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Direito e Economia: sob as lentes de Coase

Por Por Luciana Yeung e Paulo Furquim de Azevedo Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Análises com o rigor e o método acadêmicos, mas com uma linguagem acessível para todos, sem os jargões e as firulas do texto acadêmico

Uma brasileira na fronteira da Ciência Econômica

E o evento internacional de Teoria dos Jogos, com seis ganhadores do Prêmio Nobel, que ela – Marilda Sotomayor – ajudou a trazer ao Brasil

Por Luciana Yeung 19 ago 2026, 12h36 | Atualizado em 19 ago 2026, 12h40
Uma brasileira na fronteira da Ciência Econômica Priorizar nos meus resultados Google

É difícil superestimar a importância das contribuições da teoria dos jogos para a ciência econômica e para a compreensão das interações humanas.

Apesar do nome, como já foi dito muitas vezes, a teoria dos jogos tem muito pouco de “jogo”. Sua origem moderna remonta ao trabalho do matemático John von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, que, em 1944, publicaram Theory of Games and Economic Behavior. Poucos anos depois, outro matemático, John Nash, daria uma contribuição decisiva à teoria ao formular o conceito de equilíbrio que hoje leva seu nome. Nash receberia o Prêmio Nobel de Economia em 1994.

A ideia fundamental é relativamente simples. Em inúmeras situações da vida, o resultado de uma decisão depende não apenas daquilo que fazemos, mas também daquilo que outras pessoas fazem. E, ao decidir, tentamos antecipar o comportamento dos demais — que, por sua vez, estão tentando antecipar o nosso.

Uma empresa define seu preço levando em consideração o preço que acredita que sua concorrente cobrará. Um país aumenta ou não uma tarifa comercial imaginando como o outro país reagirá. Duas partes decidem se entram em acordo considerando o que esperam obter caso levem a disputa ao Judiciário. São interações estratégicas, e a grande contribuição da teoria dos jogos foi criar uma linguagem formal para analisá-las.

O famoso equilíbrio de Nash descreve uma situação na qual, dadas as estratégias escolhidas pelos demais, nenhum participante tem incentivo para mudar unilateralmente a sua. E aqui está uma das grandes sutilezas da teoria: um equilíbrio não precisa ser o melhor resultado possível para todos. Pessoas perfeitamente racionais, agindo de maneira individualmente coerente, podem terminar coletivamente em situações ruins. O célebre Dilema dos Prisioneiros é a ilustração mais conhecida desse fenômeno.

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A Economia, sendo uma ciência que estuda o comportamento humano, não demorou a incorporar essa extraordinária ferramenta. Hoje, muitos chegam a imaginar a teoria dos jogos como uma teoria eminentemente econômica. Mas sua elegante formulação matemática não deixa enganar: trata-se de uma ferramenta que a Economia tomou emprestada da Matemática e transformou em uma de suas principais linguagens analíticas. E, ao contrário do senso comum, modelos matemáticos sofisticados frequentemente têm poucos números — ou nenhum. Têm letras romanas e gregas, hipóteses, relações e, sobretudo, lógica.

Hoje, qualquer boa formação básica em Economia passa pela teoria dos jogos. Ela aparece quando estudamos oligopólios e queremos entender como empresas concorrentes definem preços; quando analisamos leilões; quando investigamos por que cartéis se formam — e por que podem ser difíceis de sustentar; ou quando estudamos negociações entre empresas, trabalhadores ou países.

Para quem trabalha com Análise Econômica do Direito, a conexão é igualmente poderosa. Contratos podem ser compreendidos como mecanismos destinados a organizar uma interação estratégica que se estende no tempo. As partes decidem quanto investir na relação, quais informações revelar, quando cooperar, quando renegociar e, eventualmente, quando romper o acordo. Uma cláusula contratual não apenas determina o que acontecerá juridicamente: ela modifica os incentivos das partes antes mesmo que qualquer conflito ocorra.

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O mesmo acontece no processo judicial. Autor e réu decidem se propõem acordo, quanto oferecem, quanto gastam com a disputa e até onde estão dispostos a recorrer levando em consideração aquilo que acreditam que a outra parte fará. Custas processuais, honorários, regras de sucumbência e probabilidades de vitória alteram esses cálculos e, portanto, podem modificar tanto a quantidade de processos ajuizados quanto a probabilidade de acordo.

A teoria dos jogos ajuda, assim, a compreender uma ideia central da Análise Econômica do Direito: mudar uma regra jurídica pode produzir consequências muito maiores do que aquelas imediatamente visíveis. Quando a regra muda, um jogador altera seu comportamento; os demais reagem; e essa reação pode novamente modificar a estratégia do primeiro. O Direito muda as regras do jogo, mas os jogadores não permanecem imóveis.

Tudo isso ajuda a dimensionar a importância de um evento que ocorreu quase silenciosamente em São Paulo no começo deste mês. Durante oito dias, a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo recebeu o IV International Workshop on Game Theory and Economic Applications (IV IWGTEA).

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“Workshop”, aliás, é uma palavra modesta para o que aconteceu por ali. Foram mais de 300 participantes, entre professores, pesquisadores e estudantes, em uma programação de minicursos, sessões de trabalhos e conferências dedicada tanto aos fundamentos quanto às fronteiras contemporâneas da teoria dos jogos.

