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Por que ninguém fala do tarifaço da China que afeta o Brasil

Taxa chinesa de 55% sobre importações acima de cota para carnes força dezenas de frigoríficos a paralisar produção e dar férias coletivas

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 jul 2026, 11h54 | Atualizado em 14 jul 2026, 11h29
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Sem alarde, sem anúncios bombásticos como aqueles que o presidente americano Donald Trump costuma fazer com seus tarifaços, a China implantou no final do ano passado uma medida protecionista que agora está causando grande impacto em empresas brasileiras e em seus empregados: trata-se da cobrança de 55% de taxa de importação adicional sobre carnes estrangeiras que ultrapassem um determinado limite anual.

A medida, tecnicamente classificada como uma salvaguarda comercial, foi anunciada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Comércio da China e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. Seu gatilho foi um pedido formal da Associação Chinesa de Agricultura Animal, que argumentou que o crescimento das importações vinha prejudicando os pecuaristas locais. A lógica, portanto, é a mesma dos protecionismos americanos: defender produtores domésticos da concorrência estrangeira. A diferença é que Pequim preferiu o pragmatismo discreto ao espetáculo.

Abaixo do previsto

O mecanismo funciona da seguinte maneira: para o Brasil, a cota isenta de sobretaxa foi fixada em 1,106 milhão de toneladas anuais. Dentro desse volume, incide apenas a tarifa regular de 12%. Acima do limite, os 55% adicionais são cobrados sobre o excedente, elevando a alíquota total a 67% — patamar que o setor de carnes brasileiro classifica como impraticável para a maioria dos cortes exportados. O problema é que a cota foi definida bem abaixo do que o Brasil já havia consolidado como volume de negócios com a China: em 2025, o país enviou ao mercado chinês 1,68 milhão de toneladas, ou seja, 35% a mais do que o teto estipulado para 2026.

Diante de embarques acelerados no início do ano — em parte justamente para antecipar o teto tarifário —, o Brasil chegou este mês a 98,5% da cota preenchida, considerando os embarques realizados até o fim de junho, segundo análise da consultoria StoneX. O saldo restante deve ser zerado em agosto, levando-se em conta o prazo médio entre o embarque no Brasil e a chegada da carga aos portos chineses. Na prática, isso significa que o país ficará sem acesso competitivo ao maior comprador da carne bovina nacional por alguns meses meses, até que o ciclo de 2027 se inicie. As cotas anuais estabelecidas pelos chineses valem até 2028. O impacto já é sentido nas linhas de produção. Diversos frigoríficos anunciaram férias coletivas e redução de turnos de abate para julho e agosto.

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Férias coletivas

O excedente de produção que deixa de ser exportado precisará de destino — e o mercado interno é o candidato mais óbvio. Isso, porém, tende a aumentar a oferta doméstica de carne no atacado (para o consumidor final, pouco muda) e a pressionar para baixo o preço da arroba do boi gordo, penalizando pecuaristas que já operam com margens apertadas. Frigoríficos de estados com maior concentração de plantas habilitadas para exportação à China, como Mato Grosso, enfrentam dificuldades adicionais para realocar o volume em outros mercados externos, dadas as restrições logísticas e de preço que tornam alternativas como Europa e Oriente Médio insuficientes para absorver toda a oferta. O cenário é agravado por outro front: a União Europeia anunciou a suspensão das importações de carne bovina brasileira a partir de setembro.

Diante da gravidade do quadro, o governo brasileiro iniciou negociações em maio com Pequim para ampliar a cota a partir de 2027. O objetivo é revisar o teto do volume isento —mas a medida, se alcançada, valerá apenas no próximo ciclo. Como sinal de distensão, a China suspendeu recentemente a restrição que impedia três frigoríficos brasileiros de exportar desde março de 2025, e o governo espera ainda a aprovação de novas plantas para ampliar o acesso ao mercado. Mas, até que as negociações avancem, o setor continuará refém de um teto que foi desenhado para ser menor do que a realidade comercial consolidada — uma estratégia protecionista eficaz justamente por ser calibrada, silenciosa e de longo prazo.

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