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O cigarro de palha faz mal, afinal?

Considerado não prejudicial, o cigarro de palha voltou com tudo, principalmente entre jovens. Mas traz tantos riscos à saúde quanto o industrial

Por Luiz Paulo Kowalski Atualizado em 5 Maio 2017, 15h31 - Publicado em 4 Maio 2017, 12h00

Colombo levou o exótico tabaco das Américas para a Europa. Fumar passou a ser chique e alastrou-se pelo resto do mundo. Pensava-se até que curava doenças. Quatro séculos depois, o tabagismo dominava quase metade dos adultos de todo o mundo. Um grande negócio que há muito tempo tem um grande peso para a economia dos países produtores, entre eles o Brasil, mas que também é um peso para a saúde da população de todos os países.

Há 50 anos a propaganda dizia que médicos preferiam uma determinada marca e era chique fumar, significava ainda independência e masculinidade. No entanto, evidências científicas sólidas demonstraram que, sem dúvida (exceto para a indústria do tabaco), o tabaco causava doenças e matava precocemente. Levamos mais de meio século para que medidas eficientes fossem adotadas: educação em saúde para a população, restrição ao uso de tabaco e o aumento dos impostos. Começou-se a consumir menos tabaco e passou-se a observar redução de seus efeitos tardios.

Os danos do tabagismo

Lamentavelmente, mais de 20 milhões de brasileiros, dos quais mais de meio milhão são crianças, ainda hoje consomem tabaco regularmente e mais de 130.000 brasileiros morrem anualmente por doenças relacionadas a ele. O principal agravante é que o tabaco é cada vez mais consumido por jovens. Em alguns países asiáticos, africanos e mediterrâneos mais da metade dos consumidores são desta faixa etária. Na Indonésia, 41% dos meninos entre 13 e 15 anos fumam. No Brasil cerca de 7% a 15% dos jovens entre 15 e 19 anos fumam, isto é, estamos tomando este mesmo lamentável caminho.

São reconhecidas mais de 70 espécies de tabaco. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como produto do tabaco qualquer elemento totalmente ou parcialmente feito de folhas de tabaco não preparadas ou manufaturadas que são usadas para fumar, aspirar ou mastigar. A maioria deles é industrializado e cigarro, charuto e cachimbo continuam a ser as suas formas mais comuns de consumo. Todos eles trazem graves riscos à saúde por terem mais de 4.000 venenos químicos, como amônia, acetona, arsênico, butano e benzopireno.

Um relatório da OMS publicado em 2006 tinha o sugestivo título de “Tabaco: mortal em qualquer forma ou disfarce” (Tobacco: deadly in any form or disguise). Muitas das inovações ou disfarces que prometiam reduzir os riscos à saúde, em nada mudaram seus perversos efeitos. Usaram termos atraentes como “orgânico”, “natural” e alguns são vendidos em lojas de produtos naturais e de conveniências. Todas as estratégias de divulgação burlam as leis e querem atrair novos consumidores, principalmente jovens que potencialmente serão clientes fiéis por décadas, se não morrerem antes. Mas esse efeito colateral indesejável não é considerado pela indústria do tabaco.

Cigarro de palha

O cigarro de palha era uma forma menos comum de consumo e, até certo ponto, romantizada entre nós. O cigarro de palha era associado a caipiras do interior que levavam uma vida calma. Tem-se a imagem deles sentados na porta de suas casas com seu cigarrinho na boca esperando o tempo passar. Mas a realidade é bem diferente. O trabalho no campo é muito duro, as condições de vida muito difíceis. Os ”caipiras” são inteligentes, práticos e têm pouco tempo para o lazer. E, já há muito tempo, compram cigarros industrializados, pois é difícil achar fumo de corda, é difícil ter um canivete a mão e tempo para picar o fumo. É difícil ter palha seca ao alcance. É muito mais fácil comprar o cigarro na venda. Nesse panorama, parecia que o palheiro estava destinado à extinção.

