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Exames de madrugada: a saúde ainda funciona no horário comercial?

O paciente contemporâneo não quer apenas qualidade técnica, espera que o serviço caiba na sua vida

Por Roberto Cury* 1 jul 2026, 07h00
Exames de madrugada: a saúde ainda funciona no horário comercial? Priorizar nos meus resultados Google

São Paulo já abandonou há muito tempo a ideia de que a vida acontece apenas entre 8h e 18 horas. A cidade treina, faz compras e trabalha de madrugada e, cada vez mais, resolve sua rotina fora dos horários convencionais. Enquanto a economia se adapta a esse novo comportamento, por que ainda insistimos em encaixar o cuidado com a saúde em uma lógica de tempo que já não corresponde à vida real?

A falta de tempo é uma das justificativas mais frequentes para o adiamento de consultas, exames e acompanhamentos preventivos. Não necessariamente porque as pessoas valorizem menos a própria saúde, mas porque, diante da pressão cotidiana, ela costuma perder espaço para compromissos considerados mais urgentes.

Vivemos mais conectados, produtivos e com mais opções de serviços do que nunca, mas continuamos lutando para reservar algumas horas para cuidar de nós mesmos.

O desafio é particularmente visível em São Paulo. Entre deslocamentos longos, jornadas de trabalho extensas e agendas fragmentadas, milhões de pessoas organizam suas vidas em horários cada vez mais flexíveis. Não é por acaso que a cidade viu crescer a oferta de serviços que funcionam além do horário comercial.

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E, ainda bem, saúde começa a seguir o mesmo caminho. Dados da Dasa mostram que uma parcela relevante dos exames já é realizada durante a noite e a madrugada. Em algumas unidades, entre 36% e 38% dos agendamentos mensais ocorrem fora do horário comercial, enquanto outras registram percentuais próximos de um terço de toda a agenda.

O movimento é observado principalmente em exames de imagem, como ressonância magnética, ultrassonografia e raio-X. A ocupação dos horários de madrugada cresceu significativamente entre 2025 e 2026. Em uma das operações analisadas, o aumento chegou a 85,4% em apenas um ano.

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Em outra unidade, que passou a oferecer recentemente esse tipo de atendimento, a ocupação já alcança 96,2% dos horários disponíveis. Mais do que números operacionais, esses indicadores sugerem uma demanda crescente por alternativas que permitam conciliar o cuidado com a saúde às novas dinâmicas da vida urbana.

Durante décadas, discutimos acesso à saúde principalmente sob a ótica geográfica: construir mais unidades, ampliar a cobertura e reduzir distâncias.

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Tudo isso continua essencial, mas uma nova dimensão começa a ganhar relevância: o acesso pelo tempo. Para se ter uma ideia, um relatório de 2025 da Press Ganey, empresa norte-americana de referência em mensuração de experiência em saúde, com dados de mais de 40 mil organizações do setor nos Estados Unidos, mostrou que quase metade dos consumidores enfrenta barreiras de agendamento que os fazem adiar ou abandonar o cuidado.

Quando atendia pacientes com agenda cheia, ouvia com frequência a mesma frase: “Eu sabia que precisava fazer esse exame, mas não conseguia encaixar.” Um trabalhador que sai do emprego às 18 horas, enfrenta trânsito e ainda tem filhos para buscar na escola não vai conseguir fazer um check-up em uma unidade que fecha às 17 horas.

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Isso tem consequências clínicas diretas. Exames adiados significam diagnósticos tardios. Em cardiologia, minha especialidade de origem, a diferença entre detectar uma arritmia ou uma alteração lipídica no momento certo e seis meses depois pode ser clínica e economicamente significativa. O raciocínio se aplica a oncologia, endocrinologia, saúde da mulher…

Flexibilidade de horário, nesse contexto, não é um diferencial de conveniência: é uma variável de cuidado. O paciente contemporâneo não quer apenas qualidade técnica, espera que o serviço caiba na sua vida.

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Reconhecer isso é entender que acesso de verdade tem duas coordenadas: onde e quando. O setor avançou muito na primeira. Está começando a levar a segunda a sério.

*Roberto Cury é cardiologista e vice-presidente de atendimento e experiência do cliente na Dasa, responsável pelas marcas Delboni e Lavoisier, que oferecem exames à noite e na madrugada

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