Clique e Assine a partir de R$ 9,90/mês
Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

O mal que faz um presidente politicamente frágil

Ao ceder a pressões de juízes do STF e de outros servidores, Temer imagina reduzir impopularidade. Ficam piores os desafios fiscais do próximo governo

Por Maílson da Nóbrega Atualizado em 30 ago 2018, 14h05 - Publicado em 30 ago 2018, 10h38

Ontem, em um único dia, o presidente Temer tomou duas decisões que transferem para os próximos governos uma má herança fiscal. Na primeira, desistiu de adiar a parcela dos reajustes de servidores públicos concedidos pela ex-presidente Dilma Rousseff, que estava prevista para 2019. Na segunda, cedeu a pressões do Supremo Tribunal Federal (STF) para aumentar os honorários dos ministros em 16,38%. Calcula-se que a primeira decisão implicará gastos adicionais de R$ 7 bilhões. A segunda, pelos efeitos em cascata nos salários de juízes e procuradores Brasil afora, custará perto de R$ 5 bilhões.

Os servidores do Judiciário constituem uma das mais privilegiadas corporações do serviço público. Eles integram o grupo dos 1% mais ricos do país. Como um todo, os servidores públicos têm salários 67% superiores aos pagos pelo setor privado para funções semelhantes. Nos últimos vinte anos, o funcionalismo público federal ganhou aumentos salariais de 60% acima da inflação, em comparação com 10% no setor privado.

O aumento dos honorários dos ministros do STF foi justificado com o fim do auxílio-moradia, que seria incorporado nos respectivos vencimentos. Ora, esse penduricalho é de difícil justificativa. Juízes o recebem mesmo que tenham residência própria no local onde exercem suas funções. Há casos de casais de juízes que moram sob o mesmo teto, mas tanto o marido como a esposa recebem o auxílio. Na verdade, esse acordo valida um benefício escandaloso, acessível apenas aos juízes.

Além disso, as decisões de Temer mostraram que, além dos generosos salários, relativamente a outros grupos da sociedade, os ministros do STF gozam de outro privilégio: têm acesso fácil ao presidente da República e aos chefes do Senado e da Câmara, para exercer pressão em favor de reajustes salariais. Nenhuma outra parcela dos trabalhadores tem essa vantagem. Tudo isso quando mais de 13 milhões de brasileiros estão desempregados. E, ainda, em meio à maior crise fiscal de nossa história.

Temer repete experiências de presidente politicamente fracos, aqui e em outros países. Eles perdem o poder de agenda e a capacidade de resistir a pressões de grupos de interesse como os dos juízes e dos demais servidores públicos. Diz-se, jocosamente, que se serve café frio a presidentes fracos ou em fins de mandato. A realidade é mais grave. Tais presidentes buscam, no fundo, medidas que possam melhorar a sua popularidade, ainda que desastrosas. Temer pensou, no íntimo, em ser bem visto por essas corporações.

O país paga a conta. Os desafios do próximo presidente, já enormes no campo fiscal, ganham uma dificuldade adicional. Triste.

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo de VEJA. Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app (celular/tablet).

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.



a partir de R$ 39,90/mês

MELHOR
OFERTA

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet. Edições de Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 9,90/mês

ou

30% de desconto

1 ano por R$ 82,80
(cada mês sai por R$ 6,90)