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Brasil tem 25,7 mil novos casos de cardiopatias congênitas por ano

O diagnóstico pré-sintomático dos defeitos cardíacos que ameaçam a sobrevivência do recém-nascido é primordial

Por Ieda Jatene Atualizado em 10 jan 2022, 19h36 - Publicado em 10 jan 2022, 17h40

É a notícia que ninguém quer receber: “seu bebê tem uma má formação no coração e precisa ser operado o mais breve possível”. Porém, pior do que recebê-la, é não recebê-la e descobrir, na prática, que a criança tem uma cardiopatia congênita, mas não terá acesso a um centro cirúrgico. Segundo estimativas da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) mais de 50% dos recém-nascidos que necessitariam de uma cirurgia para correção de cardiopatia congênita ficam sem atendimento. Em tempos de pandemia estima-se que este percentual de “não atendimentos” tenha chegado a 70%.

As cardiopatias congênitas são doenças decorrentes de malformações da estrutura do coração e do sistema circulatório e aparecem durante o desenvolvimento fetal, geralmente nas primeiras semanas de gestação. Dados publicados na Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal atestam que, entre 1.000 nascidos vivos, de 6 a 12 bebês são portadores desta anomalia, sendo que as ocorrências intraútero podem ser até cinco vezes maiores.

São 25.700 novos casos de cardiopatias congênitas por ano no Brasil, distribuídas em Norte (2.758), Nordeste (7.570), Sudeste (10.112), Sul (3.329) e Centro-Oeste (1.987). Porém, o atendimento especializado não acompanha este “mapa”. Existem 67 serviços credenciados no Ministério da Saúde, que realizam cirurgia cardíaca pediátrica, mas a maioria está concentrada nas Regiões Sul e Sudeste (62%). De acordo com os dados publicados na mesma Diretriz, esta falta de homogeneidade faz com que as Regiões Norte e Nordeste deixem de realizar o procedimento em, respectivamente, 93,5% e 77,4% dos casos cirúrgicos.

Mas, apesar de serem os principais algozes da morbimortalidade infantil, especialmente no período neonatal, nem todas as cardiopatias congênitas necessitam de cirurgia. Apenas metade dos casos trazem alterações importantes, com necessidade de tratamento intervencionista ou correção cirúrgica já no primeiro ano.

Solução

Os nascimentos no país sofrem uma curva descendente contínua desde 2015. Levantamento da SOCESP mostra que, em 2015 foram mais de 3 milhões de brasileirinhos. Em 2020 este número foi de 2,6 milhões. Esta espécie de “controle da natalidade espontâneo” somada à ampliação da assistência neonatal pode contribuir para que os serviços alcancem, cada vez mais, quem precisa de ajuda especializada.

Uma das reivindicações é a realização da ultrassonografia precoce desde o primeiro trimestre de gestação e a maior utilização da ecocardiografia fetal, geralmente indicada apenas para gestantes de alto risco. O objetivo é a detecção das cardiopatias congênitas graves para que se faça um planejamento do parto em centros especializados. Apesar de a ecocardiografia fetal ser bastante acurada, a maioria dos recém-nascidos cardiopatas ainda nasce sem diagnóstico, uma vez que muitos casos ocorrem em grupos de baixo risco e não são detectados pelo rastreamento no momento do ultrassom pré-natal.

Como não é considerada uma doença evitável, o diagnóstico pré-sintomático dos defeitos cardíacos que ameaçam a sobrevivência do recém-nascido é primordial para que haja um atendimento correto no tempo necessário, configurando o tratamento precoce e garantindo o direito a uma vida saudável para esses cidadãos do futuro.

Letra de Médico - Ieda Jatene
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