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Por que tem fascista na Itália, mas não tem nazista na Alemanha?

Vestir camiseta de Mussolini não é problema na Itália, mas fazer a saudação nazista na Alemanha pode dar três anos de prisão

Por Duda Teixeira 23 fev 2018, 16h39

Na cidade italiana de Predappio, de apenas 6500 habitantes, cerca de 50 000 pessoas visitam todos os anos o túmulo de Benito Mussolini para homenagear o criador do fascismo.

Seus admiradores usam camisetas com a imagem de Mussolini e compram lembrancinhas com slogans fascistas. Também fazem a saudação com o braço erguido em praça pública.

Na Alemanha, imagens do tirano Adolf Hitler ou da suástica só são permitidas em exposições e documentários com o objetivo de mostrar as atrocidades do nazismo. Fazer a saudação “Heil Hitler” pode dar três anos de prisão. Frequentemente, turistas desavisados pagam multa para escapar da cadeia por fazer o gesto nazista na frente do Parlamento, o Reichstag, em Berlim.

Não existe peregrinação ao túmulo de Hitler porque suas cinzas foram jogadas ao vento pelos russos em um lugar não revelado.

Os dois países europeus começaram a olhar para as suas raízes autoritárias de maneiras distintas logo depois da II Guerra Mundial. Na Alemanha dominada pelos Aliados, todas as referências a Hitler e ao nazismo foram apagadas. De 1941 a 1946, os Tribunais de Nuremberg julgaram e condenaram os envolvidos em crimes contra a humanidade. Depois da divisão do país em dois, os deputados da Alemanha Ocidental aprovaram leis banindo esses símbolos, a saudação e a negação do Holocausto.

Na Itália, duas leis, a Legge Scelba de 1952 e a Legge Mancino, de 1993, foram criadas com objetivo semelhante. Mas elas só banem esse tipo de comportamento se seus autores estiverem tentando reorganizar o Partido Fascista ou incitando o ódio. Com isso, os italianos podem se vangloriar do passado fascista desde que não falem em recriar o partido de Mussolini ou ataquem diretamente as minorias.

Há várias razões para explicar essa disparidade na abordagem. Após a II Guerra Mundial, a Itália tinha o Partido Comunista mais forte do Ocidente. Os grupos fascistas, então, mostraram-se úteis aos que queriam conter o avanço da esquerda. “Os fascistas foram usados como um contrapeso aos comunistas pelos que comandavam a repressão estatal. Com isso, eles acabaram sendo poupados”, diz o historiador italiano Matteo Albanese, professor da Universidade de Lisboa e coautor do livro Transnational Fascism in the Twentieth Century (Bloomsbury).

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A rixa entre comunistas e fascistas se estendeu por toda a segunda metade do século XX na Itália. Mas, depois de 1989, ela se arrefeceu. Com a queda do Muro de Berlim, o Partido Comunista Italiano se reformulou, juntou-se com outras legendas e adotou o nome Partido Democrático. Intelectuais animados com o fim da Guerra Fria passaram a menosprezar as rusgas italianas em nome da reconciliação nacional. A moderação levou a um revisionismo histórico, que passou a valorizar supostas coisas boas do fascismo. O ex-premiê Silvio Berlusconi chegou até a dizer que o fascismo era uma “ditadura benigna”. “O processo de revisionismo histórico tem sido lento e hoje, infelizmente, mesmo a imprensa passou a aceitar a ideia de um fascismo inofensivo”, diz o historiador italiano Andrea Mammone, da Universidade de Londres.

 

 

Nos últimos anos, projetos de lei feitos por congressistas de esquerda para punir a propaganda fascista com prisão esbarraram nos deputados que dizem temer uma ameaça à liberdade de expressão. Nesse ponto, a Itália se assemelha aos Estados Unidos, onde os cidadãos estão protegidos pela Primeira Emenda da Constituição e podem ostentar livremente imagens dos tiranos fascistas ou da suástica.

O uso dos fascistas para atacar os comunistas, o enfraquecimento do antifascismo depois dos anos 1990 e a defesa irrestrita da liberdade de expressão fazem com que hoje seja muito mais fácil avistar um fascista na Itália do que um nazista na Alemanha.

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