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Histórias de Sucesso

Por Fabiana Monteiro Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Chairman & CEO | Editora Global Partners; especialista em liderança, educação e impacto ESG. Lideranças que formam o futuro

Liderança que atravessa fronteiras

Da siderurgia brasileira à carreira internacional, Ricardo A. Anawate, executivo da Optimus Steel, mostra que a liderança atravessa fronteiras

Por Fabiana Monteiro 29 set 2026, 20h08 | Atualizado em 29 set 2026, 20h10
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Ricardo A. Anawate nasceu em 1956, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, filho de Henrique Anawate e Maria de Abreu Anawate e o mais velho entre cinco filhos. Desde cedo, gostava de conhecer outros lugares. Aos 15 anos, viveu uma experiência que ampliou sua percepção de mundo: percorreu as rodovias Belém-Brasília e BR-364, de Cuiabá a Rio Branco, na boleia de um caminhão, acompanhando um tio que trabalhava no comércio de couros. Naquela viagem, conheceu de perto uma realidade muito diferente daquela que fazia parte de sua vida até então. Anos mais tarde, seria a carreira que o levaria definitivamente para longe da cidade natal: dos seus 46 anos de trajetória profissional, 36 ele viveu fora do Brasil, sempre por razões profissionais.

A siderurgia também apareceu cedo em sua vida. Seu pai era paulista e se mudou para Porto Alegre ao ser convidado para lecionar Siderurgia e Metalurgia na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além da docência, trabalhava na indústria siderúrgica, e algumas vezes Ricardo o acompanhava em visitas às fábricas. Sem planejar, ele acabou influenciando sua escolha profissional.

Ricardo optou por Engenharia Metalúrgica na UFRGS, onde se formou em 1979. Sempre teve necessidade de aproximar teoria e prática. Já no primeiro ano da faculdade, estagiou na extinta Fundição Wallig, na área de Segurança do Trabalho, seu primeiro contato mais próximo com o ambiente industrial.

Quando estava perto de se formar, queria começar a construir uma trajetória num lugar em que pudesse continuar depois da universidade. A empresa de autopeças em que estagiava não poderia garantir sua contratação. Seguindo a recomendação de colegas, bateu à porta da Siderúrgica Riograndense, do grupo Gerdau. Em 1980, começava ali uma relação com a siderurgia que atravessaria sua vida profissional.

Nos primeiros dez anos, trabalhou na fabricação de aço em usinas no Rio Grande do Sul e no Paraná. Em 1985, surgiu uma experiência que ampliaria sua visão sobre o setor: passou seis meses no Japão fazendo a especialização Electric Steelmaking Engineering, patrocinada pela JICA – Japan International Cooperation Agency. O curso apresentava o estado da arte dos processos e equipamentos siderúrgicos e incluía visitas a usinas e fornecedores da indústria japonesa.

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A experiência lhe deu uma visão mais ampla do processo de fabricação do aço e o acompanhou pelo restante da carreira. O conhecimento sobre o Japão e sua cultura também abriu caminho para que retornasse outras vezes ao país em viagens de intercâmbio de tecnologia e desenvolvimento técnico.

Quando a carreira atravessa fronteiras

Em 1990, sua carreira ganhou uma dimensão definitivamente internacional. Ricardo foi convidado por Claus Süffert, então diretor de Planejamento do Grupo Gerdau, a atuar no Canadá, em um momento em que a empresa ampliava sua presença fora do Brasil. Passou a gerenciar as áreas de fabricação de aço das usinas Gerdau Cambridge e Gerdau Whitby, ambas localizadas na província de Ontário, no Canadá.

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Mudar de país mostrou que adaptação vai muito além de dominar outro idioma. É preciso compreender comportamentos, cultura e formas diferentes de trabalhar. Ricardo estudava inglês desde menino e, em 1978, ainda durante a faculdade, chegou a trancar o curso por alguns meses para buscar fluência em Los Angeles, na Califórnia. Anos depois, percebeu na prática o quanto aquele preparo faria diferença.

