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Fernando Schüler Fernando Schüler Por Fernando Schüler

Sobrou para Shakespeare

A cultura woke anda por toda parte. Traduz um tipo de vigilância coletiva, facilitada pela internet

Por Fernando Schüler Atualizado em 17 jun 2022, 16h58 - Publicado em 18 jun 2022, 08h00

O guerreiro woke não dá trégua. Em um dia ele quer cancelar J.K. Rowling e seu Harry Potter, no outro banir o Sítio do Picapau Amarelo das bibliotecas. Ele é essencialmente um ativista. Se alguém acha que a composição de gênero da última novela está errada, ou que devemos limpar nosso vocabulário de uma lista sempre crescente de palavras, ou ainda que aquele youtuber deve ser calado, qual seria o problema? Não vivemos em uma sociedade aberta, onde cada um pode defender o que lhe dá na telha? Muita gente acha que o problema é mais complicado. Um deles é Elon Musk. Recentemente, ele disse que a cultura woke precisa ser combatida. Reclamou da chatice politicamente correta das séries da Netflix e decidiu entrar em campo para combater esse “vírus” que ameaça “destruir nossa civilização”. Musk anda vendo coisas, ou será que ele tem alguma dose de razão?

A cultura woke anda por toda parte. Traduz um tipo de vigilância coletiva, facilitada pela internet. Você assiste à nova versão de Um Príncipe em Nova York e logo vê que as piadas vêm com um discurso embutido; no trabalho, você é alertado sobre o que pode ou não ser dito em uma reunião. Se você trabalha na televisão, então, é bom prestar muita atenção no que vai dizer, sob pena de ser obrigado a passar por um exercício de autoexpiação. Coisas antes banais tornam-se suspeitas. Leio que o novo filme de Tom Cruise é uma perigosa “ode à testosterona”. Li que o Rei Leão era “um infame desenho machista, misógino, elitista e homofóbico”. Tudo pode ser um tanto ridículo, mas suspeito que o maior dano se dará sobre a cultura. Amanda MacGregor escreveu um artigo no School Library Journal dizendo que as obras de Shakespeare são cheias de “ideias problemáticas, com muita misoginia, racismo, homofobia”. E “classismo”, coisa que não via fazia um bom tempo. Na sua visão, diferentemente de Elon Musk, devemos dar um chega pra lá no bardo inglês para salvar a civilização, não o contrário.

Aqui surge um primeiro aspecto definidor da cultura woke: seus ativistas não desejam apenas convencer as pessoas de que estão certos. Seu ponto é obrigar os outros. O ponto não é convencer os professores sobre o machismo de Shakespeare, mas banir seus livros das bibliotecas. O fenômeno é inteiramente político. O modo de obrigar pode variar. Pode ser criando listas de livros proibidos, forçando a demissão de um professor, fazendo abaixo-assinados para vetar certos autores, fazendo campanhas pelo boicote a empresas que não andam na linha. Ou simplesmente usando o poder do Estado. Dias atrás não me surpreendi nem um pouco em ler sobre um projeto de lei visando punir olhares com alguma “conotação sexual”. Fiquei imaginando um juiz julgando uma coisa dessas.

Outro traço da cultura woke é o antipluralismo. Diversidade o.k., mas de um “tipo”, como ouvi em um debate. Ela não envolve, por exemplo, a diversidade no mundo das ideias, das visões que as pessoas têm sobre o mundo, a ética e a estética. Coisas por vezes bastante sutis. Você pode concordar que o machismo é condenável, mas divergir completamente da interpretação de uma obra de arte. Pode concordar com a interpretação, mas divergir inteiramente de seu banimento. Pode divergir do anacronismo, essa estranha tendência de julgar o passado com a régua moral do presente, supondo que exista uma régua desse tipo.

“A cultura woke anda por toda parte. Traduz um tipo de vigilância coletiva”

Tempos atrás li um texto que definia a cultura woke como uma ameaça às democracias liberais. Em especial, a alguns de seus valores fundamentais, associados à tolerância, à compreensão e ao diálogo com os diferentes. Há lógica nisso. Em algum momento, com o fim da Guerra Fria e a mutação econômica da globalização, o militante socialista, o líder “classista”, com sua agenda ligada aos temas econômicos, foi gradativamente perdendo protagonismo para o guerreiro de causas culturais. Causas em torno das quais não há negociação ou acordo em uma sociedade aberta. É viável imaginar acordos sobre uma reforma na economia, no Congresso, mas como imaginar algo nessa mesma linha em relação a formas de viver, o trato com a sexualidade, a estrutura da família, ou a origem da vida na gestação?

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O ingresso desses temas no centro da cena pública jogou sombra sobre uma das grandes promessas da democracia liberal: aquela que dizia que o acordo, na expressão de John Rawls, seria “político, não metafísico”. As pessoas chegariam a um acordo sobre as regras do jogo e princípios básicos de justiça, mas não sobre crenças no terreno da ética ou da estética, incluindo-se aí valores, os modos de vida e as interpretações da história. É exatamente isso que estamos tentando fazer agora. Tentando fazer com que os outros pensem e vivam de uma certa maneira. Isso explica por que a liberdade de expressão voltou ao centro do debate. Transformamos o diferente em “inaceitável”. Lidando com o sagrado, não temos razão para negociar. Melhor calar a “sujeita”, aquilo que dá “nojo”, na expressão que se tornou banal.

A internet, na última década e meia, deu voz aos “imbecis”, como disse recentemente uma ilustre autoridade. Talvez sem querer, ele produziu uma irônica síntese do nosso tempo: de um lado a elite discursiva, dona de uma virtude autoconcedida; de outro, o imbecil. No Brasil, é o evangélico, o apreciador do sertanejo, o sujeito que gosta daqueles quadros coloridos do Romero Britto. Ele também é o “conservador”, em um país onde 58% se dizem contrários ao aborto, que acha o politicamente correto uma xaropada, mas em geral fica calado para não se incomodar.

É precisamente aí que entra o missionário woke. É dele a responsabilidade civilizatória de confrontar essa gente imbecil. Esse “ruído”, por vezes associado a animais, feito de semicidadãos que andam por aí, olhando “para trás”, como escutei de uma acadêmica em um debate recente. É disso tudo que o mundo woke vai nos redimir. Nem que para isso tiver de disciplinar as universidades, a propaganda, as séries de televisão, fazer quem não anda na linha pedir desculpas, proibir Shakespeare ou o desenho do Tom & Jerry, derrubar todas as estátuas duvidosas. Sempre soubemos que a civilização tinha um preço, não é mesmo? Então que ninguém reclame. Quem sabe Elon Musk esteja errado, e seja ele mesmo o vírus. Ele e suas ideias de “liberdade irrestrita”, que no fundo não passa de “liberdade para os imbecis”.

Se for mesmo assim, então vamos nos ajustar. Até porque o preço de remar contra a maré, coisa que o mercado parece já ter percebido, vai ficando cada dia mais alto.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 22 de junho de 2022, edição nº 2794

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