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José Casado Por José Casado Informação e análise

O dom de iludir

40 milhões de eleitores mantêm o suspense de uma eleição indefinida

Por José Casado Atualizado em 17 jun 2022, 13h25 - Publicado em 17 jun 2022, 06h00

Campanha é enredo de surrealismos. Exemplo: há menos dias no calendário de junho do que pesquisas registradas na Justiça Eleitoral neste mês. Estão previstas mais de três dezenas de sondagens sobre uma dúzia de candidatos à Presidência.

A devassa no juízo dos 150 milhões de eleitores tende a ser intensificada até outubro. As sondagens são essenciais aos planos de batalha dos partidos e candidatos.

Elas retratam momentos do eleitorado, suas esperanças e frustrações. Por isso, requerem cuidado na análise dos resultados, sugerem especialistas. Intenções de voto não são prognósticos, possíveis na boca de urna, na hora da votação.

Trata-se da sutil diferença entre vontade e comportamento. Ambos contam uma verdade eleitoral, mas as verdades políticas têm o dom de iludir ao olhar desprevenido.

Há um ano Lula flutua na liderança, com mais de 20 pontos porcentuais de vantagem sobre o segundo colocado, Jair Bolsonaro.

No mês passado chegou a 48% das intenções de voto para o primeiro turno.

Numa conta de padaria, isso equivaleria a 68 milhões de votos, descontada a margem prevista para abstenção, votos nulos e brancos (média de 5% nas pesquisas).

Bolsonaro nada na faixa dos 32%, com possíveis 46 milhões de votos.

Pode acontecer? Em política até o impossível acontece. No entanto, ensina o escritor espanhol Jorge Semprún, é preciso escolher entre a realidade do discurso e o discurso da realidade.

Vale perguntar aos responsáveis dos principais institutos de pesquisa sobre as chances de Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato vencer a eleição no primeiro turno com cerca de 70 milhões de votos.

Eles costumam responder secamente: “Nenhuma”. O sociólogo Antonio Lavareda, do Ipespe, adquiriu o hábito de repetir, com ênfase nas sílabas: “Ne-nhu-ma”.

A razão, explica-se, está na distância entre a intenção do eleitor, manifestação de desejo num momento da campanha, e o imprevisível comportamento na hora de votar.

“40 milhões de eleitores mantêm o suspense de uma eleição indefinida”

Olhar em retrospectiva pode ser instrutivo. Em 2018 eram 147,3 milhões de brasileiros aptos a votar. As abstenções, votos brancos e corresponderam a 40,2 milhões no primeiro turno, ou 29% do total. Na segunda rodada aumentaram para 42,3 milhões (30%).

Na vida real, é muito provável a reprise desse padrão eleitoral em outubro.

É uma forma elegante de dizer o seguinte: como sempre, há muito eleitor anunciando intenção de voto que os candidatos dificilmente receberão nas urnas.

As sondagens são incapazes de antecipar reações na votação de três meses e meio à frente. Por enquanto, tem-se uma eleição indefinida.

Sempre há candidatos que se julgam espertos. Contestam as tendências captadas nas sondagens e até esgrimem com “pesquisas” próprias nas ruas — o “Datapovo”, como chamam.

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Alguns têm a mania de acreditar na promessa de voto de cada eleitor, se confirmada num olhar fixo, tradutor de confiança. O risco é de forte ressaca no dia seguinte à eleição.

Aconteceu com Carlos Roberto Oliveira. Popular sambista da Baixada Fluminense, em 2004 resolveu se candidatar a vereador em Mesquita, pelo PL, que hoje abriga o Bolsonaro.

Fazia a própria pesquisa, diariamente. Saía à caça de eleitores nas ruas, e, logo, o corpo a corpo virava um copo a copo. Qualquer porta de botequim era bom palanque.

Numa manhã, contou, foi à favela da Chatuba, cenário de vários dos seus sambas. Escalou caixas de cerveja vazias e engatou. “Eu falei: ‘Povo da minha terra, vocês têm água aí?’. E eles responderam: ‘Nãaoo’. ‘Têm escola para as crianças?’ Repetiram: ‘Nãaoo’. ‘Têm policiamento?’ ‘Nãaoo.’ Aí, não aguentei: ‘Então, por que vocês não mudam dessa m…?’. E eles ficaram na maior bronca.”

Eleição perdida, claro. Depois da ressaca, fez as contas da campanha. Descobriu que vendia mais discos nos camelódromos do Rio do que conseguira em votos na urna.

Pior: nos botequins da Baixada sempre topava com algum eleitor cobrando em cerveja o suposto voto dado. Só teve 3 000 nas urnas, mas “apareceram uns 600 000 dizendo que votaram em mim”.

Carlos Roberto, o Dicró (1946-2012), não perdeu o humor. Compôs um samba sobre o eleitor:

“Dei cimento, dei tijolo

Dei areia e vergalhão

Subi morro, fui em favela

Carreguei nenê-chorão

Dei cachaça, tira-gosto

Dinheiro de montão

E mesmo assim perdi a eleição

Traidor, traidor

Se tem coisa que não presta

é um tal de eleitor (…)”.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 22 de junho de 2022, edição nº 2794

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