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Informação e análise

Lula improvisa no Bolsa Família em aposta duvidosa no eleitor mais pobre

Decisão súbita na reta final, depois de três anos sem aumento, indica preocupação com a perda de vantagem na disputa pela reeleição

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 set 2026, 08h00
Lula improvisa no Bolsa Família em aposta duvidosa no eleitor mais pobre Priorize VEJA no Google

Na reta final da eleição, Lula resolveu fazer uma aposta no pedaço mais empobrecido do eleitorado. Aumentou o Bolsa Família. Vai passar de 600 para 691 reais mensais a partir de 19 de outubro, no intervalo entre a primeira e a segunda rodada de votação.

É reajuste de 15% no maior programa de assistência social, que ficou sem reajuste nos últimos três anos.

O improviso no anúncio, na semana passada, pode ser debitado ao atordoamento de Lula com a redução da sua vantagem na liderança das pesquisas em relação ao adversário Flávio Bolsonaro.

A diferença para Lula já foi de dez pontos, agora está em torno de cinco. Suas chances de reeleição oscilam. Nesta segunda-feira (21/9), diminuíram (para 40%) no ranking das empresas de apostas baseadas em Nova York e Londres.

O aumento no Bolsa Família não representa um gasto extraordinário para o governo — se prevê acréscimo de 22 bilhões nos gastos. Mas é importante para as pessoas que dependem do Estado para sobreviver.

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O novo valor (691 reais) do Bolsa Família será compatível com o custo de uma cesta básica de alimentos em 11 cidades (Manaus, Porto Velho, Rio Branco, Teresina, São Luís, João pessoa, Maceió, Aracaju, Natal, Recife e Salvador).

Não seria suficiente para pagar o mesmo balaio nas outras 16 capitais — em São Paulo, por exemplo, ficaria 23% abaixo do preço medido pelo Dieese, que há 73 anos pesquisa a evolução do custo de vida para centenas de organizações sindicais.

O governo mantém 19 milhões de famílias no Bolsa Família. Em cada uma delas existe ao menos uma pessoa apta a votar em outubro. É esse o alvo de Lula.

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Nem chega a ser novidade. Jair Bolsonaro disputava a reeleição contra Lula, em 2022, quando aplicou um aumento de 50% no “Bolsa Farelo”, como dizia com evidente preconceito (e isso é notável porque ele criou uma espécie de “bolsa família” particular na folha de pagamentos do setor público, com a consolidação do clã Bolsonaro em cargos eletivos das últimas três décadas.)

Com o aumento do Bolsa Família, Lula repete Bolsonaro a duas semanas da votação. Mas nem ele tem certeza de que isso vai influenciar o rumo da disputa.

Para Bolsonaro, em 2022, o efeito não foi relevante.

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No caso de Lula, o que chama a atenção é a aparente necessidade eleitoral determinante para o improviso governamental numa política pública essencial.

A decisão do aumento foi repentina, sem planejamento, sequer foi prevista no orçamento da União para o próximo ano, apresentado ao Congresso há três semanas.

Depois de três anos sem aumento, essa canetada na reta final sugere preocupação com a perda de vantagem na disputa presidencial. Não exatamente por mérito do adversário Flávio Bolsonaro, mas pela debilidade do governo em relação ao aumento do custo de vida, à insegurança pública e à falta de perspectiva de progresso.

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Desde janeiro, por exemplo, apenas dois em cada dez brasileiros acham que a economia melhorou. Há nove meses metade dos entrevistados pela Quaest repetem uma avaliação ruim da economia sob Lula.

Aparentemente, ele mantém a expectativa de gratidão eleitoral com o aumento no valor do Bolsa Família. É do jogo, mas as pesquisas encomendadas pelo governo antecipam margem duvidosa de retorno em votos: há tempos a fidelidade a Lula estaria consolidada entre oito em cada dez eleitores dessa clientela de assistência estatal.

O problema de Lula não seria com os mais pobres, mas com a classe média empobrecida e insegura com a violência urbana.

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