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Invasores de terra indígena em Rondônia ameaçam matar crianças

Discurso anti-indígena do novo governo teria motivado o aumento das agressões

Por Jennifer Ann Thomas Atualizado em 11 fev 2019, 20h25 - Publicado em 11 fev 2019, 20h21

Em uma carta de 14 de janeiro deste ano enviada ao superintendente do Ibama em Rondônia, Carlos Alberto Paraguassu, dois representantes da terra indígena Uru-eu-wau-wau, localizada no mesmo estado, relataram ameaças e invasões que se tornaram frequentes na região.

Ali vivem os povos Jupaú (conhecidos como Uru-eu-wau-wau), os Amondawa e Oro Towati (Oro In) e três povos isolados, ainda sem contato com a sociedade. O presidente da Associação do Povo Indígena Jupaú, Awapu Uru-eu-wau-wau, e um morador de uma das aldeias, Boatuto Uru-eu-wau-wau, assinaram a carta.

No documento, eles escreveram que: “no dia 11/01/2019, invasores adentraram a região da aldeia Linha 623 na placa da FUNAI abrindo um picadão de aproximadamente 20 km, desmatando, derrubando um monte de madeira e com o objetivo de grilar a terra indígena, eram aproximadamente 40 invasores, os Uru-eu-wau-wau foram e expulsaram os invasores, porém o chefe da invasão ameaçou que voltaria com mais 200 invasores e que se os indígenas resistissem eles matariam ‘crianças para os indígenas sentirem a dor’“.

Além da ameaça de morte às crianças, os indígenas reforçaram às autoridades a preocupação com os povos isolados. De acordo com eles, as invasões estão se aproximando cada vez mais das aldeias que nunca tiveram contato com o homem branco. A violência física, obviamente, é uma enorme ameaça, mas eles também são extremamente vulneráveis a doenças comuns, como a gripe, por não terem resistência imunológica.

Segundo a coordenadora-geral da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, Ivaneide Bandeira, os discursos do novo governo motivaram o aumento das agressões. “As áreas vêm sofrendo uma invasão sistemática que se acentuou durante e depois das eleições. Os invasores ameaçam a vida dos indígenas, das crianças, desmatam e fazem marcações de lotes dentro das áreas protegidas. Até agora, nada foi feito para proteger os indígenas e as suas terras”, afirmou. 

Ao Ibama, os indígenas deixaram claro o pedido de socorro: “a invasão é próxima à aldeia, inclusive é a estrada por onde os mesmos passam para irem para suas casas. (…)  Os indígenas estão assustados e pedem o apoio para proteção física e territorial da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau”.

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No ano passado, a mesma etnia denunciou as invasões para a Polícia Federal. No documento de 2018, afirmaram: “Vimos informar que a Terra Indígena Uru-eu-wau-wau está sofrendo invasão pela Linha 27, causando danos ambientais e sociais ao povo indígena. (…) Preocupados e com medo que atentem contra nossa vida, vimos solicitar fiscalização urgente pela Policia Federal e FUNAI. Como sabemos da dificuldade de recurso da FUNAI, pedimos encarecidamente que a PF ajude a FUNAI a fazer a fiscalização e nos colocamos a disposição para ajuda-los a irem a área de invasão”.

A terra indígena possui 1.967,117 hectares, abrange 11 municípios, foi homologada pelo presidente Fernando Collor em 1991, possui as nascentes dos principais rios do estado, sendo o berço de 12 sub-bacias hidrográficas importantes para a economia, o equilíbrio climático e a preservação da biodiversidade.

Em uma carta feita pela Associação do Povo Indígena Uru-eu-wau-wau, a organização declarou que os indígenas estão psicologicamente abalados com a situação, já que não se sentem seguros em sair para caçar, pescar ou coletar frutos por acreditarem que os grileiros vão entrar e matar mulheres e crianças.

De acordo com a Associação Uru-eu-wau-wau, no dia 30 de janeiro, o novo presidente da FUNAI, Franklimberg de Freitas, foi até a aldeia Alto Jamari, onde estava acontecendo um encontro de lideranças indígenas para definir que atitude tomariam diante das invasões. Na reunião, o presidente colocou que havia sobrevoado a área, visto o tamanho dos estragos e que enviaria a Força Nacional para conter as invasões.

Os próprios indígenas sentem que as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre terras protegidas estimularam o aumento das invasões na região. No encontro com Freitas, eles questionaram as falas de Bolsonaro sobre diminuir e não demarcar nenhuma área nova. De acordo com a Associação, os representantes do governo, no entanto, afirmaram que o presidente nunca disse isso, mesmo depois de os indígenas afirmarem que viram as informações na televisão.

Apesar da promessa de chamar a Força Nacional, as equipes não foram enviadas ao local e as invasões nas regiões mais afastadas das aldeias continuam.

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