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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Democracia sai machucada do governo Trump, diz professor na Univ. do Texas

O jornalista Rosental Calmon Alves, docente em Austin há 25 anos, avalia o quadro eleitoral e político dos Estados Unidos

Por Matheus Leitão Atualizado em 3 nov 2020, 12h34 - Publicado em 3 nov 2020, 12h14

Desde que chegou a Austin, no Texas, há um quarto de século, o jornalista, professor e consultor de mídia Rosental Calmon Alves percebeu estar numa ilha azul em meio a um mar vermelho. A cidade sempre vota democrata e o Texas, desde a eleição de Jimmy Carter, em 1976, dá vitória consecutiva ao Partido Republicano.

Rosental conta que, desta vez, “há um clima de otimismo e ao mesmo tempo muito temor” pelo risco de violência estimulada pelo presidente Donald Trump. O professor vê a cena americana como brasileiro, mas também como jornalista, ex-correspondente, e, há um longo tempo, morador daquele país.

Ele avalia que são pequenas as chances de Trump vencer, mas que a eleição do republicano “deu vitórias duradouras para a direita conservadora americana” e enfraqueceu a democracia nos EUA.

Em matéria de avanços na economia, explica Rosental, há mais apoio a Trump do que a Biden. “Na economia, as pesquisas mostram um apoio ao Trump maior que ao Biden. Mas a verdade é que nem isso tem sido usado na campanha. O Trump só fez atacar o Biden, pouco falou de sua própria agenda e nem de suas relativas vitórias na área”, diz o professor.

Mas como seria um eventual governo Biden, já que o democrata tem liderado as pesquisas de opinião? Rosental responde: “Seria a volta da normalidade, sem as maluquices do Trump, sem os tuítes e as mentiras diárias.” Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Veja – O ambiente em Austin como está? Dizem que Austin é Democrata mas, o Estado, como se sabe, é tradicionalmente Republicano.

Rosental Calmon Alves – Cheguei a Austin há quase 25 anos e logo entendi que estava numa ilha cercada de Texas por todos os lados. Um ponto azul (Democrata, liberal), num mar Vermelho (Republicano, conservador). Aqui há um ambiente de otimismo em relação a uma possível vitória do Biden, mas também muito temor e muita ansiedade, pois o país nunca esteve tão dividido. Tivemos algumas demonstrações ruidosas e estranhas dos apoiadores do Trump, como por exemplo uma parada de lanchas embandeiradas que resultou em acidentes, semanas atrás. E um estranho incidente na semana passada, quando um ônibus da campanha do Biden foi cercado por camionetes de trumpistas, que bloquearam sua passagem na autoestrada entre San Antonio e Austin. Uma camionete dos trumpistas bateu num carro que estava acompanhando o ônibus da campanha do Biden. O pior é que o Trump elogiou o ato hostil dos seus apoiadores.

Veja – Os analistas dizem que as pesquisas estão dando Biden, mas todo mundo tem medo de 2016. O espírito de 16 é só o assombro, ou você acha que há riscos de o Trump vencer?

Rosental Calmon Alves – As possibilidades de o Trump vencer são pequenas, bem menores do que na eleição de 2016, mas existem. Nestas últimas semanas da campanha, os Democratas vinham agindo como gato escaldado. Procuravam ignorar o já-ganhou de quatro anos atrás, mesmo com sinais bem mais positivos que os da eleição passada. Por exemplo, em 2016, a vantagem da Hillary sobre o Trump na média das pesquisas era de quatro pontos percentuais. Desta vez, a vantagem do Biden é de 9 pontos.

Veja – Em que condições ele venceria?

Rosental Calmon Alves – Da mesma maneira que ele venceu da última vez, graças a vitórias extremamente apertadas em alguns dos estados-chave e uma derrota enorme no voto popular nacional. Aqueles estados-chave garantiriam os votos que ele precisaria no colégio eleitoral, mas não é isso que está pintando nas pesquisas. Desta vez, as chances do Biden nestes estados são melhores que as da Hillary, mas ainda assim são situações complicadas. Os redutos do Trump ainda são fortes.

Veja – O Washington Post disse que houve um pico de venda de armas. Você acha que haverá violência?

Rosental Calmon Alves – Não creio que o pico de venda de armas seja um indício de que vem violência por aí, mas, se vier, o presidente Trump terá enorme responsabilidade. Ele tem incitado a violência indiretamente. Não faz nada para acalmar o país. Ao contrário, ele tem posto em dúvida a lisura das eleições, manda seus apoiadores saírem para fiscalizar as urnas, como se não houvesse sistemas eficientes e comprovados de fiscalização dos dois partidos. O pior é que o Trump deixou claro que se perder, poderá não aceitar o resultado das urnas – algo sem precedentes na história dos Estados Unidos. Não há dúvidas de que ele vai criar confusão. Já contratou mais de seis mil advogados, que estão espalhados por todo o país e já começaram com chicanas e processos para tumultuar a eleição. Por outro lado, as cidades se preparam para manifestações violentas, cobrindo as vitrines com placas de madeira, como se faz quando tem furacão à vista.

