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Entre extremos: entenda (de verdade) o que é o transtorno bipolar

Na semana de conscientização sobre a doença, psiquiatra derruba estigmas e simplificações

Por Leonardo Lessa* 31 mar 2026, 08h27 | Atualizado em 31 mar 2026, 10h17
Entre extremos: entenda (de verdade) o que é o transtorno bipolar Priorize VEJA no Google

Poucas doenças em saúde mental ilustram de forma tão clara a complexidade do cérebro humano quanto o transtorno bipolar. A condição afeta milhões de pessoas no mundo e impacta não apenas a vida de quem recebe o diagnóstico, mas também de suas famílias, amigos e colegas de trabalho.

No senso comum, o transtorno bipolar é frequentemente associado apenas a oscilações de humor. Essa simplificação, porém, não reflete a realidade de uma condição crônica caracterizada por alterações significativas na regulação do humor, da energia, do pensamento e do comportamento.

Diferentemente das variações emocionais normais do dia a dia, esses estados são intensos, persistentes e podem comprometer relações sociais e rotinas.

Os episódios costumam se organizar em ciclos: períodos de aceleração psíquica e comportamental alternam-se com fases de profunda queda de humor e energia. É essa alternância que define a bipolaridade.

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A mania, ou hipomania, é talvez a fase mais marcante clinicamente. O indivíduo pode apresentar humor descompensado, irritável, excesso de energia, fala acelerada e ausência de sono, realizando diversas atividades. Também são comuns comportamentos impulsivos e tomada de decisões arriscadas, podendo culminar em atitudes que colocam a segurança pessoal em risco.

Em quadros mais graves, pode ocorrer a presença de sintomas psicóticos, como abordado em estudo do qual participei, publicado no Journal of Affective Disorders, sobre o transtorno esquizoafetivo e sua relação com a esquizofrenia e transtornos do humor.

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Mas é a depressão bipolar que representa a fase mais dolorosa da doença: tristeza profunda, perda de interesse pelas atividades, fadiga intensa, dificuldade de concentração e sentimento de culpa. Em alguns casos, podem surgir pensamentos de morte. Comparada à depressão unipolar, a depressão bipolar tende a ser mais intensa e incapacitante.

Muitos se perguntam sobre as causas do transtorno bipolar, mas não há uma origem única. Trata-se de um quadro multifatorial em que interagem fatores biológicos, genéticos e ambientais. Mas existem, sim, gatilhos para o início ou recorrência de episódios, como eventos estressores, privação de sono e uso de substâncias.

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O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na avaliação cuidadosa da história do paciente ao longo do tempo. Muitas vezes o indivíduo procura atendimento durante uma fase depressiva, dificultando a identificação da bipolaridade caso episódios prévios de elevação do humor não sejam reconhecidos.

Por isso, a escuta qualificada, a observação longitudinal e a participação da família no relato das flutuações de humor são fundamentais – muitas vezes são os familiares que percebem mudanças de comportamento antes do paciente reconhecer que algo não vai bem.

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Embora seja uma condição crônica, o transtorno bipolar pode ser manejado com sucesso quando compreendido e tratado de forma consistente, permitindo que muitas pessoas levem vidas produtivas, criativas e equilibradas.

Entre os pilares terapêuticos estão os medicamentos estabilizadores de humor e, em algumas situações, os antipsicóticos. A psicoterapia também é fundamental porque auxilia o paciente a compreender padrões emocionais, organizar rotinas e desenvolver estratégias de prevenção de recaídas.

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Avanços importantes nas últimas décadas ampliaram o conhecimento científico sobre a condição. Ainda assim, o estigma continua sendo um dos maiores obstáculos para o diagnóstico e o cuidado. Muitos indivíduos demoram anos para procurar ajuda, seja por medo do julgamento social, seja por desconhecimento sobre os sintomas.

O importante é que as pessoas saibam que, com diagnóstico adequado, tratamento contínuo e rede de apoio sólida, é totalmente possível alcançar estabilidade, reconstruir projetos e manter uma vida plena.

* Leonardo Lessa é psiquiatra, doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz e diretor do Hospital Casa Menssana, no Rio de Janeiro

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