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Jeronimo Teixeira Intervenção Por Jerônimo Teixeira Crítica da cultura e cultura da crítica. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A Turquia virou ditadura. À tarde, fui correr no Minhocão

O que um viaduto de São Paulo e um romance do turco Orhan Pamuk nos ensinam sobre a liberdade e a opressão da vida urbana

Por Jerônimo Teixeira Atualizado em 5 dez 2018, 14h39 - Publicado em 28 abr 2017, 19h07

Ninguém mora em São Paulo. As pessoas moram em pequenos recortes de uma cidade humanamente inabarcável. Pois eu moro, há 13 anos, no bairro de Santa Cecília. Vivo nas proximidades do monstro urbano popularmente conhecido como Minhocão, um viaduto que vai do centro ao bairro de Perdizes. Aos domingos, a via expressa é fechada aos carros e ocupada por pedestres, ciclistas, vendedores ambulantes, crianças, skatistas. Andar sobre o elevado é uma das experiências mais estranhas que se pode ter em uma grande cidade. Os prédios do entorno, muitos deles depauperados, estão a menos de dez metros de distância do viaduto. Durante a semana, respiram o escapamento dos carros; aos domingos, expõem sua intimidade aos passantes não-motorizados. Do Minhocão, é possível – aliás, é inevitável – ver o interior dos apartamentos: a sala com televisão, a louça na pia da cozinha, camisetas e calcinhas no varal.

Minhocão
Minhocão: a estranha experiência de andar em meio à intimidade alheia Jerônimo Teixeira/VEJA

Rompendo um longo ciclo de sedentarismo, comecei a correr este ano. Aos domingos, o Minhocão é minha pista de jogging (sou velho o bastante para lembrar outro anglicismo para “correr”: fazer o cooper). Ultimamente, enquanto corro em meio aos edifícios, penso muito em Mevlut. Para quem não o conhece, Mevlut é um vendedor ambulante. Veio da zona rural para a cidade grande ainda criança, para ajudar o pai no comércio de rua e para estudar em uma escola melhor do que aquela que tinha em sua aldeia natal. Não progrediu muito na escola. Seguiu como vendedor ambulante depois que o pai morreu, eventualmente fazendo outros “bicos” para sustentar mulher e duas filhas.

 

Essa poderia ser uma biografia brasileira, se o personagem, tal como o retirante do poema de João Cabral de Melo Neto, se chamasse Severino.  Mas Mevlut é um nome turco: trata-se do protagonista de Uma Sensação Estranha (Companhia das Letras), do prêmio Nobel Orhan Pamuk, romance sobre o qual conversei com meu colega Marcelo Marthe no Clube do Livro (vídeo abaixo). À noite, Mevlut vende boza, tradicional fermentado de trigo, pelas ruas de Istambul. No livro, há outros tantos elementos que são bem conhecidos dos brasileiros (e, podemos supor, dos chineses, indianos, mexicanos): ocupação urbana caótica, especulação imobiliária desenfreada, reformas que desfiguram a cidade e sua história. A certa altura da narrativa, Mevlut choca-se com o que deve ser a versão turca do Minhocão: uma via expressa que corta o caminho pelo qual ele desejava empurrar seu carrinho de arroz com frango (ele tenta vender outros produtos ao longo da vida, mas o boza é seu único sustento constante).

 

 

Istambul não é gentil com Mevlut (São Paulo tampouco o terá sido com todos os migrantes pobres que vem acolhendo ao longo de décadas). Nos cerca de quarenta anos cobertos pela narrativa, que começa no final dos anos 1960, há pobreza, privação, opressão política. No entanto, o retorno à aldeia de origem é uma possibilidade que jamais ocorre ao personagem. Mevlut ama as ruas (ele vive ainda outro belo caso de amor, mas isso não cabe neste post). O vendedor de boza às vezes não se reconhece na cidade que cresce e se transforma dramaticamente, mas Istambul ainda é, sempre, o seu lugar.
Será que a senhora de idade que certo dia vi vendendo “lembranças do Minhocão” poderá dizer o mesmo? (Não diminuí o ritmo da corrida para ver que “lembranças” seriam estas, e me arrependo: nunca mais encontrei a banca da velhinha.) E o mendigo que ergueu um precário abrigo em uma alça de acesso ao viaduto, o que pensa da cidade?  O que sentirá por São Paulo o outro morador de rua que riu de mim porque eu estava cantarolando, sem perceber, o refrão de Gotta Serve Somebody (para escrever ou me exercitar, ponho sempre os headphones)? A menina que caiu da patinete pouco à minha frente e foi logo socorrida pela mãe e pelo pai hipster – será que ela diria “minha cidade” como diz “minha patinete”?

