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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Como colar sua imagem à dos grandes (ou falsos) heróis

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 04h51 - Publicado em 7 dez 2013, 15h53

[Detalhe: Onde eu havia escrito “a absolvição de Zimmerman pela Corte Suprema“, o correto obviamente é “pelo júri“, conforme já corrigido. O bom de ser tão amado pelos adversários é que, às vezes, eles nos avisam de uma vírgula fora do lugar ou de qualquer outra distração banal, na esperança de invalidar assim o texto inteiro. Grato, crianças.]
 
Se alguma coisa se confirmou com a morte de Nelson Mandela, foi que ninguém no mundo tira tanta casquinha de defunto quanto Barack Obama.
 
O homem é o rei da auto-homenagem de luto. Perto do discurso dele, o de Dilma Rousseff é uma obra-prima do decoro. Todos os líderes mundiais, inclusive Jacob Zuma, falaram em nome dos cidadãos que representam, usando, se tanto, a primeira pessoa do plural (“nós”). Nem Frederik Willem de Klerk, o último presidente sul-africano branco, que libertou Mandela em 1990 após 27 anos de prisão e dividiu com ele o Nobel da Paz em 1993, desandou a falar de si no momento fúnebre. Só Obama. Só ele para se referir mais de dez vezes à sua “Nobel” pessoa.
 
Em 27 de julho de 2004, para colar sua imagem à de Abraham Lincoln, o então desconhecido senador de Illinois abriu o discurso que catapultou sua carreira dizendo que vinha do mesmo estado do venerado presidente que aboliu a escravidão. Agora, para colar à de Mandela, afirmou que a primeira coisa que fez na vida relacionada à política foi um protesto contra o apartheid. Se você não sabia quais foram as duas grandes contribuições de Obama para uma sociedade “pós-racial”, anote aí: ele veio do Illinois e participou de um protesto contra o apartheid.
 
Mesmo citando tamanhas proezas, não basta ao presidente – e a seus estrategistas – colar sua imagem a ícones da luta pela igualdade só pela força do discurso. Estamos na era das redes sociais. Nada como homenagear os outros com uma foto de si mesmo.
 
Captura de tela 2013-12-07 às 15.17.06
Em 1º de dezembro, para celebrar mais um aniversário do dia em que a negra Rosa Parks se recusou a ceder lugar a um passageiro branco na seção do ônibus então reservada aos brancos, Obama tuitou: “Em um momento único há exatos 58 anos, Rosa Parks ajudou a mudar este país.” Na foto do tuíte, o ônibus, hoje peça de museu, traz (quem?) Obama no assento de Parks, olhando pela janela “pensativo” (como quem pensa se a foto vai ficar boa). Quase uma semana depois, a Casa Branca tuíta: “Descanse em paz, Nelson Mandela”, com uma citação de (quem?) Obama e uma foto (de quem?) dele mesmo na cela da prisão na ilha de Robben. Na falta de uma biografia própria, Obama dá sempre um jeito de se apropriar das alheias.
 
obama-bus
Captura de tela 2013-12-07 às 15.02.42
Foi quase assim também, mas sem foto, com Trayvon Martin, o jovem negro morto a tiros em um caso confuso após surrar o vigilante hispânico Georg Zimmerman, aquele que a obamídia tentou tachar de branco para investir na fraude de crime de racismo. Quando comentou a absolvição de Zimmerman pelo júri, Obama disse que, há 35 anos, ele poderia ter sido Trayvon (uma homenagem que os negros assassinos de brancos nunca receberam do presidente). Se colarmos as imagens de todos os heróis aos quais ele se compara, agora temos não um ex-líder comunitário, nem um político tipo os de Washington, mas Barack Lincoln Martin Parks Mandela Obama Jr., quiçá o maior símbolo de todos os tempos da luta pelos direitos civis.
 
As semelhanças
É um método eficaz, o da colagem. Quando Obama diz “Eu sou um dos milhões que se inspiraram na vida de Nelson Mandela”, “não consigo imaginar a minha própria vida sem o exemplo ” dele e “enquanto eu viver, farei o que puder para aprender com ele”, fica até difícil duvidar de suas palavras. As semelhanças básicas são inegáveis:
 
1) Ambos sempre se deram muito bem com comunistas:
 
– Obama, com o padrinho Bill Ayers [ver meu artigo “A verdadeira insanidade“] e com o mentor e formador do seu grupo de ativistas, Saul Alinsky, autor do singelo “Regras para radicais”;
 
– Mandela (que, como Ayers, começou sua carreira como terrorista comunista colocando bombas em lugares públicos, com a diferença de que as do seu grupo mataram uma porção de civis), com seu “companheiro de armas” Fidel Castro, a quem – como a Arafat – jamais deu as costas.
 
Mandela_FIdel
2) Ambos sempre lutaram a favor do aborto:
 
– Obama, votando, quando senador, contra um projeto de lei que pretendia garantir o direito à vida dos bebês sobreviventes à prática, e hoje repassando alegremente U$S 542 milhões por ano à maior organização abortista dos EUA;
 
– Mandela (para quem “As mulheres têm o direito de decidir o que querem fazer com seus corpos”, desde que essas mulheres não sejam fetos), tornando a legislação sul-africana uma das mais liberais do mundo, garantindo o acesso ao procedimento até para menores de idade, e dispensando o médico em casos de até 12 semanas de gestação, quando basta uma parteira – medidas essas que aumentaram exponencialmente não só o número de abortos na África do Sul, mas também, ao contrário do que prometiam os abortistas, o de mortes maternas.
 
3) Ambos sempre tiveram a mídia internacional ao seu lado para ocultar – e fazer parecer um fanático quem expõe – esses e outros “detalhes”, como por exemplo:
 
– A falsidade dos documentos de Obama;
 
– O acobertamento de Mandela da exploração do trabalho escravo nas minas de diamante.
 
O problema são as diferenças.
 
Para um explorador político do ódio racial como Barack “Martin” se igualar ao herói conciliador que se absteve do revanchismo em nome da paz como o Mandela famoso – lapidado como um diamante pelo magnata (abortista, aliás) David Rockfeller -, só mesmo caprichando na foto. A frase “O dia em que ele foi libertado da prisão me deu um senso do que os seres humanos são capazes de fazer quando são guiados por esperanças” – lema da eterna campanha “Hope and change” de Obama – “e não por medos” – aquilo que ele precisa remover das mentes sãs para fazer avançar suas mudanças – também ajuda na hora de tirar uma casquinha.
 
Em matéria de autopromoção, ninguém é páreo para o presidente. Se Obama fosse brasileiro, tuitaria no Dia da Consciência Negra uma foto sua de chapéu e barrete no quilombo dos Palmares, em homenagem a Zumbi. Ao Zumbi lapidado, claro, não aquele que sequestrava mulheres, mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que realizassem trabalhos forçados, e executava os que quisessem fugir do quilombo. Esse não fica bem no tuíte.
 
A África do Sul que Mandela e seu partido legaram, como resumiu David Horowitz, é hoje “a capital de assassinatos do mundo, um país onde uma mulher é estuprada a cada 30 segundos, muitas vezes por portadores de HIV que ficam impunes, e onde os brancos são tudo menos os cidadãos de um país democrático que honra os princípios de igualdade e liberdade”. Ninguém sabe ao certo ainda o que restará dos EUA após a epopeia de Barack Lincoln Martin Parks Mandela Obama dos Palmares Jr. Mas uma coisa é certa:
 
Ainda ouviremos muito falar dele… por ele mesmo.
 
Felipe Moura Brasilhttp://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil

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