No Canadá, um dos maiores aprendizados veio da relação com os sindicatos. As negociações trabalhistas aconteciam a cada três anos e envolviam uma revisão completa do contrato de trabalho, seguida da negociação salarial. Em uma delas, a dificuldade para chegar a um acordo resultou em uma greve.

Foi um momento delicado. Ricardo e sua equipe recorreram a um mediador indicado pelo Ministério do Trabalho de Ontário para encontrar um denominador comum. Encerrada a paralisação, havia outro desafio: reconstruir a relação cotidiana. As desavenças ocorridas nos piquetes precisavam ficar para trás, enquanto a segurança dos operadores e da própria operação se tornava prioridade na retomada. O executivo fez questão de ter contato direto e pessoal com cada operador da sua área. Aos poucos, a relação cordial foi restabelecida.

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A experiência lhe ensinou que, diante de um conflito, o líder não pode simplesmente ceder à tentação do confronto. Ricardo percebeu que precisava se preparar melhor e buscou formação em negociação trabalhista na Harvard Law School, onde participou do curso Negotiating Labor Agreements, oferecido pelo Program on Negotiation. Ali, compreendeu a importância de chegar à mesa de negociação com uma estratégia bem definida e buscar soluções que contemplassem os interesses dos dois lados.

Permaneceu no Canadá até 2008, quando se mudou para os Estados Unidos já como vice-presidente e recebeu a responsabilidade de dirigir sua primeira usina siderúrgica, a Gerdau Ameristeel Beaumont Steel Mill, no Texas. Era uma operação com produção anual de 600 mil toneladas e quase 400 colaboradores. O principal produto era o fio-máquina, matéria-prima para fabricação de arames, segmento em que a empresa detinha cerca de 15% do mercado da América do Norte.

Assumir aquela operação trouxe outro nível de responsabilidade. Além da produção e das pessoas, havia clientes que exigiam atenção constante. Ricardo aprendeu que relações comerciais também são construídas pela disponibilidade para ouvir e pela atenção dada a quem está do outro lado.

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Em 2014, foi convidado a assumir a Gerdau Jackson Tennessee Steel Mill, onde comandou uma fábrica de aços para construção mecânica. Quatro anos depois, voltou ao Texas. A usina que havia liderado anteriormente tinha sido vendida para um antigo cliente e rebatizada como Optimus Steel. Retornou à operação como vice-presidente de Operações.

As decisões mais difíceis envolvem pessoas

Ao longo de uma carreira tão extensa, algumas das decisões mais difíceis não estiveram relacionadas a máquinas ou processos, mas a pessoas. Na Gerdau Courtice Steel, que mais tarde passou a se chamar Gerdau Cambridge, Ricardo encontrou, na área de siderurgia sob sua responsabilidade, uma estrutura com supervisão excessiva, pouca agilidade e responsabilidades pouco claras. Era necessário reduzir significativamente o quadro de supervisores e reorganizar o time.

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Demitir pessoas nunca é uma tarefa fácil. Mas há momentos em que o líder precisa tomar decisões pensando na equipe e na empresa. Para Ricardo, o ponto fundamental é preservar o respeito, agindo de maneira justa e correta mesmo nas situações mais difíceis. Liderança não significa apenas decidir; significa assumir a responsabilidade pelas consequências das decisões.

Com o tempo, sua atuação também mudou. Hoje, Ricardo já não tem responsabilidade operacional na Optimus Steel, companhia de origem familiar mexicana que atua nos segmentos de arames, trefilaria e aços para construção civil. Trabalha diretamente com os acionistas majoritários nos assuntos estratégicos da empresa. Com um plano de expansão agressivo, essa nova fase passou a exigir atenção especial a temas como desenvolvimento de produtos para aplicações mais sofisticadas, disponibilidade de matéria-prima de melhor qualidade e energia.

