Conheça Nina Stanislaus, joia do sub-15 da Seleção Brasileira
Interesse da CBF abriu uma nova perspectiva para jogadora que atua nos Estados Unidos e é uma das promessas de sua geração
Entre Marias, Júlias, Beatrizes e outras jovens promessas espalhadas pelas categorias de base do futebol brasileiro, um nome chama atenção na lista da Seleção Feminina Sub-15 para a Liga Evolução da Conmebol: Nina de Deus. Não apenas pela sonoridade pouco comum, mas pelo clube que aparece logo ao lado. Enquanto 19 das 20 convocadas por Bia Vaz atuavam no Brasil, Nina chegou à Amarelinha vinda do Philadelphia Ukrainian Nationals, nos Estados Unidos, onde nasceu, cresceu e aprendeu a jogar futebol.
Aos 14 anos, Nina de Deus Stanislaus carrega uma trajetória que atravessa dois países e duas escolas de futebol. A bola apareceu cedo, quando ela tinha apenas três anos e brincava em casa ao lado da irmã mais velha. Por volta dos oito anos, o que era diversão começou a ganhar contornos mais competitivos e, pouco depois, treinar deixou de ser apenas uma atividade para se transformar em parte central da rotina da família.
“Comecei por volta dos três anos, jogando com a minha irmã mais velha dentro de casa, com aquelas bolinhas pequenas. Depois, entre oito e dez anos, comecei realmente a treinar forte. Foi quando começamos a levar aquilo mais a sério”, contou Nina em entrevista exclusiva à VEJA.
Hoje, a jovem atua pelo Philadelphia Ukrainian Nationals, da Pensilvânia, no sistema da ECNL (Elite Clubs National League), uma das principais estruturas de formação do futebol juvenil dos Estados Unidos. Individualmente, Nina já aparece entre os nomes de destaque de sua geração no país, tendo sido recentemente apontada como a atacante número 1 da classe de formatura de 2030 e a principal jogadora nascida em 2012 nos Estados Unidos.
O caminho que terminou com Nina vestindo a camisa amarela, porém, começou dentro de casa e passa diretamente pela irmã mais velha, Ella Stanislaus, conhecida como “Deus”. Ella percorreu as seleções de base dos Estados Unidos, do Sub-15 ao Sub-17, foi artilheira das Eliminatórias da Concacaf Sub-17 e capitã da seleção americana da categoria. Segundo o pai, Jacques Stanislaus, foi justamente durante a trajetória da filha mais velha que surgiu o primeiro contato com o interesse da CBF. Como Ella já estava profundamente inserida no ciclo das seleções americanas, a conversa acabou abrindo outra porta: alguém perguntou se a irmã mais nova também jogava futebol. Nina jogava. Vídeos foram enviados, veio o convite para um período de treinamentos no Brasil e a relação com a Seleção começou.
Na Liga Evolução, essa história ganhou um novo capítulo. Nina precisou não apenas se adaptar a companheiras e a uma maneira diferente de jogar, mas também atravessar uma barreira bastante concreta: o português. Depois das primeiras experiências com a Seleção, decidiu começar a estudar o idioma com uma professora particular. Na passagem mais recente, na Liga Evolução, já conseguia compreender e conversar melhor com as companheiras, embora admita que os termos utilizados dentro de campo ainda representem um desafio.
A experiência também apresentou a Nina outra forma de enxergar o jogo. Acostumada ao futebol norte-americano, que descreve como mais estruturado e preocupado com posicionamentos determinados, ela encontrou nos trabalhos de Bia Vaz uma liberdade diferente.
“Nos Estados Unidos é mais estruturado. Eles querem que a gente esteja em determinadas posições. No Brasil, deixam a gente ser mais livre e jogar de forma mais aberta”, comparou. Para Nina, Bia também foi uma treinadora “muito boa e muito acolhedora”, capaz de tornar a experiência divertida.
Para a família, a camisa brasileira também recupera uma ligação que atravessou gerações. A mãe, Betania, contou que Nina, apesar de ter nascido e crescido nos Estados Unidos, mantém forte conexão com suas raízes brasileiras. Quando soube do interesse da CBF, a adolescente abraçou imediatamente a possibilidade, inclusive com a disposição de aprender português para se integrar melhor ao novo ambiente.
Sobre a ligação de Nina com o Brasil, Betania conta que a distância nunca apagou a identidade brasileira dentro de casa. “Apesar de eu não morar no Brasil há cerca de 45 anos e de Nina ter nascido aqui [nos Estados Unidos], ela ainda se sente muito conectada à cultura dela, muito conectada às raízes. Lembro que, quando descobrimos pela primeira vez que o Brasil tinha interesse nela, ficamos muito animados. E Nina mergulhou de cabeça. Ela queria se preparar para a experiência, estava pronta para aprender o idioma e muito focada em viver tudo aquilo com uma mentalidade aberta e positiva.”
A rotina para transformar o talento em uma possível carreira profissional também exigiu mudanças na vida familiar. “Elas estudam on-line para poder focar nos treinamentos, no futebol e também no sono. É preciso muita disciplina, ir aos treinos, trabalhar, tentar dar o nosso melhor todas as vezes e colocar muita energia nisso”, explicou Betania.
