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O que dois grandes estudos revelam sobre o futuro da cardiologia

Pesquisas destacam os contrastes de terapias cada vez mais sofisticadas e desafios básicos ainda não superados

Por Pedro Barros* 2 jul 2026, 07h00
O que dois grandes estudos revelam sobre o futuro da cardiologia Priorizar nos meus resultados Google

A cardiologia vive um momento de inflexão. Ao mesmo tempo que avançamos com terapias cada vez mais sofisticadas, seguimos enfrentando desafios básicos que ainda não conseguimos superar, especialmente quando olhamos para a realidade da população.

Dois estudos recentes ajudam a ilustrar esse contraste de forma bastante clara. De um lado, o EPICO, um estudo brasileiro que mergulha na atenção básica para entender por que ainda não conseguimos reduzir de forma consistente as mortes por doenças cardiovasculares. De outro, o VESALIUS-CV, um grande ensaio clínico internacional que aponta para um futuro em que tratar o colesterol de forma mais intensa e precoce pode evitar eventos graves antes mesmo que eles aconteçam.

O EPICO parte de uma constatação inquietante: ao contrário do que se observa em diversos países, as taxas de mortalidade cardiovascular não vêm caindo no estado de São Paulo. Ao investigar milhares de pacientes atendidos na rede pública, o estudo revela um problema estrutural.

Metade dos hipertensos não está com a pressão arterial controlada, menos de um terço dos pacientes com diabetes atinge as metas recomendadas e o controle do colesterol é ainda mais crítico, com menos de 15% dentro dos níveis ideais.

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Mais do que números, esses dados refletem uma realidade marcada por desigualdades sociais. Baixa renda e menor escolaridade estão diretamente associadas ao pior controle dos fatores de risco.

Isso nos mostra que o problema não está apenas no acesso a medicamentos, mas na adesão ao tratamento, na educação em saúde e na capacidade

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do sistema de acompanhar esses pacientes de forma contínua.

Em paralelo, o VESALIUS-CV nos apresenta uma mudança de paradigma. O estudo demonstra que reduzir de forma mais agressiva o colesterol LDL, o “colesterol ruim”, mesmo em pessoas que ainda não tiveram infarto ou AVC, pode diminuir significativamente o risco desses eventos. É um avanço importante porque rompe com a lógica tradicional de intensificar o tratamento apenas após o primeiro evento cardiovascular.

Os resultados são consistentes: redução expressiva do LDL, menos infartos e AVCs e benefício mesmo em pacientes com diabetes de alto risco, sem doença cardiovascular estabelecida. Em outras palavras, estamos diante de uma evidência robusta de que agir antes pode ser mais eficaz do que remediar depois.

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Mas aqui surge um ponto fundamental: como conciliar esses avanços com a realidade mostrada pelo EPICO? De pouco adianta termos terapias inovadoras se ainda não conseguimos garantir o controle adequado dos fatores de risco mais básicos na população. O desafio da cardiologia contemporânea está exatamente nesse equilíbrio.

Precisamos incorporar novas evidências e tecnologias, mas sem perder de vista que o impacto mais relevante em saúde pública ainda virá da prevenção que começa na atenção primária, no acompanhamento regular e na adesão ao tratamento.

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*Pedro Barros, coordenador do Late-Breaking Clinical Trials (Ensaios Clínicos de “Última Hora”) do 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)

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