Lula improvisa no Bolsa Família em aposta duvidosa no eleitor mais pobre
Decisão súbita na reta final, depois de três anos sem aumento, indica preocupação com a perda de vantagem na disputa pela reeleição
Na reta final da eleição, Lula resolveu fazer uma aposta no pedaço mais empobrecido do eleitorado. Aumentou o Bolsa Família. Vai passar de 600 para 691 reais mensais a partir de 19 de outubro, no intervalo entre a primeira e a segunda rodada de votação.
É reajuste de 15% no maior programa de assistência social, que ficou sem reajuste nos últimos três anos.
O improviso no anúncio, na semana passada, pode ser debitado ao atordoamento de Lula com a redução da sua vantagem na liderança das pesquisas em relação ao adversário Flávio Bolsonaro.
A diferença para Lula já foi de dez pontos, agora está em torno de cinco. Suas chances de reeleição oscilam. Nesta segunda-feira (21/9), diminuíram (para 40%) no ranking das empresas de apostas baseadas em Nova York e Londres.
O aumento no Bolsa Família não representa um gasto extraordinário para o governo — se prevê acréscimo de 22 bilhões nos gastos. Mas é importante para as pessoas que dependem do Estado para sobreviver.
O novo valor (691 reais) do Bolsa Família será compatível com o custo de uma cesta básica de alimentos em 11 cidades (Manaus, Porto Velho, Rio Branco, Teresina, São Luís, João pessoa, Maceió, Aracaju, Natal, Recife e Salvador).
Não seria suficiente para pagar o mesmo balaio nas outras 16 capitais — em São Paulo, por exemplo, ficaria 23% abaixo do preço medido pelo Dieese, que há 73 anos pesquisa a evolução do custo de vida para centenas de organizações sindicais.
O governo mantém 19 milhões de famílias no Bolsa Família. Em cada uma delas existe ao menos uma pessoa apta a votar em outubro. É esse o alvo de Lula.
Nem chega a ser novidade. Jair Bolsonaro disputava a reeleição contra Lula, em 2022, quando aplicou um aumento de 50% no “Bolsa Farelo”, como dizia com evidente preconceito (e isso é notável porque ele criou uma espécie de “bolsa família” particular na folha de pagamentos do setor público, com a consolidação do clã Bolsonaro em cargos eletivos das últimas três décadas.)
Com o aumento do Bolsa Família, Lula repete Bolsonaro a duas semanas da votação. Mas nem ele tem certeza de que isso vai influenciar o rumo da disputa.
Para Bolsonaro, em 2022, o efeito não foi relevante.
No caso de Lula, o que chama a atenção é a aparente necessidade eleitoral determinante para o improviso governamental numa política pública essencial.
A decisão do aumento foi repentina, sem planejamento, sequer foi prevista no orçamento da União para o próximo ano, apresentado ao Congresso há três semanas.
Depois de três anos sem aumento, essa canetada na reta final sugere preocupação com a perda de vantagem na disputa presidencial. Não exatamente por mérito do adversário Flávio Bolsonaro, mas pela debilidade do governo em relação ao aumento do custo de vida, à insegurança pública e à falta de perspectiva de progresso.
Desde janeiro, por exemplo, apenas dois em cada dez brasileiros acham que a economia melhorou. Há nove meses metade dos entrevistados pela Quaest repetem uma avaliação ruim da economia sob Lula.
Aparentemente, ele mantém a expectativa de gratidão eleitoral com o aumento no valor do Bolsa Família. É do jogo, mas as pesquisas encomendadas pelo governo antecipam margem duvidosa de retorno em votos: há tempos a fidelidade a Lula estaria consolidada entre oito em cada dez eleitores dessa clientela de assistência estatal.
O problema de Lula não seria com os mais pobres, mas com a classe média empobrecida e insegura com a violência urbana.





