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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Igreja evangélica em crise – entrevista com o pastor Caio Fábio

A Rodolfo Capler, o fundador do Movimento “Caminho da Graça” comenta a atual conjuntura política e compartilha suas impressões sobre o segmento religioso

Por Rodolfo Capler Atualizado em 8 ago 2022, 14h52 - Publicado em 31 jul 2022, 17h20

Desde a segunda metade do século 20, com o fluxo migratório de nordestinos – que fugiam da seca que atingiu o interior do Nordeste – para as cidades, o número de evangélicos não parou de crescer no país. Para o antropólogo Juliano Spyer, a paisagem social brasileira modificou-se com milhares de famílias trabalhadoras se dirigindo para bairros novos e distantes das cidades, transformando o Brasil num país majoritariamente urbano. Essa alteração demográfica forjou o terreno onde se processou o chamado boom evangélico, pois as famílias (predominantemente católicas), que se evadiam da seca nordestina não encontravam ambientes de culto nos locais para os quais se dirigiam. Dessa forma, as comunidades evangélicas – que para funcionarem necessitam apenas de um registro em cartório – ocuparam essa lacuna deixada pela Igreja Católica, acolhendo milhões de pessoas, sobretudo nas três décadas finais do último século. 

O crescimento evangélico é notado em todos os setores da sociedade brasileira, com a presença de evangélicos nos espaços institucionais, abarcando cargos no governo, em escolas e universidades e na grande mídia. A cada ano são abertas 14 mil novas igrejas e o número de fiéis, segundo dados da pesquisa realizada em 2020 pelo instituto Datafolha, já passa dos 65 milhões, constituindo 31% da população. Os evangélicos continuarão crescendo e, provavelmente, em menos de quinze anos, se tornarão maioria no país. As projeções sociológicas em relação ao segmento são diversas e apontam aspectos positivos e negativos, incluindo maior promoção de igualdade de gênero, aumento da escolarização das classes mais pobres, incidência de discursos de ódio e aumento de atos de intolerância religiosa no país. 

Para lançar luz à complexidade do movimento evangélico e facilitar uma análise mais aprofundada sobre a atual conjuntura político-religiosa do país, entrevistei o reverendo Caio Fábio D’Araújo Filho. Fundador do Movimento “Caminho da Graça”, o pastor Caio Fábio é considerado a figura mais importante da história do evangelicalismo brasileiro, tendo exercido uma liderança de âmbito nacional durante três décadas como pastor presbiteriano. Homem extremamente culto, detentor de uma singular capacidade retórica e dotado de inteligência acima da média (caracterizada por laivos de genialidade),  Caio é um dos maiores conhecedores da igreja evangélica no Brasil e também um dos seus mais mordazes críticos. 

Leia a seguir a entrevista completa:

Rodolfo Capler – O senhor começou a pregar o evangelho no início dos anos 1970, quando os evangélicos representavam 5,2 % da população. Hoje, 31% dos brasileiros se autodeclaram aderentes ao movimento. A que se deve este vertiginoso crescimento?

Caio Fábio – Eu me converti ao evangelho no final da década de 1960, quando os evangélicos eram inexpressivos. Em geral, as igrejas evangélicas naquele tempo eram compostas por pessoas muito pobres e incautas. Diga-se de passagem, dos agrupamentos da sociedade brasileira da época, os crentes representavam o grupo mais ignorante e rasteiro em termos de educação. As igrejas históricas (congregacionais, luteranas, presbiterianas, batistas e metodistas), eram exceção à regra. Nos ambientes históricos, encontravam-se aqui e acolá, pessoas muito cultas e intelectualizadas. A igreja da época tinha, por exemplo, homens do calibre do ex-ministro do STF Antônio Martins Villas Boas (de tradição Batista) e do pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos da Assembleia de Deus em Manaus, que chegou a ser presidente das Assembléias de Deus do Brasil. O Alcebíades era membro de várias instâncias internacionais e um “príncipe” com capacidades extraordinárias. Nunca mais a Assembleia de Deus produziu ninguém – nem de longe – com o estofo dele.  O meu pai, reverendo Caio Fábio, era uma dessas pessoas que destoava daquilo tudo. Homem erudito e bem-sucedido, teve a maior banca de advocacia do estado do Amazonas. Ele se converteu a fé cristã sozinho, lendo a Carta aos Hebreus e tornou-se um pastor presbiteriano respeitadíssimo. Penso que ele só conseguiu se manter naquele processo, pois, apesar dos evangélicos serem – como eu disse há pouco -, rasos em conteúdo, eles eram sinceros de coração. Ou seja, havia naquelas pessoas, muitos legalismos e interditos morais, entretanto, eles acreditavam no evangelho e levavam a sério o conteúdo da fé que praticavam. A sinceridade deles atraía as pessoas às igrejas. De todos os grupos evangélicos, nenhum manifestou maior sinceridade de coração do que os pentecostais, até a década de 1970. A bem da verdade, eles foram responsáveis pelo crescimento evangélico, pois, tocavam nas pessoas, oravam por cura, expressavam uma fé quente e enxergavam aquela massa de pessoas pobres e inviabilizadas. O movimento pentecostal se resumia em gente pobre e trabalhadora pregando para gente pobre e trabalhadora. Ao contrário das igrejas históricas, que não cresciam muito, porquanto pregavam uma mensagem elitizada e distante das classes econômicas mais baixas, os crentes pentecostais falavam a linguagem daquela gente.

