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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Quem se importa com as fronteiras do Brasil?

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 03h18 - Publicado em 11 ago 2014, 18h21

Tema mais debatido em Israel: fronteira.
Tema mais debatido nos EUA: fronteira.
Tema mais debatido no Brasil: besteira.

“Nêsti paíf”, entram armas ilegais, munições, drogas, bandidos – tudo que contribui para os 60 mil homicídios anuais e as tragédias familiares, mas praticamente ninguém dá bola para os quase 17 mil quilômetros de fronteira que o PT há 12 anos deixa abertos. (E sabe-se lá o que vai entrar nos caminhões de bananas importadas do Equador, parceiro do PT no Foro de São Paulo.) Em recente entrevista ao G1, o candidato do PSDB à presidência, Aécio Neves, foi questionado a respeito do tema, ao qual voltou neste domingo, no Canal Livre, da Band.

Aécio vem criticando com razão a “omissão criminosa” do governo Dilma na questão da segurança pública – que eu chamaria de “fomentação” da criminalidade, mas ok -, o que também passa pelo trato das fronteiras. O problema que precisa ser resolvido pelo PSDB quando começar o horário eleitoral gratuito na TV, no entanto, é a sua linguagem excessivamente técnica de gerente de banco, que apela muito menos – ou secundariamente – aos sentimentos e à identificação pessoal do eleitor do que à sua capacidade de compreender e antever a eficácia de medidas burocráticas futuras. Enquanto a oposição não entender que a emoção é a base do voto, de nada valerá apresentar propostas tecnicamente lindas e maravilhosas.

Para o cidadão comum, a solução para ele não ser assaltado no ônibus na volta do trabalho certamente não é a criação de um ministério de segurança pública. Ou o ministério vai entrar no ônibus, tirar a arma ilegal do assaltante e levá-lo em cana? (A propósito: quantos brasileiros compreendem o que são recursos “contingenciados”?) Não nego a importância de mencionar essas medidas, mas elas NUNCA devem ser a prioridade na resposta de um candidato, nem mesmo, talvez, quando as perguntas são precisamente sobre elas. Falar em segurança, mortes, tráfico, armas, drogas é muito pouco também. É preciso exemplificar as situações de medo e desamparo na rotina diária dos brasileiros, explicando suas causas e a forma de combatê-las igualmente através de exemplos práticos e simples.

Faltam 8 semanas para a eleição e ou Aécio aprende a falar mais ao coração do público, ou o seu partido terá de compensar de algum forma esse déficit, se não quiser ser engolido pelo PT – cuja propaganda, ainda que mentirosa, comove as massas há três eleições.

De todo modo, como não é todo dia que alguém toca no assunto das fronteiras no Brasil, transcrevo abaixo as palavras do mediador do G1, Tonico Ferreira, e a resposta completa de Aécio, acrescentando depois trechos de seu discurso na Band e um comentário meu sobre a “mania” do senador de dizer que Dilma é uma “mulher de bem”.

Tonico: A primeira pergunta que chegou para nós é do leitor Fabio dos Santos. Ele diz que as fronteiras são as principais portas para a entrada de entorpecentes e armas ilegais no país. Ele quer saber que medidas o senhor pretende tomar para combater esta prática caso seja eleito.

Aécio: A pergunta é excelente, porque toca num tema que hoje é preocupação crescente de todos os brasileiros, independentemente da região onde vivam, da classe social, que é o clima de insegurança com o aumento da criminalidade. E o tráfico de drogas e o tráfico de armas, ambos são as causas principais do aumento da criminalidade. O Brasil não tem hoje uma política nacional de segurança, que nós vamos estabelecer. Eu farei uma modificação na estrutura do Ministério da Justiça, que, no nosso governo, será o “Ministério da Justiça e Segurança Pública”. Os recursos, aprovados no orçamento, dos fundos setoriais, Fundo Nacional de Segurança, Fundo Peninteciário, não serão contingenciados como ocorre hoje. Para se ter uma ideia, nos últimos três anos, no atual governo da atual presidente, do fundo penintenciário foi investido 10,5% do que foi aprovado; do Fundo Nacional de Segurança, menos de 40% – apenas para demonstrar a pouca atenção que o governo atual vem dando à questão da segurança pública.

VANTVamos promover uma atualização rápida – até porque a discussão já caminha há muito tempo no Congresso Nacional – do Código Penal e do Código de Processo Penal, para diminuirmos essa sensação de impunidade que temos hoje. E o governo federal não vai se omitir, como vem se omitindo hoje. Ele vai coordenar uma ação de segurança pública – de planejamento, de inteligência, de investimentos – junto aos estados federados, em especial em relação às nossas fronteiras. Nós vamos fortalecer a Polícia Federal, ampliando o seu efetivo, e vamos fazer parcerias com as Forças Armadas. Apenas para concluir: eu me lembro que no último ou penúltimo debate da eleição passada de 2010, a presidente da República falou que colocaria nas nossas fronteiras, funcionando, 14 VANTS, aqueles Veículos Aéreos Não Tripulados. Quatro anos se passaram e apenas dois estão em precário funcionamento no Brasil. (…) Na segurança pública, é essa omissão quase criminosa à qual eu tenho me referido.

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Na entrevista à Band, Aécio repetiu suas propostas e críticas à omissão do governo Dilma nas fronteiras, observou que mais jovens são mortos no Brasil do que em todas as guerras do mundo anualmente, e acrescentou de forma um tantinho mais incisiva:

“A droga e a arma, que vêm permitindo o aumento da criminalidade, não são fabricadas no Brasil. São fora do Brasil. E não há uma política de fronteiras. Temos que reequipar a Polícia Federal, ampliar o contingente da PF. A PF, neste ano de 2014, tem o pior, o menor orçamento desde 2008! Há um desprezo absoluto do governo federal na questão da segurança pública. (…) Nós temos hoje, somatório de polícias militares e polícias civis de todos os estados, um contingente em torno de 550 mil homens no Brasil. Cerca de 20 a 25% desses homens não estão nas ruas, não estão nas atividades fins. (…) Ninguém vai ter a solução mágica para, do dia para a noite, ocupar as nossas fronteiras. Mas ampliar os efetivos da PF, [fazer] parcerias com os estados de fronteiras terrestres, envolvermos as Forças Armadas nesse esforço…

Aécio afirmou que os rumos da política externa do governo são puramente ideológicos e deixam de atender, muitas vezes, às necessidades do Brasil. O candidato defendeu uma posição forte para coibir o tráfico:

“Nós temos que ter uma relação mais altiva com os nossos vizinhos produtores de drogas. Essa é uma questão extremamente séria. Obviamente não temos que intervir em outros Estados, mas eu vou dizer de forma muito clara: não há sentido – não vejo, por exemplo – [em] nós financiarmos países que fazem vista grossa para a produção de droga, para a produção de cocaína, como acontece aqui nos nossos vizinhos. Criar condicionalidades para parcerias para financiamentos para investimentos nesses países pode ser uma medida a mais para que nós possamos ver minimamente coibido esse tráfico que hoje acontece de forma absolutamente escancarada com – a verdade é essa – as vistas grossas de alguns governos amigos.” 

Logo após o programa, anotei ainda no Facebook:

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* Recordar é viver: veja no item III deste post o meu artigo de 2010 sobre as fronteiras, “Mandem a gasolina para o Lula”, com o qual estreei no site Mídia Sem Máscara.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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