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Câncer de mama: reconstrução após cirurgia vive nova era

Procedimento passou a ser individualizado, considerando anatomia, qualidade dos tecidos e estabilidade do resultado

Por Ricardo Cavalcanti* 27 ago 2026, 08h30 | Atualizado em 27 ago 2026, 12h04
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Ao longo de mais de três décadas atuando em cirurgia plástica estética e reconstrutiva, acompanhei uma transformação profunda na maneira como a medicina cuida da mulher com câncer de mama. Se antes a prioridade estava concentrada em combater a doença, hoje sabemos que o tratamento não deve necessariamente terminar quando o tumor é retirado.

Há uma mulher depois do câncer — e ajudá-la a recuperar sua integridade física, sua relação com o corpo e sua qualidade de vida também faz parte desse cuidado —.

O tema ganha dimensão diante dos números. Segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026-2028. Mas, apesar da evolução da cirurgia, o acesso à reconstrução ainda é um desafio.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Epidemiologia e Serviços de Saúde, do Ministério da Saúde, que analisou microdados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS entre 2010 e 2024 ilustra bem o cenário. Foram identificados 565.234 procedimentos: 404.944 mastectomias e 160.290 reconstruções mamárias. O trabalho revelou ainda importantes desigualdades raciais e regionais no acesso à reconstrução.

Esses números reforçam uma questão fundamental: não basta desenvolvermos técnicas cirúrgicas cada vez mais sofisticadas se elas não chegarem às mulheres que delas necessitam.

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A reconstrução contemporânea deixou de significar simplesmente repor o volume retirado durante uma mastectomia. Hoje avaliamos qualidade e espessura da pele, quantidade de tecido preservado, anatomia, tratamentos anteriores, efeitos da radioterapia e capacidade dos tecidos de sustentar a mama reconstruída ao longo dos anos.

É uma mudança de paradigma. Passamos de uma cirurgia predominantemente baseada na reposição de volume para uma reconstrução individualizada, que considera anatomia, biomecânica, qualidade dos tecidos e estabilidade do resultado.

Dispomos de reconstruções com tecidos da própria paciente, implantes e técnicas combinadas. Mais recentemente, recursos destinados a diminuir a carga exercida sobre os tecidos ou oferecer sustentação adicional ampliaram as possibilidades em casos selecionados.

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Entre eles estão implantes de menor peso, como o B-Lite, aproximadamente 30% mais leve que implantes convencionais de volume semelhante. Outro exemplo são malhas absorvíveis de sustentação, como a GalaFLEX, utilizadas como suporte interno temporário enquanto ocorre formação de tecido de sustentação e colágeno.

É fundamental ressaltar que nenhuma tecnologia isoladamente garante um bom resultado nem é indicada para todas as pacientes. Em medicina, inovação não pode ser confundida com indicação indiscriminada. Ela só representa avanço quando existe indicação adequada e benefício real para aquela mulher.

Um aspecto interessante é que conhecimentos e tecnologias empregados na reconstrução após o câncer também podem beneficiar cirurgias estéticas das mamas. Implantes mais leves e recursos de suporte interno podem ser considerados, por exemplo, em casos selecionados de aumento mamário, mastopexia, troca de próteses e cirurgias secundárias, principalmente quando há flacidez ou fragilidade dos tecidos.

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Cirurgia estética e reconstrução têm objetivos diferentes, mas compartilham princípios anatômicos e biomecânicos. É uma via de mão dupla: avanços da reconstrução influenciam a estética, assim como décadas de conhecimento da cirurgia estética contribuem para resultados reconstrutivos mais naturais.

Talvez a mudança mais importante, porém, tenha ocorrido fora do centro cirúrgico. Reconstrução mamária não deve ser confundida com vaidade. A mulher não deixa sua identidade na porta do hospital ao receber o diagnóstico de câncer. A mama está relacionada à imagem corporal, à sexualidade, à autoestima e à percepção que cada mulher construiu de si mesma.

Isso não significa que toda mulher submetida à mastectomia deva reconstruir a mama. Algumas não desejam fazê-lo, e essa decisão deve ser respeitada. O princípio fundamental é que ela tenha informação, acesso e possibilidade de escolha.

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Sobreviver ao câncer é o primeiro objetivo. Viver bem depois dele também importa. Depois de tantos anos acompanhando mulheres nesse processo, essa talvez seja uma das maiores lições que a cirurgia reconstrutiva me ensinou: não reconstruímos apenas uma mama. Participamos da reconstrução de uma etapa da vida.

*Ricardo Cavalcanti é cirurgião plástico e professor universitário. É membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, coordena o Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital Universitário dos Servidores do Estado (UNIRIO) e preside o Instituto Carlos Chagas. Integra a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) e a American Society of Plastic Surgeons (ASPS)

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