A questão energética ganhou particular importância. A expansão aumentará significativamente a utilização de energia elétrica e gás natural, recursos que enfrentam alta demanda mundial. É um exemplo de como, mesmo depois de décadas no mesmo setor, o trabalho continua exigindo aprendizado e capacidade de adaptação.

Talvez por isso Ricardo acredite que entender profundamente a profissão é fundamental para liderar, e não apenas gerenciar. O aprendizado não termina com a formação acadêmica nem com a chegada a uma posição de comando. Ao contrário: quanto maior a responsabilidade, maior a necessidade de ouvir, questionar e continuar aprendendo.

Também aprendeu que liderança exige mente aberta. Trabalha com pessoas de diferentes origens, idades, nacionalidades, ideias e crenças. Saber ouvir antes de chegar com respostas prontas permite construir equipes mais eficientes e ambientes em que as pessoas se sintam valorizadas.

Iniciativa, escolhas e legado

Para quem está começando, iniciativa continua sendo uma qualidade essencial. Quando estudante, Ricardo procurou a Companhia Siderúrgica Acesita, em Minas Gerais, porque queria aprender sobre laminação de aços inoxidáveis, processo utilizado pela empresa. Recebeu a resposta de que não havia orçamento nem vaga para aquele período, mas poderiam oferecer pouso e alimentação se aceitasse trabalhar sem salário. Não hesitou. O aprendizado que buscava valia a experiência.

Esse episódio representa algo em que continua acreditando: jovens profissionais precisam se envolver, demonstrar curiosidade e aproveitar oportunidades de aprendizado. Errar também faz parte desse processo, desde que se tenha disposição para aprender e fazer melhor na próxima vez.

A forma de lidar com pressão mudou muito desde o início de sua carreira. Quando começou a trabalhar, as ligações chegavam ao escritório. Hoje, o celular deixa os profissionais acessíveis praticamente o tempo todo. Ricardo procura separar mensagens e assuntos por prioridade, identificando o que realmente exige atenção imediata. Nem tudo tem a mesma urgência.

Mas uma das maiores realizações desses 46 anos talvez seja mais simples: Ricardo gosta do que faz. O ambiente industrial, os desafios, o contato com pessoas de perfis diferentes e a busca coletiva por soluções sempre o motivaram. No início da faculdade, chegou a cursar um ano de Programação na PUC-RS, em Porto Alegre, mas percebeu que aquela não era sua vocação e decidiu concentrar seus esforços na engenharia, área com a qual realmente se identificava.

Essa percepção também esteve presente na maneira como Ricardo e sua esposa, Miriam, médica gineco-obstetra, orientaram as filhas. O casal procurou expô-las a cursos, estágios preparatórios e voluntariados para que pudessem fazer escolhas conscientes. Caroline seguiu a Psicologia Clínica, e Isabela está em residência em Obstetrícia e Ginecologia.

Com o passar do tempo, a própria definição de sucesso muda. No começo, o desafio de Ricardo era descobrir qual profissão seguir. Depois, construir uma carreira bem-sucedida na área que escolheu. Hoje, olhando para trás, vê muito aprendizado e muitos sacrifícios, mas também a satisfação de ter construído uma trajetória em um campo que continua lhe despertando interesse.

Se existe um legado que gostaria de deixar às próximas gerações de líderes, ele passa principalmente pela gestão de pessoas. Para Ricardo, é nesse campo que se encontram algumas das maiores satisfações e também das maiores frustrações da vida profissional. O aprendizado acontece quando se desenvolve a capacidade de ouvir com atenção e se resiste à tentação de ter todas as respostas prontas.

O mundo continuará mudando e trazendo desafios. Depois de uma carreira atravessada por diferentes países, culturas, fábricas e equipes, Ricardo acredita que compartilhar conhecimento e experiência com os jovens profissionais que enfrentarão esses desafios é também uma forma de continuar aprendendo.

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