A mãe também revelou que a relação da família com o futebol brasileiro é mais antiga do que ela própria imaginava. Pouco antes da entrevista, Betania conversou com a própria mãe e descobriu que tinha um primo que havia sido jogador profissional. “Eu nem sabia disso, mas tinha um primo que foi jogador profissional. Ele era primo da minha mãe. Sei que meus tios sempre jogaram, meu avô jogava e lembro que, quando era pequena, ia assistir ao meu tio jogar. Então, isso está no sangue dela.”
A adaptação de Nina à Seleção também tranquilizou a família. Segundo Betania, a filha costuma voltar dos períodos com a CBF falando sobre o acolhimento que recebe. “Uma coisa da qual Nina sempre fala muito bem é de quanto carinho recebe quando vai para as concentrações e de como é bem tratada. Ela diz que parece muito uma família. Para ela, é como se estivesse em casa.”
Até elementos simples dessa aproximação com o Brasil ganharam significado. “Até a comida, quando ela está lá, ela acha deliciosa. Ela adora arroz, feijão e tudo isso”, contou a mãe, antes de destacar também os vínculos criados com as companheiras: “E as amizades também. As meninas do time são incríveis.”
O pai, Jacques Stanislaus, também demonstra entusiasmo com a filha defendendo a Seleção Brasileira. “É incrível. Vir dos Estados Unidos e ter uma oportunidade como essa, para uma jogadora de 14 anos, é realmente um sonho. Há muita gente que trabalha muito duro para chegar a esse nível, e o fato de Nina ter conseguido fazer isso vindo dos Estados Unidos é incrível. Estamos muito felizes por ela. Parece que muitas portas estão se abrindo por causa da CBF, porque eles estão dando a ela uma plataforma para jogar. E ela está trabalhando muito para aproveitar ao máximo essa oportunidade. É algo realmente muito importante para nós.”
Sobre a rotina das duas filhas e o ambiente criado pela família, Jacques destaca a dedicação das filhas. “As meninas são muito, muito comprometidas e acho que todos nós estamos comprometidos com a mesma missão. Desde muito novas, elas decidiram que queriam ser grandes nesse esporte, e tudo o que fizemos foi pensando nisso. Nossa abordagem sempre foi tentar chegar ao mais alto nível fazendo o trabalho todos os dias. Tem sido uma questão de consistência.”
“Treinamos o tempo todo e isso tem sido consistente. Acordamos cedo de manhã e vamos treinar. Elas descansam, comem e, à noite, treinamos novamente. Tem sido assim há anos.”
Apesar da disciplina, Jacques ressaltou que existe algo mais simples por trás dessa dedicação. “Falamos muito sobre trabalho duro e disciplina, mas acho que, na raiz de tudo, existe muito amor pelo esporte. As duas são apaixonadas pelo futebol. É também uma maneira de elas se expressarem.”
Curiosamente, o próprio Jacques não tinha ligação com o futebol antes das filhas: “Tenho que ser muito sincero nessa parte. Eu cresci como lutador, então não sabia nada sobre futebol. Foi só quando Betania colocou as meninas no esporte que comecei a me interessar. Sempre digo às minhas filhas que, para mim, nunca foi sobre o esporte. Sempre foi sobre investir nelas. Como elas amam o futebol, eu me apaixonei pelo futebol também. Passei a me dedicar a entendê-lo melhor e a estar disponível para ajudá-las a serem as melhores que puderem.”
Sobre a possibilidade de existir uma ligação quase natural das filhas com o futebol. “Eu brinco com isso o tempo todo, mas está no sangue delas. Eu sempre fui ligado ao esporte, mas o futebol está no sangue delas. Pela maneira como jogam, isso parece bastante evidente para mim. Nós treinamos muitas coisas, claro, mas algumas parecem simplesmente estar nelas. Tem sido muito divertido acompanhar o desenvolvimento das duas.”
Jacques também destacou como considera especial Nina ter uma formação que mistura Estados Unidos e Brasil. “Uma das coisas incríveis é que a CBF está dando a ela a oportunidade de crescer dentro desse ambiente. É algo bastante único. Os Estados Unidos têm muita estrutura e muitas oportunidades no futebol, mas, para Nina, que é uma jogadora formada aqui, é muito especial poder ir ao Brasil e receber também essa educação futebolística. É uma formação única.”
“Até agora, grande parte da nossa perspectiva estava concentrada nos Estados Unidos, mas o futebol é um esporte global e existe muito mais lá fora. Uma das coisas que mais me animam é que estar na CBF está abrindo portas que nós nem conhecemos ainda. Acho que outras oportunidades podem surgir a partir disso.”
Para ele, a prioridade ainda é o desenvolvimento da filha. “Continuamos priorizando o desenvolvimento dela. Qualquer experiência que possa ajudá-la a se tornar uma jogadora melhor é o que buscamos. A Liga Evolução, por exemplo, foi uma oportunidade para ela jogar um ano acima da idade e ganhar experiência. Acho que ela voltou melhor até mesmo depois dessas duas semanas.”
Para finalizar, Jacques explicou o sentimento de ver Nina com a Seleção Brasileira. “É algo especial para nós e estou animado para que o Brasil conheça a Nina. Eu não sou brasileiro, mas tenho uma sensação muito forte de que é ali que ela pertence. Eu vejo isso quando assisto a ela jogando com a Seleção. Vejo também a maneira como os treinadores a acolheram. Essa parte é muito emocionante para mim.”





