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Por que o câncer de pulmão virou uma grande preocupação para mulheres

Em diversas regiões do mundo, observa-se um aumento consistente do câncer de pulmão entre mulheres sem histórico de tabagismo; entenda as causas

Por Ana Paula Zanardo* 3 set 2026, 12h00 | Atualizado em 4 set 2026, 11h47
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Antes dos anos 2000, o câncer de pulmão foi caracterizado predominantemente como uma doença de fumantes e mais frequente no sexo masculino. Mas esse perfil epidemiológico tem mudado, e compreender essa transição tem implicações clínicas relevantes. Em diversas regiões do mundo, observa-se um aumento consistente do câncer de pulmão entre mulheres sem histórico de tabagismo.

Em partes do Leste Asiático, entre um quinto e metade dos casos em mulheres ocorre em pessoas que nunca fumaram. Nos Estados Unidos, cerca de 10 a 20% de todos os pacientes com câncer de pulmão nunca fumaram, enquanto na Ásia esse número ultrapassa 30%.

No Brasil, dados recentes do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer (INCA) evidenciam que cerca de 15% dos casos não têm associação direta com o tabagismo. O câncer de pulmão é a segunda causa de óbito por câncer na população feminina brasileira, atrás apenas do câncer de mama, e tem maior mortalidade na região sul do país.

No mundo, o câncer de pulmão é a maior causa de óbito por câncer em mulheres. Os fatores predisponentes envolvidos que vão além do tabagismo estão sendo investigados e alguns se repetem na literatura, como:

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  • A poluição do ar por partículas finas (PM2,5);
  • Exposições domésticas menos discutidas, como a fumaça da queima de certos combustíveis em cozinhas mal ventiladas, e o radônio (gás radioativo de ocorrência natural).

Um estudo de coorte de casais em Xangai de 2025 constatou que, entre casais não fumantes, a incidência de câncer de pulmão foi maior nas esposas do que nos maridos (razão de incidência de 1,57).

Parte da explicação vem da genética. Esses tumores são majoritariamente adenocarcinomas e frequentemente apresentam mutações condutoras (“driver”) específicas. Uma metanálise que reuniu mais de 115 mil pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células estimou prevalência global de mutações no gene EGFR em 32,3%, com prevalência maior em mulheres do que em homens, e em não fumantes do que em fumantes.

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Tumores com essas alterações genéticas podem comportar-se de maneira distinta dos tumores associados ao tabagismo e, do ponto de vista de tratamento, podem ter terapias mais específicas (terapias-alvo). Diferenças hormonais e outros fatores biológicos ligados ao sexo também estão sob investigação, embora a evidência nesse campo seja menos consolidada.

Há também a hipótese de que as mulheres sejam biologicamente mais suscetíveis aos carcinógenos do tabaco. Alguns estudos sugerem que, para o mesmo nível de exposição, o risco de câncer de pulmão pode ser maior em mulheres: um estudo relatou, entre pessoas com histórico estimado de 40 maços-ano, razão de chances maior nas mulheres do que nos homens com a mesma carga tabágica, para desenvolvimento de câncer de pulmão.

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É importante ressaltar, contudo, que essa questão permanece controversa: coortes mais recentes e amplas não confirmaram a diferença após ajuste pela intensidade e duração do tabagismo.

Há ainda um obstáculo de natureza não biológica: as suposições clínicas históricas. Como o câncer de pulmão é fortemente associado ao cigarro, uma pessoa não fumante com tosse persistente ou dispneia pode não considerar essa hipótese, assim como seu médico.

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Os programas de rastreamento em muitos países foram estruturados para fumantes de alta carga tabágica, de modo que mulheres não fumantes não estão dentro dos critérios considerados de risco.

Além disso, sintomas relacionados ao câncer de pulmão, como perda de peso ou tosse com sangue, aparecem apenas em fases mais avançadas da doença, de modo que esses cânceres tendem a ser diagnosticados tardiamente, quando o tratamento é mais difícil.

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O panorama do câncer de pulmão, contudo, inclui avanços, e sabemos que é necessário promover a conscientização entre a população e seguir buscando a evolução dos tratamentos. Da mesma forma, a personalização do cuidado pode evoluir para que o rastreamento seja orientado por fatores de risco individuais — ambiente, histórico familiar e perfil genético — e não apenas pelo histórico de tabagismo.

*Ana Paula Zanardo – Radiologista da Equipe de Radiologia Torácica e do Programa de Nódulos Pulmonares do Hospital Moinhos de Vento

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