Colesterol ainda é fator de risco que muitos brasileiros não enxergam
Elevação do colesterol geralmente não causa sinais de alerta; exame laboratorial permite diagnóstico precoce
Uma pesquisa inédita realizada pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) revelou um dado importante sobre os hábitos de prevenção cardiovascular da população brasileira: as mulheres apresentam maior adesão à realização do exame de colesterol, enquanto os homens demonstram menor regularidade no acompanhamento desse importante indicador de saúde.
Entre os homens entrevistados, 52% afirmaram ter realizado o exame de colesterol no último ano, 31% disseram ter feito o teste há mais de um ano e 17% declararam nunca ter realizado a avaliação. Entre as mulheres, os números foram mais positivos: 61% fizeram o exame no último ano, 27% há mais de um ano e 12% nunca passaram por essa investigação.
Embora os resultados indiquem uma participação mais ativa das mulheres no monitoramento da saúde cardiovascular, os dados também mostram que ainda existe uma parcela significativa da população que não acompanha regularmente seus níveis de colesterol ou sequer realizou o exame alguma vez na vida.
Trata-se de um cenário preocupante, especialmente diante da relevância desse marcador para a prevenção de doenças cardiovasculares.
O colesterol elevado é um dos principais fatores de risco para infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outras doenças que afetam o coração e a circulação. Ainda assim, o tema parece distante da percepção de grande parte da população.
Outro levantamento da Socesp, apresentado durante o Congresso de Cardiologia da entidade, reforça essa preocupação. Quando homens e mulheres foram convidados a citar espontaneamente fatores de risco para doenças cardiovasculares, o colesterol não apareceu entre as principais respostas.
Entre os homens, apenas 32% mencionaram a alimentação inadequada como fator de risco. O sedentarismo foi citado por 26%, seguido pelo estresse (23%) e pelo tabagismo e consumo de álcool (19%). Já entre as mulheres, o estresse emocional liderou as respostas, com 35%, seguido por alimentação inadequada (28%), sedentarismo (20%) e fatores genéticos ou histórico familiar (17%).
Os dados revelam uma desconexão entre o conhecimento científico acumulado ao longo de décadas e a percepção popular. É claro que alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e estresse desempenham papel relevante na saúde do coração. No entanto, muitos desses fatores exercem seus efeitos justamente por favorecerem alterações metabólicas, entre elas o aumento do colesterol.
O problema é que o colesterol elevado costuma ser silencioso. Diferentemente de outras condições que podem gerar sintomas perceptíveis, a elevação do colesterol geralmente não causa sinais de alerta até que ocorra uma complicação grave. Por isso, o exame laboratorial periódico continua sendo a principal forma de identificação precoce e de acompanhamento.
O desconhecimento sobre a importância do colesterol e a falta de monitoramento regular podem atrasar o diagnóstico e o início de medidas preventivas. Quando isso acontece, o risco de eventos cardiovasculares aumenta significativamente.
Infartos e AVCs continuam entre as principais causas de morte no Brasil e no mundo e, mesmo quando não levam ao óbito, podem deixar sequelas permanentes que comprometem a qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias.
A boa notícia é que o controle do colesterol é possível e eficaz. Mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e abandono do tabagismo, representam pilares fundamentais da prevenção. É necessária também uma avaliação médica para definição da melhor estratégia terapêutica, incluindo o uso de medicamentos quando indicado.
Mais do que nunca, é essencial ampliar o conhecimento da população sobre esse tema e estimular a realização periódica dos exames de colesterol. Conhecer os próprios números é um passo simples, mas fundamental, para reduzir riscos e preservar a saúde cardiovascular ao longo da vida. Informação de qualidade continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para prevenir doenças e salvar vidas.
*Andrei Sposito é cardiologista e diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)





