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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Discussões erradas: Joel Birman e a depressão do copiloto

O psicanalista Joel Birman escreveu em artigo publicado no Estadão de sábado que as conclusões “simplistas” sobre a tragédia da Germanwings “contribuem para aumentar o preconceito contra as pessoas portadoras de alguma forma de perturbação psíquica”. Ele alega que: 1) “Existem múltiplas formas de depressão” e “apenas uma parcela restrita desta conduz ao suicídio”. 2) “É […]

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 01h41 - Publicado em 6 abr 2015, 12h06

Captura de Tela 2015-04-06 às 11.10.54O psicanalista Joel Birman escreveu em artigo publicado no Estadão de sábado que as conclusões “simplistas” sobre a tragédia da Germanwings “contribuem para aumentar o preconceito contra as pessoas portadoras de alguma forma de perturbação psíquica”.

Ele alega que:

1) “Existem múltiplas formas de depressão” e “apenas uma parcela restrita desta conduz ao suicídio”.

2) “É difícil imaginar que a depressão possa conduzir a um comportamento agressivo em relações aos outros, pois os melancólicos dirigem sua crueldade para si próprios”.

3) “Nos demais transtornos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia, o suicídio acontece numa taxa de incidência que não é significativa em relação à que ocorre com a população em geral”.

Birman sentencia então:

“O que se esquece nessas proposições apressadas é que existe um imenso contingente na população que passa por tratamentos psiquiátricos e realiza com eficácia e competência suas práticas profissionais, incluindo a de pilotar aviões.”

Nesse artigo “apressado”, Birman “esqueceu” que:

a) O suicida, ao dirigir a agressão contra si, pode não refletir adequadamente sobre o risco de agredir terceiros.

(Exemplos banais, citados por um leitor: ao pular da janela de um prédio ele pode cair em cima de alguém; ao jogar-se na frente de um veículo em velocidade pode envolver outros em acidente etc.)

b) Pilotar aviões não é uma prática profissional qualquer, pois numerosas vidas ficam nas mãos dos pilotos.

c) Por isso mesmo, existe uma legislação desde 2013 que obriga as companhias a informar às autoridades de tráfego aéreo sobre transtornos psíquicos graves dos pilotos, como uma depressão.

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O jornal Die Welt, um dos mais respeitados da Alemanha, noticiou, menos de 48 horas após o artigo de Birman, que a Lufthansa, proprietária da Germanwings, não fez este comunicado sobre o copiloto Andreas Lubitz, assassino de 149 pessoas.

As autoridades de tráfego aéreo só foram saber dos transtornos três dias depois de ele ter derrubado o avião.

Mais ainda: a Agência Europeia de Segurança Aérea, por meio da Comissão Europeia, havia advertido em vão os alemães de que eles estavam negligenciando os controles médicos dos pilotos.

Birman terminara assim o seu artigo:

“Só podemos saber e depreender efetivamente o que alguém é capaz de fazer se o sujeito nos ‘fala’ de suas intenções, não existindo então, infelizmente, nenhuma possibilidade de que a psiquiatria possa prever atos trágicos como esse. Na época da gestão de riscos é preciso dizer, alto e bom som, que as normas não conseguem controlar nem o desejo nem o que existe de imprevisível no sujeito.”

Na época da gestão de riscos, é preciso dizer, alto e bom som, que:

a) Certas doenças (como a depressão grave) são incompatíveis com certas profissões (como a de piloto de aeronaves), ainda que nem sempre a pilotagem vá resultar em tragédias e que a depressão não explique – muito menos justifique – um crime como o citado.

b) O nome disso é medida de segurança contra a morte de inocentes, seja ela provocada por ação intencional ou por acidente. Quem chama de “preconceito”, de modo irrestrito, é cúmplice moral de tragédias potenciais.

c) Joel Birman tem de tomar mais cuidado para que sua defesa dos limites da psiquiatria não resulte na defesa de uma tolerância com níveis evitáveis de risco de morte.

d) A psiquiatria não pode prever atos trágicos como o da Germanwings, mas pode diagnosticar a saúde mental de pilotos para que as companhias e as autoridades de tráfego aéreo saibam quais deles apresentam quadros incompatíveis com o exercício de suas funções.

e) Lufthansa e Andreas Lubitz foram cúmplices no ato que matou 150 pessoas.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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