, de 36 anos, que seria a cara – e os braços tatuados – da nova esquerda, mal foi eleito, com 56% dos votos, e viu sua popularidade despencar para 38%.

A incapacidade latino-americana de empurrar as fatias mais pobres para uma camada de renda melhor – a exceção parecia ser o Chile, mas deu no que deu -,  de combater a corrupção endêmica e de ter governos razoavelmente funcionais alimenta o voto nas esquerdas. Problemas novos, como a pandemia e seus reflexos econômicos, reforçam o impulso.

Gustavo Petro e sua candidata a vice, Francia Márquez, falam em paz e, claro, contra o discurso do ódio, mas ele diz, sem alterar o tom, que o governo é comandado por “ladrões e assassinos”. Também tem um discurso messiânico sobre a produção de petróleo – é da escola que prefere a mandioca. E promete o “perdão social”, que tiraria da cadeia corruptos condenados.

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Foi algo semelhante, mas negociado e aprovado pelo legislativo, que abriu as portas para que o M19 – ou Movimento 19 de Abril – saísse da guerrilha e entrasse na política convencional. O grupo foi um dos vários nascidos dos desdobramentos do período conhecido como La Violencia, o objetivo nome dado aos dez anos de guerra civil retratados em vários livros de Gabriel García Márquez.

O M19 começou roubando a espada de Bolívar – uma obsessão esquerdista dos países do norte da América do Sul – e chegou ao atentado mais espetacular, a tomada do Palácio da Justiça, com mais de 300 reféns. Onze  dos 21 juízes do Supremo Tribunal estavam entre os cem mortos na brutal intervenção do Exército.

O grupo guerrilheiro também começou a sequestrar parentes de grandes traficantes de cocaína, o que gerou uma reação contrária, o Morte aos Sequestradores (MAS), um dos vários grupos paramilitares que infernizaram a Colômbia. Em determinadas fases, tanto forças policiais e militares quanto os próprios guerrilheiros aliaram-se aos traficantes, numa delirante espiral que só começou a ser controlada depois da morte de Pablo Escobar e de várias derrotas impostas à esquerda armada.

Protegido pela Venezuela, o maior grupo guerrilheiro, as FARC, só seguiu o mesmo caminho do M19, de renúncia à luta armada, em 2016 – assim mesmo, alguns remanescentes persistem.

Sequestros, assassinatos políticos de alto impacto, mobilização forçada de agricultores obrigados a pegar em armas, reação brutal dos paramilitares – e, pairando, acima de tudo, o poder da coca – traumatizaram a Colômbia e levaram a eleições sucessivas de Álvaro Uribe, o mais odiado nome da direita antes de Jair Bolsonaro, e de seus candidatos.

Será este o ciclo que Gustavo Petro vai quebrar? Conseguirá ele manter a estabilidade, com todos os seus defeitos, tão duramente conquistada? Fará algum estrago catastrófico na economia, embora tenha o mau exemplo venezuelano bem ali do lado? Romperá a maldição latino-americana de governos de esquerda incompetentes que se alternam com os de direita igualmente? Ou inchará o Estado até além dos limites, o que basicamente é o programa das esquerdas hoje?

“Se fosse com seu dinheiro, faria este gasto? O que os pobres ganham com este investimento?”, costumava perguntar Rodolfo Hernández, o empreiteiro da direita populista quando era prefeito de Bucamaranga, onde continua muito popular.

São perguntas que Gustavo Petro, se eleito, terá que responder. O pior é que já suspeitamos das respostas.

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