Depois de censurar, Nunes Marques quer ‘premiar’ pesquisas eleitorais
Empresas acham que presidente do TSE confunde pesquisa com previsão de resultado eleitoral
No início de junho, o juiz Kassio Nunes Marques escolheu a censura como ato de estreia na presidência do Tribunal Superior Eleitoral: proibiu uma pesquisa eleitoral da AtlasIntel em parceria com a agência de notícias Bloomberg a pedido do senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à presidência da República.
A sondagem de intenção de voto, realizada no final de maio, mostrou que uma fatia do eleitorado havia se tornado refratária ao candidato Bolsonaro desde a revelação do seu envolvimento em negócios obscuros com o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso por fraudes financeiras bilionárias.
O Partido Liberal e seu candidato não gostaram dos resultados dessa pesquisa e reivindicaram censura judicial. Nunes Marques, que é do Supremo Tribunal Federal, assumiu o TSE e aceitou a alegação de que a sondagem de opinião não teria sido feita com “perguntas neutras”.
Meteu-se numa grande confusão. Isso porque a questão está resolvida há 38 anos na Constituição, que é eloquente: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição” — diz o artigo 220, e, na sequência, esclarece: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”
Nunes Marques insiste numa intervenção judicial nas pesquisas. Nesta terça-feira (14/7), em Brasília, propôs um regulamento específico para “reconhecer e valorizar empresas de pesquisa eleitoral cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais”. Empresas protestaram. Algumas consideraram inaceitável a confusão feita pelo juiz entre pesquisa e previsão.
A ideia de Nunes Marques é “premiar” a sondagem que mais se aproxime do resultado das urnas em todas as eleições. Seria distinguida como um “selo” de qualidade da Justiça Eleitoral. Seria um “selo K” (de Kassio), na ironia de juízes do TSE, que percebem na proposta uma tentativa de conter danos à imagem do tribunal desde a ameaça de censura do mês passado.