Por não ser consumido em regiões urbanas há muitas décadas, pouco se divulgou sobre as consequências do consumo de cigarro de palha. Um estudo epidemiológico realizado no Brasil nos anos 80 mostrou que este tipo de cigarro estava fortemente associado a câncer de boca e de garganta. Pior que isso, enquanto aqueles que pararam de fumar cigarro industrializado por 10 anos passavam a ter risco semelhante ao dos não fumantes para o desenvolvimento do câncer; o mesmo não ocorria com o consumo de cigarro de palha. Após 10 anos sem fumar, o risco de ter câncer era ainda quatro vezes maior. Mas isso não foi levado em conta mesmo nas bem sucedidas campanhas antitabaco. O velho cigarro de palha não foi considerado. Pensamos que não teria mais importância, que tinha virado peça de museu.

Subestimamos a criatividade da mórbida e ardilosa indústria do tabaco. Sempre criativa na forma de iludir os desavisados. Nos últimos anos observa-se um fenômeno intrigante em diversos países como Estados Unidos, Nova Zelândia e Noruega, onde são comercializados os “roll-your-own cigarettes”. Esta forma de consumo chega a representar 50% das vendas na Noruega e 30% na Nova Zelândia. A popularidade é, em parte, explicada pelo fato de serem mais baratos que os industrializados. Em segundo lugar, eles são aclamados como saudáveis pelos produtores e promotores de venda. Pura ilusão. Mentira. Arapuca. De acordo com o Ministério da Saúde da Nova Zelândia, este tipo de cigarro tem maiores níveis de alcatrão que cigarros industrializados. Diversas outras fontes confirmam também que há mais nicotina nos palheiros que nos cigarros industrializados.

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Não é porque é natural que é bom

Com a onda naturalista, todo produto natural tem a aura de saudável e benéfico, tudo é visto de forma complacente e poética. Mas lembre-se, veneno para cobra é produto natural, mas mata. Muitos jovens têm sido iludidos com uma sorrateira propaganda boca-a-boca de que o tabaco não industrializado é seguro por não conter produtos químicos (incrível como pessoas inteligentes possam acreditar neste tipo de engodo), pois é “natural”. Pronto, está aí a volta do cigarro de palha repaginado enchendo os cofres da santificada indústria de produtos naturais.

Um aliado facilitador é a falta de regulamentação sobre produção e distribuição que propicia a venda legal ou ilegal, visível ou clandestina. O velho cigarro de palha agora não está na boca dos caipiras, mas na boca de um grande número de jovens da classe média urbana. Em algumas cidades brasileiras cerca de 30% a 50% dos cigarros vendidos em tabacarias já são palheiros. São mais de 30 marcas no mercado. Virou chique usar este “novo” produto “natural”.

Faltam advertências: cigarro de palha vicia!

O problema é que os usuários não são informados da enrascada em que estão se metendo. O Ministério da Saúde não adverte, mas deveria. Cigarro de palha vicia. Os usuários vão consumir qualquer forma de tabaco nos próximos anos. Cigarro altera a saúde bucal. No mínimo, seus dentes vão ficar pretos. Seus dedos vão ficar pretos. Sua roupa vai ficar fedida. E isso é nada. O preço vem mesmo depois de alguns anos.

Você não imagina o que é ter enfisema e não conseguir andar alguns metros sem cansar. Você não imagina como é devastador um câncer de boca, de garganta ou de pulmão. Estas doenças deformam, causam sofrimento e matam. Todas são consequências naturais do uso de um “produto natural”. Não vale a pena pagar para ver. Não há retorno possível.

Se você fuma, o que fazer? Ser esperto, parar hoje. O último cigarro já foi fumado. Se não fuma, parabéns, nem chegue perto. Não caia nessa. Ou, de outra forma, a vida seguirá seu curso natural, mas a morte ocorrerá mais cedo.

 

Edson Lopes Jr./VEJA.com

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