Associado aos fatores da sinceridade de fé e da paridade socioeconômica, manifestados pelos grupos pentecostais, o advento do chamado movimento neopentecostal no fim dos anos 1970 – com a ascensão das igrejas Universal do Reino de Deus (IURD), Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra entre outras – redundou num crescimento rápido das igrejas evangélicas, que passaram a utilizar, com muita maestria, os meios de comunicação de massa para cativar uma turba de pessoas de origem humilde, que tornavam-se cada vez mais encantadas pela Teologia da Prosperidade com suas promessas de benesses materiais… 

Rodolfo Capler – Reverendo, por que há tantos escândalos nas igrejas evangélicas? Quais são os fatores que contribuem para que isso ocorra com tanta frequência?

Caio Fábio – Desde o começo do meu ministério em Manaus, no início dos anos 1970, eu acreditava que os evangélicos tinham jeito. Eu nutria a esperança de que era possível que se fizesse uma grande revolução do evangelho no Brasil. Eu comecei a pregar nas ruas e nas esquinas. Pregava para as comunidades hippies, que naquele tempo afloravam em Manaus, de modo que meus melhores amigos eram hippies que fumavam muita maconha e que adoravam chá de cogumelo, ayahuasca e sexo livre. Centenas deles se converteram com o meu testemunho de vida. Assim, uma pequena revolução do evangelho ocorreu na cidade e, inesperadamente, eu estava pregando dominicalmente na TV Globo no Amazonas, a convite do doutor Phelippe Daou. O meu programa fez muito sucesso e, em pouco tempo, já estava cobrindo o Recife, o Nordeste e a região sul do país. Sem que eu percebesse, por volta de 1979 eu já era uma figura reconhecida e aclamada nacionalmente entre os evangélicos e entre os não evangélicos. Espíritas kardecistas, umbandistas e praticantes de outras religiões de matriz africana me convidavam para pregar o evangelho em seus ambientes de culto. É importante dizer que naquele período eu terminava meu programa incentivando as pessoas a procurarem uma igreja evangélica próxima de suas casas, sendo um agente de convergência.  Aquele foi um tempo promissor para a igreja evangélica mundial, assim como para algumas parcelas da igreja que se encontravam no Brasil. Eventos como o Pacto de Lausanne em 1974 e as grandes Cruzadas Evangelísticas do Dr. Billy Graham, marcaram a década de 1970.