 

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A paisagem metropolitana brasileira é, em geral, uma coleção de desastres, e o Minhocão é um desastre típico dos anos do Brasil Grande (falo da ditadura militar: os anos do “nunca antes neste país” foram a repetição como farsa). É uma hipérbole grotesca, uma cicatriz no centro da cidade. O viaduto foi inaugurado em 1970, quando Paulo Maluf era prefeito, e batizado com o nome de um dos generais-ditadores do período. Recentemente, foi rebatizado com o nome de um presidente cujo único grande feito foi ter sido deposto. Quem se importa com o nome oficial? O apelido meio debochado pegou, e não há decreto que mude o modo como as pessoas o chamam: Minhocão.

Minhocão
Minhocão: feio a seu próprio modo Jerônimo Teixeira/VEJA

José Francisco Botelho, em sua coluna em VEJA, outro dia falou da feiura dominante nas capitais brasileiras. Parafraseando o famoso início de Anna Kariênina, ele dizia que “todas as cidades feias se parecem entre si; as bonitas são bonitas cada uma à sua maneira”. Discordo: do alto do Minhocão, descortina-se uma feiura que é muito particularmente paulistana. Edifícios degradados da primeira metade do século XX ao lado de espigões espelhados de data indefinível: sim, vemos isso em outras cidades brasileiras (e não só brasileiras: vi isso em Tel Aviv, quando lá fui entrevistar Amós Oz, tema de um post anterior de Intervenção). Mas as dimensões do caos são outras em São Paulo, onde tudo é maior. Só em São Paulo podemos subir em um viaduto horroroso para melhor vislumbrar a cidade feia.
Há um debate vivo sobre o que se fazer com a aberração que Maluf legou à cidade, como se vê abaixo no debate mediado por Mariana Barros, do blog Cidades sem Fronteiras. Derrubar? Fechá-lo em definitivo para os carros, convertendo-o em um parque suspenso? Enquanto a coisa não se resolve, os vendedores seguem oferecendo lembranças do Minhocão, os moradores de rua continuam improvisando barracões no seu entorno, e as hipsters-mirins andam de patinete. A cidade é a coleção de erros de seus governantes e de seus cidadãos, e é também as estratégias que inventamos para conviver com esses erros. Mevlut, o encantador personagem criado por Pamuk, intuitivamente entende isso.  

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O título deste post faz referência à famosa entrada do diário de Kafka em 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar”. A rigor, eu fui correr na manhã do domingo, 16 de abril, em que a Turquia disse “sim”, em plebiscito nacional (provavelmente fraudado), a mudanças constitucionais que instauraram o presidencialismo e ampliaram os já exagerados poderes do presidente Recep Erdogan. Entrevistei Pamuk semanas antes do plebiscito. Ele dizia que o “não” era a única chance para que a Turquia permanecesse uma nação democrática. A chance foi perdida.

Que destino terá Mevlut na Turquia autoritária que se desenha? A rigor, nenhum: seu destino de personagem ficcional já está todo descrito e delimitado nas páginas de Uma Sensação Estranha. Mas bons personagens estabelecem essa ilusão: pensamos conhecê-los e nos comprazemos em imaginá-los em tempos e lugares que seus criadores não previram. Torcemos pela felicidade de personagens sinceros e batalhadores como Mevlut. Ao longo do romance, é verdade, o vendedor de boza já enfrenta as turbulências da política turca, como o golpe militar de 1980. Sobrevive, sempre, cavando seu humilde lugar na cidade hostil. Se a vida urbana está entre as mais maravilhosas invenções humanas, é porque, em alguma medida, resguarda nossas pequenas liberdades. Não, não estou dizendo em absoluto que dá no mesmo viver em Pyongyang ou Nova York, em Caracas ou em Paris. Acredito apenas que uma metrópole é sempre uma realidade caótica, na qual, salvo em totalitarismos extremos, abrem-se brechas espontâneas, zonas secretas que o olho vigilante do poder não alcança.
O amigo Astier Basílio, jornalista e escritor, esteve recentemente em Moscou, para estudar a língua russa, e registrou no blog Russos Não Riem uma cena alentadora em uma estação de metrô: duas jovens se beijavam, com naturalidade, sem que ninguém as perturbasse. Não, isso não muda o fato de que existe pesada repressão contra os gays na Rússia de Putin. Mas eis a beleza das grandes cidades: elas costumam ser melhores do que os homens que as governam.

Uma cidade é sempre uma aspiração à liberdade.

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Minhocão
Nelson, meu sogro (à dir.), no último passeio pelo Minhocão Jerônimo Teixeira/VEJA

Foi, creio, na última visita que meu sogro, Nelson, fez a São Paulo. Nós o levamos a caminhar pelo Minhocão, ao lado da neta. Este post fica dedicado a ele, postumamente. Para mim, o Minhocão estará sempre associado a sua lembrança. Continuará assim mesmo que um dia, afinal, resolvam dinamitá-lo.
Os asfalto e o concreto não guardam o nome de quem pisa sobre eles. Mas uma cidade também é a memória afetiva que atribuímos à sua matéria indiferente.

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