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Veja – Como a democracia representativa americana sai desses quatro anos de Trump?

Rosental Calmon Alves – A democracia sai muito machucada, qualquer que seja o resultado. Trump enfraqueceu a democracia, lutou contra ela, aguçou a divisão, a polarização. Investiu em semear o medo para colher dividendos de popularidade nas suas bases. Governou para essas bases, sem se importar com o resto. Deu vitórias muito importantes e duradouras para a direita americana. Se perder, vai deixar o Partido Republicano também muito machucado, pois o transformou no Partido do Trump. Os Republicanos não se importam por enquanto, pois conseguiram vitórias extraordinárias, como a nomeação de juízes conservadores ideológicos, que vão influenciar as decisões do país nas próximas décadas. Mas no longo prazo, eu acredito que virá uma conta alta para os Republicanos.

Veja – Na quinta, foi divulgado um grande crescimento da economia americana no terceiro trimestre. Isso pode ajudar Trump?

Rosental Calmon Alves – Em matéria de economia, as pesquisas mostram um apoio ao Trump maior que ao Biden. Mas a verdade é que nem isso tem sido usado na campanha. O Trump só fez atacar o Biden, pouco falou de sua própria agenda e nem de suas relativas vitórias na economia. Preferiu tentar desmoralizar o Biden com ataques pessoais ou dizendo que se o Biden ganhar, a economia vai para o buraco.

Veja – Você acha que se for para a Suprema Corte, a nova juíza poderá votar a favor de Trump? Não seria um absurdo conflito de interesses?

Rosental Calmon Alves – Seria um absurdo, mas não seria surpreendente, pois a própria indicação dela foi absurda se considerarmos que os Republicanos prometeram que não indicariam uma juíza para a Suprema Corte num ano de eleição. E o fizeram no meio de uma eleição. Ela deveria se recusar a votar em qualquer processo relativo às disputas desta eleição, pois acaba de ser nomeada. Mas tecnicamente, parece que não há nada que a obrigue a se recusar. Como não havia para que os senadores republicanos mantivessem a sua palavra sobre a nomeação para a Suprema Corte num ano eleitoral.

Veja – Sua expectativa é de um resultado rápido ou demorado como o de Bush Filho?

Rosental Calmon Alves – A situação é bem diferente dos problemas da Flórida no ano 2000, mas o resultado só será rápido se o Biden ganhar de lavada, como os democratas mais otimistas preveem. O sistema eleitoral americano é extremamente descentralizado e muito confuso. Alguns estados terão resultados rápidos, mas outros, como a Pensilvânia, que poderá vir a ser fundamental, precisará de dias, talvez semanas para contar os votos. O problema não será a demora, mas a ameaça que Trump está fazendo de alegar que houve fraude, mesmo sem prova. Ele já disse que se o resultado não sair rápido, é porque houve fraude – mesmo sem nenhum indício.

Veja – Há chances de redutos Republicanos, como Florida, Georgia e Texas, surpreenderem?

Rosental Calmon Alves – Sim, muita chance. Nesses três estados importantes, há empate técnico. Aqui no Texas, os Democratas não vencem desde 1976, na eleição do Jimmy Carter. Mas nunca estiveram tão próximos de uma vitória. A média das pesquisas dá uma vantagem mínima para o Trump, com 50.2% a 48.8%. É uma situação similar à da Flórida, onde o Biden está na frente com 50.9% a 48.4%.

Veja – Como seria um possível governo Biden? O que você acha importante nas promessas que ele fez?

Rosental Calmon Alves – Seria a volta da normalidade, sem as maluquices do Trump, sem os tuítes e as mentiras diárias. Acho que a volta à normalidade é a maior promessa do Biden, mas isso significa botar para cuidar do meio ambiente alguém que quer proteger o meio ambiente; botar na educação alguém que acredita na educação pública; voltar a acreditar na ciência; voltar a apoiar os aliados e parar de bajular os adversários; encarar de frente problemas como o aquecimento global; e fazer com que os mais ricos e as grandes corporações paguem mais imposto (ou algum imposto).

Veja – O voto antecipado ajuda ou atrapalha Biden?

Rosental Calmon Alves – A grande expectativa é de que ajude o Biden. Principalmente aqui no Texas, onde os jovens e as minorias que não participavam das eleições se sentiram motivadas e bateram todos os recordes de votos antecipados. Nunca se viu isso antes aqui. Mais pessoas votaram antes do dia da eleição este ano que em toda a eleição de 2016! Vamos ver. Falta pouco.

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