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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

O custo de erros e negacionismos (Por Cristovam Buarque)

Em artigo enviado à coluna, o ex-ministro e ex-senador explica o atual momento da política brasileira 

Por Cristovam Buarque  29 dez 2021, 14h17

Líderes e partidos democratas cometeram o erro de lançar a pré-candidaturas à presidência com a mensagem “nem Lula, nem Bolsonaro”, mas o eleitor percebe que não formam um bloco, porque são muito diferentes entre si, nem Lula e Bolsonaro são parecidos. Há mais diferença entre os candidatos da terceira via entre eles, do que entre cada um e Bolsonaro ou Lula. Alguns foram aliados e ministros de Bolsonaro, outros ministros e simpatizantes de Lula, alguns são “terrivelmente” estatizantes, outros “terrivelmente” liberais. Pouco tem a ver cada um com os outros, salvo o mantra do “nem-nem”. Por isso, não conseguem formular propostas em torno das quais se unirão para atrair eleitores e governar o Brasil por quatro anos. Além disso, por trás de cada candidatura há interesses eleitorais e financeiros para eleger bancadas e abocanhar recursos do fundo eleitoral.

A terceira via perdeu o rumo porque nunca teve rumo, nunca se apresentou como via, tampouco terceira. É um conglomerado de líderes e partidos, sem projeto comum, salvo a mesma repulsa pelos outros dois candidatos. Concentrados na obsessão do nem  Bolsonaro nem Lula, não perceberam  que em 2022 o propósito não é barrar a volta do Lula, é eleger quem possa barrar Bolsonaro e impedir a continuação da decadência civilizatória do país.

Mais do que eleger um presidente, em 2022, haverá um plebiscito para decidir se o eleitor concorda com a continuação  do genocídio, da mentira, populismo, falta de empatia com os pobres e toda a vergonha dos primeiros quatro anos de Bolsonaro, ou se barra sua reeleição. Na defesa da divisão, candidatos e partidos lembram que os dois turnos permitem candidaturas para divulgarem seus nomes e que no segundo se aliarão contra Bolsonaro. Não consideram a dinâmica do processo eleitoral que atropela seus atores: depois de dois anos de “nem-nem”, candidatos, líderes e partidos terão dificuldades para apoiar e se envolver na candidatura de Lula ou de Bolsonaro.

Em 1989, Brizola foi o único líder que transferiu seus votos para o Lula, que o superara no primeiro turno. Os votos de Roberto Freire também foram para Lula, porque o PCB era um partido ideológico, disciplinado pelas ideias em comum de seus membros. Não há mais partido ideológico, nem líder como Brizola. O antipetismo levará muitos da terceira via à neutralidade ou mesmo a apoiar Bolsonaro, agravando o abismo para não votar em Lula. Isto ocorreu em 2018. Isto poderia ser evitado em 2022, se todas as forças democratas tivessem tentado incluir Lula e o PT na busca de um candidato único para enfrentar Bolsonaro.  De preferência se o Lula e o PT aceitassem um candidato sem a rejeição que eles sofrem. Se tivessem feito isso em 2018, com Ciro ou outro, talvez Bolsonaro não fosse eleito. Mas essa não é a tradição do PT, como demonstrou em 1985, quando deixou de apoiar Tancredo Neves contra a ditadura. Provavelmente, eles não teriam essa grandeza, especialmente depois de toda humilhação que o partido e seu líder passaram nos últimos anos. Há anos dizem que o PT acabou, que Lula foi presidiário e, agora que eles crescem, seria difícil que abrissem mão da disputa pela presidência. Além disso, o PT teria razão ao perguntar: “Quem é o Tancredo deste momento?”. Ou quando levantar o mesmo argumento da terceira via: “Vocês lançam os de vocês, o PT lança Lula, no segundo turno nos encontramos”. Seria difícil o PT abrir mão de sua arrogância histórica e o Lula desprezar a chance de se refazer pelo voto de tudo que passou nos últimos anos pelo voto.

Seria difïcil, mas poderia ter acontecido. Quando Lula almoçou com FHC, a terceira via não elogiou Lula e ainda criticou FHC. Era quase impossível, mas o Brasil merecia que fosse tentado para evitar o risco do processo que une a arrogância do PT aos preconceitos do antipetismo, ameaçando que os votos de respaldo ao Bolsonaro suplantem os votos ao outro candidato que vá ao segundo turno. O ideal teria sido que, no lugar do discurso de nem-nem, o diálogo entre os democratas tivesse levado a um nome comum. Mas isso não ocorreu e agora é preciso evitar que o primeiro turno aumente a rejeição a cada candidato contra Bolsonaro.

Os candidatos não-petistas precisam abandonar preconceitos, deixar de ser negacionistas, perceber a realidade da força do PT e do Lula e se preparar para apoiá-lo no segundo turno ou já no primeiro. E o PT precisa assumir que, desta vez, não se trata de apenas marcarmposição e eleger um governo petista, mas de barrar a continuação da barbárie. O PT tem a obrigação de reduzir a rejeição que sofre. Reconhecer a rejeição que sofre e respeitar a opinião pública, mostrando que vai corrigir seus erros. Afirmar que as condenações do Lula foram dadas por um juiz declarado suspeito, mas  parar de negar que houve corrupção no seu governo, mostrada por malas de dinheiro, poupudas contas no exterior. Assumir compromisso de proteger o povo contra a inflação e evitar os discursos insanos com o negacionismo da necessidade de responsabilidade fiscal. Parar de desculpar erros autoritários de governos amigos. Deixar de acusar de golpistas aos milhões de brasileiros democratas descontentes que foram às ruas pedir o impeachment do governo do PT embora não do Lula.

O negacionismo de Bolsonaro colocou o Brasil no abismo, mas sua reeleição pode ser o resultado do negacionismo da terceira via, ao não reconhecer a força de Lula, e do negacionismo do PT, ao não perceber os fatos reais que provocaram a rejeição que sofre; e não adotar narrativas sem manipulações e assumir compromissos mais amplos, capazes de atrair os votos necessários para ganhar e formar uma coalizão capaz de governar.

Os erros e negacionismos podem cobrar o alto preço de mais quatro, e quantos mais, anos no abismo.

* Cristovam Buarque é ex-senador, ex-governador e ex-ministro. É também uma das vozes mais lúcidas da política brasileira

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