Mais impressionante é a lista de convidados. Nada menos que seis vencedores do Prêmio Nobel de Economia participaram da programação: Robert Aumann, Eric Maskin, Roger Myerson, Alvin Roth, Robert Wilson e Paul Milgrom. Três deles — Milgrom, Myerson e Roth — estiveram presencialmente na USP; os demais participaram remotamente.

Somavam-se a eles pesquisadores de algumas das principais universidades e centros de pesquisa do mundo. Durante uma semana, professores e estudantes de dezenas de diferentes países (indianos, chineses, americanos, latino-americanos, europeus do leste e do oeste) circularam pelos corredores da FEA discutindo equilíbrio, informação, cooperação, leilões, desenho de mercados e matching. Pode ter passado despercebido fora do ambiente acadêmico, mas é um acontecimento digno de nota: por alguns dias, o Brasil esteve no centro do circuito internacional de uma das áreas mais sofisticadas da ciência econômica.

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E o fato de um evento desse porte ter chegado à sua quarta edição no Brasil tem, em grande medida, nome e sobrenome: Marilda Sotomayor.

Professora emérita da USP e professora afiliada da EPGE/FGV, a professora Marilda tem formação original em Matemática e construiu uma carreira acadêmica de enorme projeção internacional. Tornou-se uma das principais especialistas mundiais em matching, área da teoria dos jogos dedicada a estudar como realizar alocações entre dois lados de um mercado quando preços, sozinhos, não são suficientes para produzir bons resultados.

Pense, por exemplo, na alocação de médicos a programas de residência, estudantes a escolas ou doadores de rins a pacientes compatíveis. Nesses mercados, não basta perguntar “quanto custa?”. É preciso encontrar combinações que respeitem preferências e sejam suficientemente estáveis para que os participantes não tenham incentivos para desfazê-las.

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Foi nesse campo que Marilda construiu parte fundamental de sua carreira. Trabalhou com David Gale, um dos pioneiros da teoria de matching, e desenvolveu uma extensa colaboração com Alvin Roth. Em 1990, Roth e Sotomayor publicaram Two-Sided Matching: A Study in Game-Theoretic Modeling and Analysis, obra que se tornou referência internacional na área e recebeu o prestigioso Lanchester Prize.

A conexão com a história do Nobel é inevitável. Em 2012, o Prêmio Nobel de Economia foi concedido a Alvin Roth e Lloyd Shapley “pela teoria das alocações estáveis e pela prática do desenho de mercados”. O próprio Roth, em seu relato autobiográfico publicado pelo Nobel, destaca sua colaboração com Marilda Sotomayor e a importância da monografia escrita pelos dois para a consolidação daquele campo de pesquisa.

O Nobel premia contribuições específicas e no máximo três pessoas, e suas deliberações permanecem sob sigilo por décadas. Não cabe, portanto, especular sobre quem esteve ou deixou de estar perto de recebê-lo. Mas é possível afirmar algo mais importante: uma pesquisadora brasileira esteve intelectualmente no centro de uma linha de pesquisa posteriormente reconhecida pelo mais importante prêmio da ciência econômica.

Há, portanto, algo particularmente simbólico em ver Alvin Roth, ao lado de tantos outros gigantes da teoria dos jogos, novamente na USP, em um workshop cuja realização está profundamente associada ao trabalho de Marilda Sotomayor.

Marilda, felizmente, está longe de ser um caso isolado. O Brasil construiu uma respeitável tradição de economistas matemáticos e pesquisadores de teoria dos jogos, vários deles com carreiras de grande projeção internacional. A própria programação do workshop, reunindo brasileiros e estrangeiros nas mesmas discussões de fronteira, é uma demonstração dessa tradição.

Para um país que frequentemente – e infelizmente com razão – discute suas deficiências educacionais e científicas, também vale reconhecer quando acontece justamente o contrário. Durante oito dias, em uma universidade brasileira, alguns dos maiores nomes vivos da ciência econômica estiveram ensinando, discutindo e produzindo conhecimento ao lado de pesquisadores e estudantes brasileiros.

A teoria dos jogos nos ensinou que resultados dependem não apenas das escolhas individuais, mas das instituições, dos incentivos e das interações que construímos. Marilda Sotomayor e tantos outros brasileiros que escolheram dedicar suas vidas à ciência ajudaram a construir, por aqui, um ambiente em que excelência gera excelência.

E nos permitem sonhar, concretamente, com o dia em que veremos um pesquisador brasileiro receber o Prêmio Nobel de Economia.

Luciana Yeung é Professora Associada e Coordenadora do Insper Center for Law & Economics (InCLE). Membro-fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE). Pesquisadora-visitante no Law and Economics Foundation na Universidade de St Gällen (Suíça) e no Institute of Law and Economics, da Universidade de Hamburgo (Alemanha). Autora de “O Judiciário Brasileiro – uma análise empírica e econômica”, “Curso de Análise Econômica do Direito” (juntamente com Bradson Camelo), além de dezenas de outras publicações. Foi agraciada em Junho de 2026 com a “Medalha ALACDE” por sua difusão e divulgação do conhecimento científico em Direito & Economia na América Latina.  

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