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Festival de Cannes, o evento que reúne ricaços para… rir do capitalismo

Com sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes, o sueco Ruben Östlund atesta seu poder de satirizar a vida daqueles que o assistem

Por Jennifer Queen, de Cannes Atualizado em 30 Maio 2022, 15h22 - Publicado em 30 Maio 2022, 15h01

Capitão de um cruzeiro de luxo, Thomás (Woody Harrelson) se autodenomina um comunista americano. Durante um jantar regado a ostras, polvo e caviar, ele discute com o oligarca Dmitri (Zlatko Buric), um capitalista russo. Começa um embate com todas as citações ocidentais pela defesa de um e de outro regime. “Os capitalistas vão nos vender as cordas com as quais vamos enforcá-los”, diz Thomás, citando a frase atribuída a Vladimir Lênin (1870-1924). Em meio à embriaguez de seu capitão, o navio fica à mercê de um ataque de piratas. Quem sobra vai parar numa ilha aparentemente deserta e sobrevive sob uma nova hierarquia social — que inverte de forma abrupta o sentido da frase “manda quem pode”. A cena apoteótica marca o filme Triangle of Sadness (Triângulo da Tristeza, em tradução direta), do diretor sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes neste fim de semana. Essa é a segunda Palma do cineasta em apenas cinco anos – ele levou em 2017 com o ótimo The Square: A Arte da Discórdia, numa sátira ao abastado mundo do comércio de arte.

Provocativo, Östlund desafia o status quo da polarização que dividiu grandes países do mundo, entre eles o Brasil: da direita à esquerda, são os representantes do 1% dos mais ricos da pirâmide social que mandam e desmandam, enquanto alimentam hábitos e frivolidades vergonhosos. “Querido, parece uma das nossas, não?”, diz uma das mulheres no barco, em meio ao ataque dos piratas, quando vê no chão uma granada – ela e o marido são comerciantes de armas. O sucesso de Östlund em Cannes encosta numa contradição do festival. Assim como outros vencedores recentes, à exemplo do ótimo Parasita, de Bong Joon-ho, o evento que é reduto do glamour e da riqueza, sediado por uma das cidades mais luxuosas do mundo, gosta  de rir de si mesmo — e do público para quem ele é moldado.

Woody Harrelson em 'Triangle of Sadness'
Woody Harrelson em ‘Triangle of Sadness’ //Divulgação

A hipocrisia, porém, não diminui a qualidade desses premiados. Triangle foi ovacionado por longos oito minutos no Grand Théâtre Lumière, o cinema de gala de Cannes. Na trama central, um casal de modelos, formado pela influenciadora Yoyo (Charlbi Dean) e Carl (Harris Dickinson), viaja no cruzeiro enquanto discutem sobre dinheiro e os papéis impostos pela sociedade para cada um deles: ela vem ganhando mais dinheiro que o rapaz, enquanto ele envelhece no “triângulo da tristeza”, aquela parte da testa que mostra as emoções. Östlund afirmou que queria fazer uma sátira ao mundo da moda, do qual sua esposa faz parte. “A beleza pode ser muito atraente, mas também nos dá medo”. O filme vai além desse universo.

O mal-estar da turbulência é filmado em todas as suas cores, fluidos e desarranjos corporais, lembrando o clássico La Grande Bouffe (A Comilança), do italiano Marco Ferreri, lançado em 1973. O personagem a representar a riqueza não é a modelo-influenciadora, mas o oligarca Dmitri. Uma de suas mulheres submete toda a equipe do navio a uma “tarde de descanso”, em que eles são obrigados a tomar um banho de piscina ou mar. O close-up na pele bronzeada e nos olhos verdes de uma das meninas da equipe diz tudo: embora não queira esse descanso forçado, não pode dizer não a um cliente. Depois do naufrágio, apenas a faxineira filipina sabe pescar, limpar e cozinhar um peixe, submetendo os outros a uma ditadura especial comandada por ela. Todas as noites, a mulher recebe Carl em seu “barco do amor”, dando a ele em troca um pacote de Pretzels – o prazer forçado dos riquíssimos ganha então nuances mais básicas.

Com a segunda palma, Östlund disse que agora se sentia parte do “establishment” do cinema. Sobre novos projetos, falou sobre um voo de 10 horas em que todo o sistema de entretenimento do avião deixa de funcionar. Perguntado onde ambientaria a nova trama – depois de uma galeria de arte e de um cruzeiro de luxo – disse que ainda não sabia. “Talvez seja um voo para o Festival de Cannes.”

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