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Latifúndio improdutivo

No centro, onde cabem quase todos, ninguém se encaixou ainda

Por Dora Kramer Atualizado em 4 jun 2024, 17h40 - Publicado em 12 jan 2018, 06h00

Nada politicamente maior nem por ora eleitoralmente menor que o chamado centro tão celebrado por onze entre dez políticos como a solução para as próximas eleições presidenciais. A julgar pelas pesquisas, só os pontos extremos estariam representados como prediletos: Luiz Inácio da Silva numa ponta, Jair Bolsonaro na outra.

É cedo e sobretudo imprudente comprar tais mercadorias pelo valor de face, dado o caráter farsista de ambas, a começar pela classificação de esquerda e direita. Os dois transitam muito à vontade entre campos políticos divergentes e/ou convergentes, a depender das circunstâncias, o que já de início anula a validade de qualificações ideológicas.

Bolsonaro e Lula já foram, por exemplo, firmemente favoráveis à submissão da economia aos ditames do Estado e da mesma forma mudaram de opinião a fim de moldá-la às conveniências eleitorais de ocasião. Na atual situação, cada qual representa, no sentido teatral e histriônico do termo, o radicalismo ao gosto destes tempos de boçalidades via internet.

Sobra, portanto, o dito centro. Um vasto terreno à espera de habitantes competitivos. O maior problema dos que já frequentam a área não é o desempenho pífio nas consultas prévias à opinião do público. Juntos, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e Michel Temer não chegam a 10%. A questão não é essa, pois tempo há para a conquista de eleitores.

O dado fundamental foi apontado por Fernando Henrique Cardoso ao jornal O Estado de S. Paulo no início do mês. Da entrevista, o mundo político deu muita atenção ao acessório (a óbvia constatação de que Alckmin precisa provar-se eleitoralmente viável para consolidar a candidatura), deixando de lado a parte essencial da análise do ex-presidente, quando ele fala sobre a qualidade da mensagem a ser transmitida à sociedade.

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“É preciso que alguém toque nas cordas sensíveis à população”, alertou FH, lembrando que a agenda está aí para ser enfrentada e os temas são as tradicionais carências na educação, nos transportes, na saúde pública, na segurança, enfim, naquilo em que o Estado brasileiro falha com o cidadão de maneira escandalosa. À lista faltou acrescentar a conduta dos governantes no trato da coisa pública, item que inclui a corrupção, agora em destaque no rol de preocupações do eleitorado.

Mas se a pauta não é mistério, Fernando Henrique lembra, com razão, que nenhum partido ou candidato encontrou uma maneira eficiente de transmitir a mensagem. Donde a maioria (sim, Lula e Bolsonaro não representam o grosso dos votos) segue órfã. Entre os nomes citados como postulantes à conquista do manancial ainda à disposição, não se ouve de nenhum deles algo parecido com talento para abrir canal de comunicação consistente, estabelecer diálogo convincente e criar identificação de modo a conquistar a confiança da população.

É o que FH chamou de “tocar nas cordas sensíveis” do brasileiro: preocupar-se mais com a união nacional do que em formar coligações partidárias imensas e amorfas, verdadeiros latifúndios improdutivos no tocante às demandas do eleitorado.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2018, edição nº 2565

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