O meu convívio com os mais diferentes grupos denominacionais, de ponta a ponta e de um extremo ao outro do país, me fez acreditar que naquelas pessoas havia um potencial extraordinário. Porém, elas eram muito ignorantes e, muitas vezes, truculentas. O meu coração me convenceu que elas só eram obtusas como eram porque lhes faltava ensino. Paralelamente às manifestações singelas do evangelho, que surgiam corriqueiramente em território nacional, houve o acolhimento e a propagação da Teologia da Prosperidade e da chamada Confissão Positiva pelos grupos neopentecostais. Em pouco tempo o movimento neopentecostal adulterou o evangelho com as práticas mais perversas e vis que se possa imaginar. Homens como Robson Rodovalho (Sara a Nossa Terra), Estevam Hernandes (Renascer em Cristo), R.R. Soares (Internacional da Graça de Deus) e Edir Macedo (IURD), foram os grandes propagadores das maiores aberrações e corrupções da mensagem do evangelho no Brasil. Quando eu vi aquela manipulação toda sendo feita em nome Deus, fui ter com o Edir Macedo. Em nosso primeiro encontro, ele me disse, olhando nos olhos: “Você pesca com minhoca, com peixe e com camarão. Eu, ao contrário, não tenho essa sua capacidade, esse seu conteúdo e essa sua retórica, por isso eu pesco com merda. O povo que eu atraio, gosta de merda e é isto que eu ofereço a eles” [Semelhante relato está registrado em vídeo no Canal do YouTube de Caio Fábio, no dia 29.11.2018. A coluna procurou o bispo Edir Macedo, mas ele não respondeu]. Quando perguntei a ele o porquê de tanta trapaça e falsificação da mensagem de Jesus, ele me falou naturalmente: “Reverendo, o que o senhor faz está certo, mas não dá certo!”. Tendo criado em a VINDE (Visão Nacional de Evangelização), em 1978, eu, juntamente com alguns amigos, propusemos a realização do  Congresso Brasileiro de Evangelização (promovido em 1983 no Mineirinho em Belo Horizonte), que teve adesão de todos os presidentes de todas as denominações do país. O CBE, como ficou conhecido, foi o embrião da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), organização fundada em 1991,  por mim e por um grupo de pastores amigos (chamados de “irmãos da caminhada”). O objetivo da AEVB era estabelecer parâmetros éticos do que era “ser evangélico” no meio daquela loucura erigida pelo Macedo. Eu fui presidente da AEVB por oito anos, nos quais me levantei contra todas aquelas aberrações macedianas que maculavam a imagem do evangelho e dos evangélicos perante a sociedade. Mais de cento e vinte mil pastores das mais variadas denominações se vincularam à organização. O sucesso da AEVB foi tão grande que figuras nefastas como Manoel Ferreira, líder das Assembleias de Deus Madureira, e Edir Macedo (IURD), me procuraram manifestando o desejo de fazerem parte da associação. Tal pedido lhes foi, peremptoriamente negado, pois conforme eu havia dito em determinada ocasião ao Macedo, a AEVB, “só havia sido formada  para se diferenciar daquilo que ele representava”. Durante aquelas décadas, a minha presença era um fator de convergência entre os evangélicos, de modo que o que eu falava reverberava entre luteranos e pentecostais. Entretanto, com o meu rompimento com o movimento evangélico, após o meu divórcio, em 1998, a coisa deteriorou-se. Não havia mais nenhuma figura que exercesse a mesma autoridade, coragem e capacidade de conciliação que eu exercia. Então, de lá para cá, os escândalos, manipulações e desvios doutrinários se tornaram lugar-comum nas igrejas evangélicas. 

Rodolfo Capler – Segundo uma projeção linear do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, em 2032 o número de evangélicos se igualará ao de católicos e logo em seguida, em 2036, ultrapassará essa marca. Como será o Brasil hegemonicamente evangélico?

Caio Fábio – Há décadas que tais prospecções são feitas, porém, penso que os evangélicos já se tornaram um grupo hegemônico, faz muito tempo. Vide o fenômeno dos “desigrejados”, que segundo alguns estudiosos já chegam a 16 milhões de pessoas. É um mar de gente que se identifica como evangélica, mas que não aguenta mais fazer parte do circo de manipulações que se tornou a igreja evangélica. Todos os dias eu falo com essas pessoas que me ouvem pelo YouTube, Facebook e Instagram. Muitas delas são filhos de pastores que não suportam mais o cinismo de seus pais e correm para mim, porquanto sabem que da minha boca procede a verdade do evangelho. Até mesmo alguns parentes mais jovens do Silas Malafaia, certa vez me procuraram, dizendo não tolerar  as coisas nefastas que ele pratica e ensina. [Semelhante relato está registrado em palestra concedida por Caio Fábio à PUC São Paulo em 01.10.2019. A coluna procurou o pastor Silas Malafaia. Leia a reposta ao final da entrevista] Por essa razão, milhões de jovens estão abandonando as igrejas. Embora, cada vez mais, um número crescente de membros da nova geração se identifique como evangélicos, há um montante incontável que não as frequenta mais e nem deseja se associar a elas. 

Um Brasil “hegemonicamente evangélico” já existe e é o que está aí posto; cada vez mais violento, burro, obtuso, preconceituoso, homofóbico, misógino, machista, racista, intolerante, fundamentalista e fanatizado. Infelizmente, enquanto houver pessoas ignorantes essas estruturas se manterão de pé. A única coisa que pode mudar esse quadro é a instrução, coisa que os evangélicos não querem. Portanto, o que veremos no futuro do Brasil de maioria evangélica, é apenas mais do mesmo.

