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Dora Kramer

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Lorota não tem ideologia

Lula e Bolsonaro mentem na aposta do embate entre direita e esquerda

Por Dora Kramer Atualizado em 4 jun 2024, 17h38 - Publicado em 17 ago 2018, 07h00

Por motivos diferentes (ou não), Luiz Inácio da Silva e Jair Bolsonaro sonham com a mesma coisa: um enfrentamento entre o PT e o candidato do autoritarismo à deriva no segundo turno das eleições. Ambos têm a certeza de que o embate final entre extremados (vejam, não disse extremos) seria um caminho certo para a vitória, pois tanto um quanto o outro jogam com o receio do eleitorado de que o oponente seja o dono da chave da porta do abismo.

Trata-se do típico caso em que se aposta no medo do eleitorado de errar em detrimento da vontade das pessoas de acertar na escolha, no caso, do presidente. Os dois investem na divisão entre esquerda e direita. Ocorre, porém, que ou bem concordamos que os partidos brasileiros carecem de representação doutrinária e nessa toada se comporta o eleitorado, ou vamos de repente embarcar na fantasia de uma sociedade que pauta seu voto pela ideologia. São assertivas excludentes e não cabem no mesmo espaço.

Políticos de longa e larga experiência que são, Lula e Bolsonaro sabem perfeitamente que o corte ideológico alcança apenas uma minoria do universo de mais de 147 milhões de eleitores brasileiros. Daí, a opção pelo jogo nesse campo é artificial, não encontra correspondência sustentável na realidade da coletividade. Trata-se, portanto, de uma camuflagem. Nessa seara, os dois têm apresentado uma produção considerável de versões fantasiosas, desde sempre conhecidas como mentiras, hoje chamadas de fake news.

O uso de lorotas na política não é uma novidade nem obedece a ideologias. Serve direita, esquerda, centro e nenhuma das anteriores com a mesma falta de pudor. Não significa que devemos aceitá-­las como regras válidas. Antes, convém apontá-las a fim de que não percamos a clareza e, se possível, contribuamos para a dissipação da névoa da enganação.

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Bolsonaro e Lula não são os únicos Mandrakes em cartaz. Concentro o foco em Lula e Bolsonaro porque, além de mais bem posicionados nas pesquisas, são os mais ousados no exercício da trucagem, cujo uso está proibido no horário eleitoral.

Nos demais espaços é prática liberada. Daí o PT não se inibir de insistir na fantasia de que o nome de Lula estará na urna. A ponto de Fernando Haddad ter dito dias atrás ao jornal O Globo que o ex-­presidente “rodará o país procurando ampliar o leque de alianças na direção de quem concordar com o plano de governo dele”. Rodar como, na cela? Sobre o plano de governo, o nome da coligação “O povo feliz de novo” diz tudo, plantando a ilusão de que o voto no PT levaria o Brasil de volta automaticamente a tempos de prosperidade. Bolsonaro não faz por menos: promete bolsa-família para todos, armamentos a rodo, superministério da Economia ao molde do governo Collor e restauração da ordem e do progresso por obra da volta dos militares ao comando da nação. Só não conta a seus potenciais eleitores que as Forças Armadas, vacinadas por uma fria pela qual ainda pagam alto preço, estão muito pouco ou quase nada interessadas em entrar numa fria maior ainda.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

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