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Mulher-Maravilha – Firme e forte em 1º na bilheteria

Sucesso de “Mulher-Maravilha” não tem segredo: é merecido

Por Isabela Boscov 13 jun 2017, 16h49

Em todo lugar, leio os mesmos comentários de quem já viu Mulher-Maravilha: “Que filme!”; “Que lindo!”. Bilheteria é voto direto, e a do filme estrelado por Gal Gadot vem ganhando de lavada nas urnas: nos Estados Unidos, no seu segundo fim de semana em cartaz, bateu com folga a estreia da Múmia de Tom Cruise e continuou liderando a arrecadação. No Brasil, o quadro é o mesmo – liderança tranquila de Mulher-Maravilha na sua segunda semana de exibição.

Claro que se encontra uma ou outra “denúncia” virulenta de que o filme, protagonizado por uma mulher e dirigido por outra, só está sendo elogiado por obrigação politicamente correta, ou como parte de uma conspiração sinistra para promover a dominação feminina e anular os homens. Quase dá para ter certeza que esses queixosos não assistiram ao filme. Porque dominação e anulação são o oposto do que Mulher-Maravilha prega: se a plateia sai do cinema tão feliz, empolgada e até inspirada, é porque a diretora Patty Jenkins, primeiro, fez um baita filme. E, segundo, porque tudo nele cristaliza a ideia simples, mas encorajadora, de que cada um de nós tem a possibilidade de ser, amanhã, uma versão de si um pouco melhor que a de hoje. Diana faz grandes gestos para salvar o mundo. Mas é nos pequenos gestos – na solidariedade com uma secretária estafada, na consideração com que ouve os companheiros de armas falarem de suas desventuras – que a pureza e a gentileza dela brilham.

Na Ilha de Themyscira, Diana é uma princesa de coração virtuoso e valores nobres – coisa relativamente fácil num lugar em que todos (ou todas, já que lá só há mulheres) têm seus lugares assinalados. Já na Europa de 1914-1918, arrasada pela I Guerra Mundial, convulsionada por rixas de poder, dilacerada por antagonismos tribais e dividida por todo tipo de injustiça, Diana tem que batalhar duro para não perder de vista o que significam pureza e nobreza, e encontrar algum vestígio desses princípios ao qual se aferrar. Steve Trevor, o espião americano que cai em Themyscira e de lá sai acompanhado de Diana, está fazendo a sua parte para deter a máquina da guerra. Mas, no convívio com Diana, ele percebe como se tornou cínico, e como aceita fácil esperar sempre o pior de todos. O pragmatismo de Steve dá a Diana o seu propósito: testa as convicções dela contra a realidade e a ensina a usar sua força e seu idealismo de maneira eficaz, concreta. E o idealismo de Diana lembra Steve de que é preciso olhar não só as partes, mas o todo; ela faz dele o homem que ele poderia e deveria ser. Os pragmáticos e os idealistas, os homens e as mulheres, são todos necessários e complementares – se não como pares, sempre como polaridades que se devem conciliar.

Patty Jenkins, enfim, faz de Mulher-Maravilha uma história sobre existir no mundo que se tem, e enche essa história com as coisas que definem a existência – humor, paixão, desavença, deslumbramento, decepção . Por causa delas, o filme ganha vida e ressoa junto ao espectador. Há quem veja nos filmes de super-herói um sintoma da infantilização da cultura, e lamente que uma geração tenha neles sua fonte primordial de inspiração. Pode ser que sim, pode ser que não, e pode ser que talvez. Mas, no frigir dos ovos, estou com Patty: é preciso existir no mundo em que se está, e lidar com ele. Se as aventuras de super-heróis são a dieta básica, que bom que essa dieta contém coisas como Mulher-Maravilha, um filme que defende que a finalidade de levantar uma boa bandeira – paz, justiça, igualdade disso e daquilo – não é criar mais caos e disputa, mas agir no sentido de tornar a bandeira dispensável.

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