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Novas drogas para câncer de mama e ovário familiar

Estudos recentes mostraram medicamentos orais com poucos efeitos colaterais podem ser altamente eficazes no tratamento de tumores hereditários

Por Sergio Daniel Simon 18 set 2017, 17h50

Mutações genéticas transmitidas de pais para filhos podem ser causa importante de câncer. No caso específico do câncer de mama, os agrupamentos familiares da doença são bem conhecidos desde meados do século XIX, mas foi somente na década de 1990, com os avanços da genética, que foi possível identificar a causa destes casos familiares: duas mutações em genes específicos foram identificadas (os genes foram chamados de BRCA1 e BRCA2), e a partir daí foi possível identificar quais as famílias são portadoras deste defeito – e, dentro destas famílias, quais são os indivíduos afetados pela mutação.

O caso Angelina Jolie

As mulheres que herdam mutação destes genes têm alta chance (de até 85%) de desenvolver câncer de mama e também alta chance (de até 40%) de desenvolver câncer de ovário. O caso mais conhecido é o da atriz Angelina Jolie, que é portadora de uma mutação num destes genes e que tem vários casos de câncer de mama e ovário na família. Antecipando-se à doença, a atriz optou por fazer cirurgias profiláticas, retirando as mamas e os ovários antes de eles apresentarem a doença. Esta conduta é bastante razoável para as mulheres com mutação e é uma maneira comprovadamente eficaz de baixar o risco de desenvolvimento de câncer nesta população.

Danos no DNA

Mas por que estas mulheres com mutação desenvolvem o câncer de mama e ovário tão frequentemente? Os genes BRCA1 e BRCA2 são responsáveis por produzir proteínas que ajudam a consertar danos constantes que são feitos no nosso DNA das células, no nosso dia a dia. E DNA danificado é o primeiro passo para o desenvolvimento do câncer. Assim, se uma pessoa nasce com moléculas de reparo de DNA alteradas, a chance de apresentar câncer aumenta muito.

Essas pessoas com mutação, que não conseguem reparar corretamente o DNA, dependem de uma outra molécula, conhecida como PARP, para ter algum grau de estabilidade do DNA e manter suas células sadias. Foram desenvolvidas, entretanto, moléculas chamadas de “inibidores da PARP”, que bloqueiam esse restinho de capacidade de reparo de DNA que as mulheres com mutação apresentam em suas células. Assim, as células – que já não dispunham das moléculas de BRCA1 ou BRCA2 e dependiam totalmente da PARP para sobreviver – acabam ficando sem nenhuma opção, e suas células terminam por morrer na presença dos inibidores da PARP.

Inibidores de PARP

Estudos recentes mostram que estes inibidores da PARP são extremamente ativos em pacientes portadoras de câncer de ovário, prolongando de maneira muito importante a sobrevida sem doença destas mulheres, às vezes por anos. E algo muito favorável é que se trata de droga oral, muito bem tolerada e com poucos efeitos colaterais.

Neste ano, foi apresentado um trabalho importante com um inibidor da PARP (conhecido como “olaparibe”) em mulheres com mutação de BRCA1/2 com câncer de mama avançado. Elas foram sorteadas para receber quimioterapia comum ou o olaparibe por via oral. O grupo tratado olaparibe teve resultados não só muito superiores em termos de eficácia de tratamento, como também teve muito menos toxicidade, mantendo excelente qualidade de vida e evitando os efeitos colaterais da quimioterapia.

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Nos Estados Unidos já foram lançados três diferentes inibidores da PARP, e, no Brasil, o olaparibe já se encontra no mercado, para o tratamento do câncer de ovário em mulheres comprovadamente com mutação genética. Espera-se que, no futuro, estas drogas também estejam aprovadas para uso em outros tumores, como o câncer de próstata e de pâncreas em pacientes com mutação genética.

Assim, inicia-se uma nova era no tratamento destas pacientes, com drogas inteligentes que se dirigem a alvos moleculares específicos: maior eficácia e menor toxicidade são avanços muito significantes para os pacientes de câncer.

 

Reprodução/VEJA.com

 

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