Clique e Assine a partir de R$ 9,90/mês
José Casado Por José Casado Informação e análise

A primeira vítima brasileira da guerra de Putin

Bloqueio econômico global impede venda de fábrica inacabada de fertilizantes da Petrobras para o grupo russo Acron

Por José Casado Atualizado em 3 mar 2022, 09h23 - Publicado em 1 mar 2022, 08h00

No leste do Mato Grosso do Sul, a 860 quilômetros distância do Palácio do Planalto, está a primeira vítima brasileira do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e a União Europeia à Rússia de Vladimir Putin.

É uma fábrica inacabada de fertilizantes nitrogenados da Petrobras — UFN-III nos prospectos da empresa estatal.

Foi projetada para reduzir à metade a atual dependência doméstica de importações de adubos à base de amônia e ureia, que beira 90%. Está em construção há uma década, num perfeito retrato da caótica administração pública nacional.

Na sexta-feira 4 de fevereiro, a Petrobras anunciou ter chegado a um acordo sobre “as minutas contratuais” para vender a fábrica ao grupo russo Acron, herdeiro privado da base produtora de fertilizantes da extinta União Soviética. “A assinatura do contrato de venda”— esclareceu — “depende ainda de tramitação na governança da Petrobras, após as devidas aprovações governamentais”.

O governo festejou. Jair Bolsonaro aproveitou para lembrar, em redes sociais, que o mico bilionário da UFN-III tinha dono — o PT de Lula e Dilma Rousseff.

“Para aquela turma, R$ 3,7 bilhões é pouco”— disse. “Lembro que um ex-diretor da Petrobras [Pedro Barusco] devolveu R$ 290 milhões [durante a investigação da Lava Jato]. Além do prejuízo de R$ 3,7 bilhões que foram gastos na fábrica, ainda se gasta R$ 1 milhão para cuidar da sucata que está lá, porque algumas coisas prestam.”

Continua após a publicidade

Acrescentou: “O mundo vive uma crise de fertilizantes, perdemos uma oportunidade de ter uma fábrica produzindo, fazendo fertilizantes no país. Os fertilizantes aumentaram cerca de três vezes, e isso reflete no preço da comida que está na sua mesa.”

Dez dias depois viajou a Moscou. Temia os danos colaterais, para o Brasil, do conflito da Rússia com a Ucrânia. Fábricas russas foram a maior fonte de suprimento de fertilizantes para o Brasil no ano passado. Entregaram 22% de todo adubo importado para as lavouras do país. Na pandemia e com a evolução da crise ucraniana, os preços aumentaram em velocidade surpreendente: por cada tonelada que comprou no ano passado, o Brasil pagou 56% mais que preço médio de 2020.

Bolsonaro foi ao Kremlin pedir a Putin garantias de oferta de fertilizantes e alguma estabilidade nos preços neste ano. Candidato à reeleição, qualquer acerto em Moscou seria um trunfo potencial junto à base de eleitores cuja vida depende dos rumos do agronegócio. Eles o sustentaram na campanha de 2018 e ainda o mantém na liderança nas maiores regiões agrícolas, segundo as mais recentes pesquisas.
Bolsonaro voltou sem garantias formais, mas assegurou aval político para a venda da fábrica de nitrogenados da Petrobras para Acron.

Putin, hábil como um espião treinado, aparentemente deixou Bolsonaro se convencer de que não invadiria a Ucrânia, apesar dos reiterados avisos públicos do governo americano sobre a iminência da invasão.

No domingo, a Rússia foi desligada do sistema financeiro global. Estão proibidos negócios com o Banco Central russo, o que impede a liquidação de contratos de compra e venda.

A guerra de Putin tornou inviáveis os negócios estrangeiros das empresas russas. Entre eles o da Acron com Petrobras para compra da fábrica inacabada de fertilizantes do Mato Grosso do Sul.

O mico bilionário permanece semi-edificado numa estrutura com reatores de amônia e ureia de 40 metros de altura e 671 toneladas de peso. Foram importados da China, atravessaram a última década estacionados numa área de Três Lagoas, à margem do rio Paraná, e têm futuro tão incerto quanto o de Putin e o da Ucrânia.

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo de VEJA. Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app (celular/tablet).

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.



a partir de R$ 39,90/mês

MELHOR
OFERTA

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet. Edições de Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 9,90/mês

ou

30% de desconto

1 ano por R$ 82,80
(cada mês sai por R$ 6,90)