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Diretor de ‘9 ½ Semanas de Amor’ dá vexame em novo thriller erótico

Depois de vinte anos sem filmar, Adrian Lyne tenta ressuscitar o gênero que lhe deu fama em 'Águas Profundas', com Ben Affleck e Ana de Armas

Por Isabela Boscov 21 mar 2022, 11h28

Bastaram três filmes – Flashdance, 9 ½ Semanas de Amor e Atração Fatal – para o inglês Adrian Lyne, mais que qualquer outro diretor, dar aos anos 1980 a cara com que eles são lembrados. Ou pelo menos uma delas: a do glamour superficial, erotismo sintético e pudor travestido de provocação. Por algum mecanismo nunca bem compreendido, o estilo brega de Lyne ganhou o carimbo de elegante (a década de 80 foi, de fato, um massacre estético) e sua abordagem, categorizada como “adulta”. Mas que Lyne soube tomar o pulso da época, disso não há dúvida. Estender essa conexão com a plateia, porém, provou-se um problema: em 1993, Proposta Indecente, aquele em que Robert Redford paga 1 milhão de dólares por uma noite com Demi Moore, foi recebido como não muito mais que uma piada, e a adaptação de Lyne para o Lolita de Vladimir Nabokov, em 1997, naufragou. Desde Infidelidade, de 2002, Lyne, hoje com 81 anos, não lançava um filme. Mas, agora, outro autor corre perigo nas mãos do diretor: a americana Patricia Highsmith, em cujo livro de 1957 ele se baseia em Águas Profundas, desde ontem disponível na Amazon Prime Video.

Na trama em si – aquilo que se pode definir como “o que acontece” –, o filme nem difere tanto assim do texto original. Já no que diz respeito ao “como” e ao “por quê”, aí a própria autora teria dificuldade em reconhecer a história de Vic Van Allen, sujeito de 36 anos, cabelos aloirados, altura mediana, peso um pouco acima do desejável, modos brandos e temperamento tido como inofensivo – ou seja, um protagonista que não se parece em nada com Ben Affleck, a quem o papel foi entregue. Vic mora em uma cidadezinha sofisticada não muito longe de Nova York. Sem preocupações financeiras, com muito tempo livre e uma filha de 6 anos de quem ele cuida quase sozinho, Vic mantém em um civilizado banho-maria (leia-se, sem qualquer contato sexual) o casamento com a bonita, loira, esguia e entediada Melinda, que bebe demais e ultimamente perdeu toda a discrição nos casos extraconjugais que emenda uns nos outros (Ana de Armas seria uma ótima escalação não fosse faltar-lhe a auto-absorção quase sociopática que é uma das características marcantes da personagem). Esse é – no livro – o problema de Vic: sempre orgulhoso de sua excentricidade, ele percebe que os amigos começam a olhá-lo não mais como um homem indiferente a algo tão pequeno-burguês quanto o ciúme, mas sim com pena, como o coitado que abaixa a cabeça e prepara drinques para os homens em geral vulgares com que a mulher o trai. A um desses amantes, Vic, no limite da paciência, faz uma piada ameaçadora; e quando o pianista de boate que é a conquista seguinte de Melinda se afoga em uma piscina, ela acusa o marido, aos gritos e para quem quiser ouvi-la, de assassinato.

Lyne finge que não está mudando nada, mas muda tudo. Vic agora é uma figura que intimida e na cama, ao menos, ele e Melinda vão muito bem, obrigada, o que desmonta toda a estrutura sobre a qual o relacionamento peculiar deles era construído (mas um filme de Lyne não seria um filme de Lyne sem um pretexto para várias cenas de sexo). O desenho meticuloso e rigoroso de Highsmith para a psicologia de seus personagens é jogado pela janela: os dois são tão inconsistentes nas suas atitudes que é impossível dizer quem eles são ou entender o que querem um do outro. Por fim, Lyne tenta injetar voltagem no thriller com uma das cenas de perseguição mais ridículas já concebidas, em que um bom ator (não, não se trata de Ben Affleck) topa a ideia de que seu personagem, dirigindo a toda velocidade por uma estrada de terra cheia de curvas e buracos, resolva que essa é a melhor hora para digitar uma mensagem de texto no celular. Até em Hollywood todo mundo tem boleto para pagar.


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