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Nem sempre dor no peito reflete um problema no coração

Refluxo, picos de estresse, doenças pulmonares... Médico reforça importância de uma análise minuciosa para determinar a origem do incômodo no tórax

Por Edmo Atique Gabriel*
Atualizado em 14 Maio 2024, 10h50 - Publicado em 14 Maio 2024, 10h40

Alguns sintomas causam pânico, tiram nosso sono e nos fazem pensar em doenças graves, como é o caso da dor no peito. Imediatamente ela nos remete a algum problema cardíaco. 

Análises estatísticas demonstram claramente que a dor no peito é uma das mais importantes e frequentes queixas, tanto nos consultórios como nas unidades de urgência. Isso acontece porque a relação entre o sintoma e um possível descompasso no coração é algo quase que instintivo.

O que chamamos de peito seria, na verdade, a caixa torácica, que engloba um contingente de órgãos e estruturas, todos sujeitos a processos inflamatórios e infecciosos que, por sua vez, podem causar dor em diferentes intensidades.

Na medicina, defendemos que mais de 90% dos diagnósticos podem ser feitos por meio de uma história clínica minuciosa, na qual o médico segue um roteiro de perguntas que permitirão um direcionamento melhor sobre a queixa principal.

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Esta história clínica tem um aspecto positivo e outro negativo. O aspecto positivo é que os médicos estão treinados a extrair as informações mais determinantes; porém, seu lado negativo diz respeito ao tempo reduzido que os médicos têm atualmente para tal tarefa, devido às condições de trabalho sob pressão e exaustão. Assim, eventuais falhas no processo poderão comprometer o diagnóstico causal da dor no peito.

A análise da história clínica se soma ao exame físico e a outros testes, laboratoriais e de imagem, que complementam a investigação. Só que, na realidade, quando a primeira etapa, que é o alicerce de tudo, deixa a desejar, corre-se o risco de ter um diagnóstico impreciso ou inadequado depois.

Para que haja uma melhor compreensão acerca das causas da dor no peito, vamos pensar na constituição anatômica interna e externa da caixa torácica. Externamente, temos muitos músculos, nervos, vasos sanguíneos e ossos. Internamente, temos o coração e seus grandes vasos sanguíneos, os pulmões com seus vasos e brônquios, bem como o esôfago, parte do aparelho digestivo.

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A investigação médica, portanto, deveria contemplar a possibilidade de algo errado em qualquer uma dessas estruturas. Embora as doenças possam manifestar dor torácica com alguns aspectos semelhantes entre si, existem algumas pistas que podem direcionar a um diagnóstico mais preciso. Vamos então descrever as circunstâncias e certos aspectos que nos ajudam a elucidar a origem da dor no peito.

Dor torácica de causa osteomuscular

Costuma estar relacionada aos esforços físicos, a uma sobrecarga após exercícios na academia, a uma postura física errada ao se sentar ou ao dormir ou também pode ser causada por um trauma direto na caixa torácica – resultado de um choque em esportes como futebol ou durante lutas marciais.

Dor torácica de causa psicogênica

O estresse emocional pode ter como alvo as estruturas osteomusculares da caixa torácica. Muitos pesquisadores defendem que a região dos peitorais, a nuca e a região torácica inferior costumam ser acometidas por processos inflamatórios decorrentes dos problemas emocionais.

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Dor torácica de causa pulmonar

Nossos pulmões são revestidos por uma membrana, conhecida como pleura, extremamente sensível a processos inflamatórios e infecciosos. Isso significa que ataques de vírus e bactérias, bem como quadros como tumores e embolia podem resultar em dores. No caso da embolia, o entupimento de um vaso pode desencadear o que chamamos de infarto pulmonar, por trás de uma dor por vezes lancinante.

Dor torácica de causa digestiva

O esôfago é um dos primeiros órgãos de nosso tubo digestivo e, na sua porção mais inferior, conecta-se com o estômago. Quando o conteúdo ácido do estômago reflui para o interior do esôfago, a sensação é de uma dor torácica em queimação, a qual pode ser sentida até o nível do pescoço. Alimentos muito temperados, excesso de café e a mistura de alimentos sólidos com líquidos são fatores que favorecem o refluxo. A posição do corpo também pode facilitar essa condição, principalmente se deitarmos com a cabeça muito baixa logo após uma refeição.

Dor torácica de causa cardíaca

Ela pode ser fruto basicamente de duas situações que merecem avaliação médica: a angina e o infarto do miocárdio. Angina é uma dor no peito, geralmente do lado esquerdo do tórax, com irradiação para o braço esquerdo e face e com duração menor que 30 minutos. A presença de obstruções nas artérias do coração, as coronárias, reduz o fluxo de sangue para o músculo cardíaco, sensibilizando as terminações nervosas e causando dor.

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O infarto do miocárdio também cursa com dor, com características semelhantes, mas com intensidade e duração geralmente maiores. Trata-se de uma extensão ou uma complicação final da obstrução das artérias cardíacas, pois segmentos de miocárdio perdem sua viabilidade de forma definitiva. A história clínica, exames de sangue e eletrocardiograma nos auxiliam a cravar o evento.

+ LEIA TAMBÉM: Por que as mulheres devem se preocupar com seu coração

Em busca da causa

Como a maior preocupação em relação à dor torácica é a possibilidade da termos um problema cardíaco, estudos demostram um cenário bem intrigante. Analisando os dados mundiais, verifica-se que menos de 10% dos casos de dor torácica nas unidades de urgência têm relação com doenças cardíacas.

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Na tentativa de otimizar os recursos, determinar precisamente o diagnóstico e implementar medidas terapêuticas mais assertivas, os hospitais e unidades de urgência têm adotado alguns protocolos e mesmo uso de algoritmos para rastreamento. Por meio dessas ferramentas, tem sido viável uniformizar as condutas, minimizando as falhas no diagnóstico e os exageros na solicitação de exames.

Imaginem como seria caótico se cada médico seguisse seu próprio protocolo de conduta, de acordo com visões muito diferentes acerca da mesma questão.

Esses protocolos com apoio tecnológico levam em conta faixa etária, sexo, antecedentes pessoais e familiares, sintomas agudos, exames bioquímicos e achados no eletrocardiograma. Tudo isso nos ajuda a determinar um escore de risco para infarto e a tomar as melhores decisões.

Lembre-se: a dor torácica nem sempre vem do coração. A segurança quanto ao diagnóstico correto depende essencialmente de uma história clínica bem feita. Ela será o alicerce, no consultório ou no pronto-socorro, que, aliado a exames e protocolos, nos permitirá flagrar a raiz do problema quanto antes.

* Edmo Atique Gabriel é cardiologista e cirurgião cardíaco e professor de medicina da Unilago, em São José do Rio Preto (SP)

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