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Rodolfo Capler – Como o senhor enxerga o apoio irrestrito da maioria das igrejas e lideranças evangélicas ao bolsonarismo? 

Caio Fábio – Desde a formação da chamada Bancada Evangélica, na década de 1980, as lideranças evangélicas passaram a orbitar em torno do poder político. A maioria desses líderes se odeiam e são verdadeiros ateus – no sentido ruim do termo. Eles não têm nada a ver com Jesus, muito menos creem nele. Esses homens são inescrupulosos e fazem qualquer negócio, “porque dá certo”. É importante dizer que são os pastores, em sua grande maioria, que aderiram ao bolsonarismo – noventa por cento deles estão com o Messias. Já os membros das igrejas não o apoiam massivamente, como comprovam as recentes pesquisas eleitorais. 

O que explica o conluio de quase a totalidade das lideranças evangélicas com Bolsonaro é o fascínio pelo poder. Eles estão do lado de um homem burro, absolutamente maluco e compulsivamente mau, porque estão em busca do poder terreno. Por exemplo, o Silas Malafaia que no passado apoiou apaixonadamente o Lula, está agora de joelhos diante do Bolsonaro. Tais líderes evangélicos bolsonaristas possuem uma natureza camaleônica. Aliás, a igreja evangélica é camaleônica. Foi assim na história dos Estados Unidos da América. Os EUA se apresentavam como o novo Israel de Deus ao mundo. Eles pensavam ser a luz do mundo, de tal modo que a igreja norte-americana aderiu completamente ao sistema político vigente da época; a saber, a democracia. Isso é tão emblemático que não foi em vão que a denominação evangélica que mais cresceu na América foi a Batista, que possui o sistema organizacional congregacional democrático. Essa é a história da igreja evangélica: ela vai se imiscuindo nas estruturas de poder e buscando sempre estar ao lado dos poderosos.

Rodolfo Capler – Como o senhor vê o envolvimento dos evangélicos (e de muitos pastores) na política?

Caio Fábio – Já vimos o que os evangélicos podem fazer na política e o que temos visto é vergonhoso e horrível mesmo. Os evangélicos já provaram que são tão ou mais corrompidos que os demais, sem falar que em geral são uns malandros burros, oportunistas, despachantes de pequenos interesses, moralistas, e sem qualquer qualidade ética e de consciência. No atual quadro político não nos faltam evangélicos em todas as instancias do poder, e a presença deles nada significou além de vergonha, despreparo, ufania, e incapacidade de se enxergarem e oferecerem um mínimo de lucidez a qualquer coisa. Já quanto a participação de pastores na política, defendo que nenhum pastor deve se candidatar como pastor, e muito menos em nome de Deus. Quem desejar pleitear um cargo desses deve fazê-lo em nome de sua própria consciência como indivíduo, e nunca em nome da igreja e muito menos em nome de Deus. Fazer isto é ideologizar a Deus e a igreja, e o fim é sempre blasfemo e corrompido. A maioria dos pastores que se candidata acaba sendo apenas aqueles oportunistas que concluíram que a igreja é o melhor curral eleitoral que pode existir. São uns lobos explorando a ingenuidade do rebanho, de modo que se eu tiver que atribuir responsabilidade ao presente momento de corrupção da igreja, eu diria que 30% vem do envolvimento da igreja com a mais sórdida forma de fazer política – tem pastor mandando matar irmão para ficar com o cargo; e não são apenas dois casos; mas vários – usando e abusando do nome de Deus de modo nauseante e asqueroso. Entretanto, eu estimulo a participação de alguns irmãos de fé na política, conquanto não representem nenhum nome, nenhuma bandeira e nenhum signo de natureza religiosa. Os cristãos que desejam participar da política devem manifestar a espiritualidade de Jesus e não o cristianismo constantiniano, ou seja: devem defender valores humanitários. Eles precisam carregar a espiritualidade de Jesus e se dissolverem no ambiente político…

Rodolfo Capler – Hipoteticamente, como seria a igreja evangélica com a reeleição de Bolsonaro ou com a eleição de Lula?

