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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Negros e judeus morreram juntos em Auschwitz

Nem a ciência e nem a moral politica religiosa e jurídica foram capazes de limitar e impedir os arroubos da intolerância movidos pelo ódio racial

Por José Vicente 28 jan 2022, 19h33

Os judeus e os negros estão arranjados em destruir a pureza ariana. Com essas falsas premissas o nazismo hitlerista perseguiu, agrediu e exterminaram judeus e os negros na Alemanha e demais países ocupados.

Para Hitler, os alemães compunham as raças fundadoras e superiores, enquanto os judeus compunham as raças destruidoras, devendo, por isso, a raça superior para sua subsistência e proeminência prover os meios necessários para manter sua pureza e evitar a contaminação. Definidos como indivíduos inferiores e portadores de defeitos congênitos que punham em risco a grandeza do protagonismo dos alemães quase vinte mil negros arderam juntamente com os mais de seis milhões de judeus nas câmaras de gás e morreram nos campos de concentração do nazismo.

A solução final, onde o campo de concentração de Auschwitz se apresentou como o símbolo e a tradução, foi o ponto final da duvida que pudesse haver em relação à loucura e insanidade de desconsiderar a brutalidade e a violência da existência e manifestação do racismo sem tratamento politico e social e mesmo legal. Da mesma forma, o equivoco e o erro de compreender que ele somente poderia ter aplicabilidade e justificativa em relação aos povos periféricos da colonização, principalmente, os negros africanos, que, historicamente, antes e depois da escravização, e justamente, por ela, foram apresentados como a expressão acabada da inferioridade humana.

O racismo como se comprovou em Auschwitz, não agride, vitima e destrói somente o negro, pelo contrário, é também coisa de brancos. Justamente por isso, ele e todas suas manifestações precisam ser compreendidos como um veneno mental e psicológico que mal entendido, mal conduzido e mal tratado se torna num perigo virulento, colocando em risco a segurança humana e das sociedades. Principalmente, quando manipulado politicamente por estados e grupos sociais para justificar um discurso politico de supremacia ou fortalecer a defesa de privilégios e poder de grupo de interesses.

Tudo isso implica no esclarecimento do papel e responsabilidade de cada individuo e sociedade no fortalecimento da convicção dos valores sociais que precisam integrar suas priorizações. O primeiro grande passo nessa direção ocorre quando deixamos de reconhecer a humanidade em todas as pessoas, e o segundo, quando não nos levantamos diante da humilhação, da violência e do desrespeito contra qualquer vida humana.

Mas é, sobretudo, no estado o centro da mais importante intervenção. Com racismo e, logo, a distinção entre inferiores e superiores, não é possível o exercício da democracia, da cidadania e nem do estado de direito. Torna-se impossível e impraticável os pilares da vida social. O estado sem amarras e proteção de segurança das intolerâncias é uma presa fácil para apropriação e dominação da loucura do ódio racial.

Como podemos ver com todas as lentes, em Auschwitz, nem a ciência e nem a moral politica religiosa, filosófica e jurídica foram capazes de limitar e impedir os arroubos da intolerância movidos pelo ódio racial. Pelo contrário, todos eles silenciados voluntários ou involuntariamente colaboraram para legitimar, autorizar e justificar o horror nazista. E, a todos eles se juntaram grande parte das consciências que mesmo diante do conhecimento do terror fizeram vistas grossas a dor e ao sofrimento imaginando que fosse possível fazer reativações aos princípios da dignidade humana. No aniversário dos setenta e sete anos de Auschwitz, em que negros e judeus rememoram e homenageiam suas vítimas, permanece claro e cristalino: ontem, hoje e sempre, contra o racismo não pode haver concessão nem dos negros nem dos brancos.

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