Festival coreano leva Gaho, tradição e mais de 100 mil pessoas ao Bom Retiro
Criado em 2006 para preservar os costumes dos imigrantes, evento cresceu com a onda coreana e hoje reúne gastronomia, artes tradicionais, K-pop, K-drama
O cantor Gaho, conhecido pelas trilhas sonoras de K-dramas como “Itaewon Class”, é a principal atração da 19ª edição do Festival da Cultura Coreana, que começa hoje, dia 15, no Bom Retiro, em São Paulo. Organizado pela Associação Brasileira dos Coreanos, com participação do Centro Cultural Coreano no Brasil e de instituições sul-coreanas, o evento é comandado por Bruno Kim, presidente da associação e um dos nomes que acompanharam de perto seu crescimento: de uma festa voltada principalmente para os imigrantes do bairro a um encontro que passou a receber mais de 100 mil pessoas.
Gaho encerra a programação do palco principal no sábado e volta a se apresentar no domingo, pouco antes do espetáculo de dança que fecha o festival. A presença do cantor traduz também uma mudança no público. Quando o evento surgiu, em 2006, a preocupação era reunir a comunidade e conservar costumes que poderiam se perder entre as gerações mais jovens. Hoje, uma parcela considerável dos visitantes chegou à Coreia pelo K-pop, pelos K-dramas, pelo cinema ou por conteúdos vistos na internet.
A primeira edição recebeu cerca de cinco mil pessoas, em sua maioria moradores e frequentadores do Bom Retiro. Na época, ainda havia no bairro imigrantes coreanos que mal falavam português e mantinham pouco contato fora da própria comunidade. O festival nasceu também dessa necessidade de encontro.
Não havia grandes palcos nem uma estrutura comparável à atual. A festa ocupou ruas do bairro, chegou a ser realizada em uma escola e foi crescendo aos poucos. O interesse dos brasileiros pela cultura coreana também começou a mudar. O sucesso mundial de Psy e a passagem pelo Brasil de grupos como o Super Junior e o BTS despertaram a curiosidade de um público que, até então, pouco conhecia o país.
Bruno Kim participou de boa parte dessa história. Entre 2017 e 2019, como vice-presidente da Associação Brasileira dos Coreanos, esteve envolvido diretamente na organização. Retomou o comando do festival em 2024 e permaneceu à frente das edições de 2025 e 2026. Em 2022 e 2023, depois da interrupção provocada pela pandemia, a organização ficou a cargo de sua mulher, a artista cênica Moon Hee Lee, que também é profissional de dança tradicional coreana e ocupava a vice-presidência da entidade.
Foi também de Bruno a proposta que levou à inclusão do Dia da Cultura Coreana no calendário oficial de São Paulo. A data, 15 de agosto, coincide com o Dia da Libertação Nacional da Coreia, que lembra o fim do domínio colonial japonês, em 1945.
O salto de público começou a ficar evidente em 2017, quando o festival recebeu cerca de 50 mil pessoas. No ano seguinte, veio a primeira atração internacional de K-pop em um show gratuito, o grupo M.O.N.T. Em 2019, dois novos grupos coreanos foram incluídos na programação, que novamente atraiu mais de 50 mil visitantes.
Depois de dois anos sem edição por causa da pandemia, o festival voltou em 2022. Em 2024, o Centro Cultural Coreano no Brasil levou o grupo NTX ao evento. No ano seguinte, o convidado foi o YOUNITE. Agora, é a vez de Gaho.
Nas duas últimas edições, cerca de 100 mil pessoas circularam pelo festival, segundo os organizadores. O tamanho alcançado obrigou a festa a se espalhar por outros espaços do bairro. Desde 2024, o Complexo Cultural Oswald de Andrade também recebe parte das atividades.
Mudar de bairro, porém, não está nos planos. O Bom Retiro foi um dos principais pontos de chegada dos imigrantes coreanos a São Paulo e ainda concentra restaurantes, mercados, igrejas, associações e negócios mantidos por famílias da comunidade.
“Bom Retiro é a nossa casa. A gente quer trazer as pessoas para conhecer a nossa casa, as nossas danças e as nossas tradições”, diz Bruno Kim.
Há uma razão pessoal e política (no sentido mais amplo da palavra) para essa insistência em abrir as portas da comunidade. Bruno Kim conta que coreanos e descendentes ainda ouvem comentários para que “voltem para a Coreia”, mesmo quando nasceram no Brasil:
“A gente faz porque quer que as pessoas nos conheçam. Não queremos que mandem a gente voltar para a Coreia. Qual é o melhor jeito de vencer isso? Fazer com que as pessoas nos conheçam e entendam que fazemos parte da sociedade brasileira.”
Por isso, embora o K-pop tenha papel importante na programação, o festival não se resume ao que se tornou mais conhecido fora da Coreia nos últimos anos. Muitas apresentações são feitas por membros da própria comunidade, que levam ao palco danças, instrumentos, cantos e costumes mantidos pelas famílias desde a chegada ao Brasil.
“Cada cultura tem a sua beleza. Eu sinto que muitas vezes os ocidentais medem as outras culturas pelos olhos da própria cultura. O festival é uma pequena mostra desse nosso universo”, afirma Bruno.
Uma das maiores vitrines dessa herança estará nas barracas de comida. Serão 30, muitas delas comandadas por coreanos e descendentes, com pratos preparados segundo receitas tradicionais. O público encontrará bibimbap, combinação de arroz, legumes, carne e ovo; bulgogi, carne marinada e grelhada; tteokbokki, feito com bolinhos de arroz; kimbap, mandu, japchae e kimchi. Também haverá frango frito coreano, corn dog, doces e bebidas. Os preços variam de R$ 20 a R$ 50.
As artes tradicionais também ocupam espaço importante. Haverá apresentações de gayageum, instrumento coreano de cordas, daegeum, flauta transversal de bambu, e samulnori, gênero de percussão. O programa inclui ainda canto, caligrafia e taekwondo. O grupo Hannuri Yeonhui, da Universidade Nacional de Artes da Coreia, participa dos dois dias. Para quem acompanha a produção pop do país, haverá apresentações de dança de K-pop, entre elas as da escola POSE.
A programação avança por outros pontos do Bom Retiro. No Complexo Cultural Oswald de Andrade será realizada a segunda edição da Feira Cultural Bomre-Dong – Munhwa-ro, com arte, artesanato, literatura e moda. O local também recebe a terceira edição do K-Debate, com conversas sobre os movimentos de independência da Coreia, a chegada da Hallyu (a chamada onda coreana) ao Brasil e a maneira como brasileiros e coreanos aparecem no audiovisual dos dois países.
O festival terá ainda uma feira para quem pretende estudar na Coreia. Kyungbok University, Kyungdong University, Silla University e Sun Moon University apresentarão seus programas de graduação, pós-graduação, intercâmbio e cursos de idioma. O Centro de Educação Coreana em São Paulo dará informações sobre bolsas, admissão e vistos.
No Arquivo Histórico Municipal, uma exposição organizada pela Agência Coreana de Conteúdo Criativo, a KOCCA, apresenta diferentes setores da produção cultural do país, entre eles K-pop, K-dramas, games, animação e moda.
Assim, num mesmo fim de semana, o Bom Retiro reúne a Coreia das famílias que chegaram ao Brasil décadas atrás e a Coreia que conquistou milhões de brasileiros pelas telas e pelos fones de ouvido. Gaho estará no palco, mas ao redor dele estarão receitas preparadas por imigrantes, instrumentos centenários, danças tradicionais, caligrafia e histórias de uma comunidade que ajudou a transformar o próprio bairro.