Caio Fábio – Se Bolsonaro for reeleito nada mudará nas igrejas evangélicas. O processo de enrijecimento institucional – como o manifestado pela Igreja Presbiteriana do Brasil, que se reúne agora em Cuiabá cogitando banir fiéis de esquerda, entre outras aberrações -, continuará a se intensificar com os evangélicos se tornando cada vez mais fanatizados, obtusos, violentos e complacentes com as maldades bolsonarianas. Já se Lula for eleito, haverá um tensionamento em relação aos evangélicos – eles experimentarão a mesma liberdade que experimentaram na era PT, período em que mais cresceram e se expandiram em sua história. Eu teria razões para não desejar ver o Lula nem “pintado de ouro” na minha frente, por causa de experiências pessoais ruins que tive com ele, porém não posso negar que Lula é democrático, coisa que Bolsonaro não é. É importante dizer que eu conheço os dois há muito tempo. Como vivi boa parte da minha vida no Rio de Janeiro, acompanho a carreira política do Bolsonaro há 30 anos. Eu sei de histórias impensáveis a respeito dele e dos filhos dele. Infelizmente, eu não tenho nada de bom para dizer sobre ele e sobre a sua família. O Lula eu conheci ainda na década de 1980 e nos tornamos amigos por dez anos. Ele se aproximou de mim, de forma mais íntima, no início dos anos 90, manifestando de forma muito singela o desejo de estar ao meu lado e de aprender coisas espirituais comigo. A nossa amizade perdurou até 1998 com o episódio do Dossiê Cayman. Agora, voltando a sua pergunta, se eleito, Lula poderá fazer algo significativo ao Brasil, isso se deixar a vaidade de lado e esquecer aquela ideia fixa que ele tem de querer ser o Mandela brasileiro. 

Rodolfo Capler – Na última Marcha para Jesus em Vitória no Espírito Santo (23/julho), os manifestantes evangélicos levantaram uma réplica gigante de um revólver, entre outros símbolos de violência. Por que o movimento evangélico tem abraçado uma cultura bélica?

Caio Fábio – Eles não estão abraçando uma cultura bélica; eles sempre foram violentos e belicosos. A igreja evangélica comumente se aproxima do militarismo. Haja vista as fanfarras e bandas marciais de muitas denominações evangélicas, que incluem muitos policiais militares como tocadores de instrumentos. O linguajar evangélico é agressivo e aguerrido. Isso é claramente percebido nas músicas cantadas congregacionalmente e nas mensagens pregadas nos púlpitos – há sempre um inimigo externo a ser derrotado e combatido.  A atração dos evangélicos pelo militarismo é historicamente demonstrada pelo apoio de todos os grupos denominacionais à Ditadura Militar, entre os anos de 1964 a 1985 no Brasil. A Igreja Presbiteriana do Brasil (pela qual nutro um carinho especial), apoiou o Golpe de 1964. Por exemplo, o pastor presbiteriano Boanerges Ribeiro perseguiu aqueles que pensavam diferente e que tinham um pouquinho mais de sensibilidade social, os entregando ao regime. O Rubem Alves, inclusive, foi dedurado pelos próprios amigos e teve que se viver exilado nos Estados Unidos. No meio batista, o pastor Nilson Fanini entregou muita gente aos militares… Penso que o atual encantamento dos evangélicos pelas armas é apenas a manifestação pública da natureza bélica que sempre tiveram.  

Rodolfo Capler – Qual mensagem o senhor gostaria de deixar ao eleitor evangélico?

Caio Fábio – Eu diria o seguinte: leiam de carreirinha os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João),  e anotem aqueles trechos que registram o que Jesus fez. “Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu…”, “Cheio de compaixão Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja limpo!”, “Declarou Jesus: “Eu também não a condeno”… Essas e outras passagens dos Evangelhos devem ser grifadas, relembradas e praticadas pelos evangélicos e precisam ser levadas em conta na escolha dos seus candidatos políticos. Qualquer político que contrarie os princípios humanitários de Jesus, não é digno de nossa confiança, muito menos do nosso voto. 

[Resposta do pastor Silas Malafaia à citação do reverendo Caio Fábio: “Caio Fábio é um ‘cachorro morto’ que vive o tempo todo tentando ressuscitar a minha custa. Peça para ele me dar nomes. Ele era o pastor número 1 do Brasil quando eu era um jovem pastor, mas caiu em desgraça por suas próprias condutas. Por favor, peça a ele que cite os nomes dos meus parentes. Talvez, se ele  amarrar uma melancia no pescoço, não precisará aparecer a minha custa. ‘Parentes novos meus?’ Meus parentes mais novos são todos pastores comigo. Eles trabalham ao meu lado na igreja que eu comando. Caio Fábio não tem mais voz no mundo evangélico”].

* Rodolfo Capler é teólogo, escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP

 

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