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A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a nossa sociedade

O novo caso do bebê torturado: o que a psicologia (não) explica

Episódio no interior paulista traz à tona violência criminosa e injustificável. O que estaria por trás dela?

Por Ilana Pinsky 7 set 2026, 14h00 | Atualizado em 8 set 2026, 11h15
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A psicologia não explica, e muito menos justifica a tortura praticada contra uma criança. Diante de revelações como as que chocaram a cidade de São João da Boa Vista (SP) — onde um bebê de apenas 1 ano viveu sob um enredo de agressões severas, privação de sono, queimaduras e tentativas de sufocamento durante meses perpetradas pela mãe e pelo padrasto —, qualquer tentativa de explicação puramente teórica é insuficiente.

Quando a crueldade atinge esse nível, a mente humana impõe um limite à própria ciência. Ainda assim, para que a sociedade consiga identificar e interromper cenários semelhantes antes do desfecho fatal, especialistas buscam mapear os mecanismos psíquicos e relacionais que alimentam a barbárie dentro de casa.

A negligência e o abuso de menores não são fenômenos isolados ou raros; são feridas sociais recorrentes. A gravidade e a frequência do problema levam a comunidade científica internacional a dedicar campos inteiros de pesquisa ao tema, articulados em publicações especializadas como as revistas científicas Child Abuse & Neglect e Journal of Child and Adolescent Trauma.

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É no ponto mais sombrio de um espectro contínuo de maus-tratos que a tortura se instala. Embora o número real na população seja desconhecido por se tratar de um conceito recentemente definido, estima-se que entre 1% e 2% das crianças avaliadas por suspeita de maus-tratos sejam vítimas de tortura. Na prática, ela configura-se como um processo contínuo e repetido de agressões físicas e abusos psicológicos extremados — como terrorismo mental e ameaças —, que resultam em sofrimento prolongado, sequelas graves ou morte.

A partir do mapeamento de relatos perturbadores no sistema de justiça, a advogada americana Ann Ratnayake Macy, especialista na acusação de crimes graves contra menores e fundadora do National Center for Child Abuse Statistics and Policy, destaca que essa violência vai muito além de surtos impulsivos de agressão.

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Trata-se de uma dinâmica orquestrada e sistemática, focada no controle total do comportamento e no desgaste deliberado da psique da criança. A constatação de juristas e pesquisadores de saúde mental é que a ocultação premeditada das lesões e o isolamento da vítima revelam uma intenção clara de domínio, expondo brechas nas leis criminais que frequentemente custam a enquadrar o terror doméstico na sua real gravidade.

O caso paulista reabre uma discussão dolorosa que a sociedade costuma evitar: a presença de agressoras do sexo feminino e a desconstrução do mito do instinto parental. Embora seja um dado pouco mensurado de forma ampla, um levantamento detalhado sobre casos de tortura infantil publicado em 2024 revelou uma prevalência de 57% de agressoras do sexo feminino entre os perpetradores identificados.

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As figuras maternas (somando mães biológicas, adotivas e madrastas) representavam chocantes 43% desse grupo de mulheres, sendo a mãe biológica o vínculo individual mais frequente com as vítimas. Esse achado contraria a visão sociocultural predominante, que tende a associar a figura feminina exclusivamente ao afeto e ao cuidado. Essa idealização cria um ponto cego que dificulta a detecção e o diagnóstico precoce por parte da rede de proteção. É socialmente muito difícil conceber que uma mãe possa torturar ativamente o próprio filho .

Essa cegueira social é agravada pelo fato de que a maternidade e a paternidade não exigem, como sabemos, testes psicológicos ou triagens de aptidão emocional; qualquer pessoa anatomicamente capaz pode gerar um filho. A realidade é que adultos disfuncionais assumem a tutela de seres indefesos. Características como a presença de traços antissociais, históricos não elaborados de traumas, abusos e negligência na infância e a incapacidade de criar vínculos empáticos funcionam como vetores de desumanização da criança.

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Esse processo ganha contornos ainda mais graves quando há a entrada de um novo parceiro e a formação de um par agressor. A psicologia descreve como a dinâmica de casal pode atuar como um catalisador de impulsos destrutivos: na coautoria, o comportamento de um valida e amplia o do outro. No caso paulista, as investigações revelaram que a mãe e o padrasto trocavam mensagens com orientações diretas sobre as agressões ao bebê — desde instruções para imersão em água quente até a dosagem de medicação tarja preta e a aplicação de gelo para disfarçar lesões.

A rotina observada nesses cenários desfaz um mito frequente sobre a violência intrafamiliar: o de que episódios dessa gravidade seriam sempre frutos de um surto de “loucura” ou de um descontrole involuntário. Vale pontuar uma distinção essencial sob a perspectiva da saúde mental: situações de emergência psiquiátrica extrema — como quadros raros e graves de psicose pós-parto, em que há uma perda real e trágica de contato com a realidade — diferem radicalmente da tortura infantil.

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No caso da tortura, não estamos diante de uma ruptura súbita e desorganizada do capacidade de pensar e tomar decisões racionalmente, mas da escolha de formas veladas de agressão, da tentativa de apagar vestígios e do planejamento consciente de ações de dominação contínuas. Aceitar que a crueldade deliberada existe como uma possibilidade do funcionamento humano é o primeiro passo para não cairmos na negação — só é possível prevenir aquilo que encaramos de frente.

Essa compreensão é fundamental também porque a violência extrema raramente surge sem avisos. Dados clínicos mostram que a maioria das vítimas possui um histórico prévio de notificações na rede de proteção ou consultas médicas por negligência e maus-tratos.

Os sinais costumam aparecer ao longo do caminho, mas para que profissionais de saúde, educadores e conselheiros consigam identificá-los a tempo, é preciso superar a ideia de que certas famílias são imunes a atos dessa natureza. A detecção precoce depende de estarmos dispostos a enxergar a realidade como ela é para conseguir interromper o ciclo de abusos a tempo.

* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e doutora pela Unifesp. É coautora dos livros Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto) e Longevidade Hoje (Fósforo). Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram

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