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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Festa de Michelle Bolsonaro provocou polêmica pelos motivos errados

O importante é que língua André Mendonça vai falar no Supremo

Por Matheus Leitão Atualizado em 6 dez 2021, 13h12 - Publicado em 6 dez 2021, 13h09

A vitória do pastor André Mendonça para o posto de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) gerou mais uma grande polêmica: ataques à primeira-dama Michelle Bolsonaro porque ela comemorou “falando em línguas”, uma expressão pentecostal dos dons do Espírito Santo, que os evangélicos interpretam estar definido na Bíblia.

A liberdade religiosa resolve essa questão. Cada um tem a sua fé e precisa ser respeitado por isso. Incluindo, Michelle Bolsonaro, casada com o negacionista e desumano presidente da República.

O importante dessa nova polêmica é: não importa que línguas espirituais fala a Primeira Dama, mas, sim, que língua falará o novo ministro que será empossado dia 16 de dezembro no Supremo.

André Mendonça teve um comportamento errático, para dizer o mínimo, como ministro da Justiça e como Advogado-Geral da União. Ele deixou a questão religiosa muitas vezes invadir as decisões de Estado. E esse é o problema central de todo esse debate. Não é nada contra os evangélicos. Nem a fé que ele professa. Mas fundamentalmente a garantia de que as decisões de Estado serão tomadas conforme a Constituição.

Na sabatina, ele se comprometeu com o Estado laico, que é uma ordem da Constituição. Assim que foi aprovado, já fez uma declaração religiosa interpretando a vitória dele mesmo como um “grande passo para os evangélicos”. Isso mostra que ele pretende ser mesmo um representante desse grupo religioso, e não um jurista de olho no que diz a Constituição.

Depois, foi comemorar e testemunhamos essa cena com Michelle Bolsonaro, que acabou divulgada e, na qual, todo mundo comemora achando que há uma intervenção divina para ele ter sido aprovado.

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Aí, sim, mora o perigo. O perigo é a Teocracia: ou seja tomar decisões de Estado com base em uma religião, qualquer que ela seja. Isso não pode acontecer.

Trata-se de um retrocesso. A mistura da religião com o Estado acontece desde o começo do governo Bolsonaro. E boa parte dos evangélicos esqueceu, de verdade, o amor pregado por Cristo e estão se organizando como facção política.

Não escrevo por preconceito contra a religião evangélica, que de fato não tenho. Mas como analista é preciso reconhecer que os evangélicos têm se organizado como se fossem um partido político, mas não querem ser tratados como tal. Se sentem ofendidos quando são descritos pelo que são hoje. Apesar de estarem distribuídos em vários partidos, eles agem como bancada na mesma direção.

É errado qualquer grupo religioso se organizar como partido político ou como facção política e mais perigoso ainda quando isso contamina as decisões tomadas pelo governo, como se vê agora. Isso é um retrocesso de meio milênio. Retrocede-se a antes de 1500, quando começou todo o processo da reforma protestante, na qual um dos pilares, como lembrou Mendonça na sabatina,  é o da separação entre o Estado e a Igreja.

A comemoração religiosa dele, da primeira dama, de políticos e religiosos levanta um alerta de que o compromisso com a laicidade das suas decisões no Supremo não foi verdadeiro. O perigo é o que André Mendonça vai fazer no Supremo. Se acredita que vai cumprir a pauta dos evangélicos, não vai seguir o que se exige de um magistrado, o respeito à Constituição. À Constituição somente.

Em tempo: Há ainda um agravante no caso de Michelle Bolsonaro. Há uma ação sendo julgada no Supremo – que pode ser decidida pelo novo ministro André Mendonça –  e que trata do cheque que a primeira-dama recebeu em sua conta bancária pessoal.

O tal cheque inexplicável do Fabrício Queiroz, o faz tudo de Flávio Bolsonaro na administração do gabinete. O dinheiro teria vindo da rachadinha. Flávio tem obtido muitas vitórias na Justiça, mas a dúvida permanece sobre a origem desse dinheiro do Queiroz.

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