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Notícias e análises sobre economia política internacional e comércio exterior

O que a eleição de Flávio Bolsonaro, amigo de Milei, representaria para o Mercosul

Uma vitória do senador do PL aproximaria ideologicamente Brasília e Buenos Aires, mas não resolveria um impasse que trava o bloco há anos

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 ago 2026, 09h54 | Atualizado em 4 ago 2026, 12h36
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As ofensas reiteradas do presidente argentino Javier Milei a Lula, seu “colega” brasileiro, fizeram a polarização extrema que marca a disputa política entre petismo e bolsonarismo cruzar uma fronteira. Ou melhor, duas: a fronteira física entre os países e a fronteira da civilidade diplomática. O risco de rompimento entre os governos do Brasil e da Argentina é baixíssimo, até porque ambos teriam muito a perder do ponto de vista comercial. Mas o resultado da eleição deste ano no Brasil pode ter um impacto relevante nessa parceria, principalmente no que se refere ao futuro do Mercosul.

Em seu monitor de comércio exterior mais recente, a consultoria argentina Biglobal (fundada por Marisa Bircher, ex-secretária de Comércio Exterior da Argentina) dedicou boa parte de sua análise a um cenário que intriga o establishment econômico dos dois lados da fronteira — o que aconteceria se o senador Flávio Bolsonaro (PL), que recebeu apoio explícito e de corpo presente de Milei, chegasse ao Palácio do Planalto.

A resposta, segundo o relatório, não é simples. Uma vitória de Flávio aproximaria ideologicamente os governos de Brasil e Argentina, abrindo espaço para uma agenda que o presidente argentino já defende há mais de dois anos: a de um Mercosul mais flexível, menos burocrático e mais aberto a acordos bilaterais fora do bloco. Mas essa sintonia política, alerta a Biglobal, não equivale automaticamente a um bloco mais forte — pode, ao contrário, ser o gatilho de uma fragmentação mais profunda e estrutural do Mercosul, criado em 1991.

O peso do Brasil

Qualquer conversa sobre o futuro do Mercosul começa pela constatação de que o Brasil é, disparadamente, o principal parceiro comercial da Argentina. Segundo o relatório, essa relevância “não responde unicamente à proximidade geográfica, mas também à integração produtiva que se desenvolveu no marco do Mercosul”.

Em 2025, o comércio bilateral somou 31,2 bilhões de dólares, o maior valor da última década, ainda que 21% abaixo do pico de 2011. A Argentina importou do Brasil 18,4 bilhões de dólares e exportou 12,8 bilhões, um déficit que reforça a dependência argentina de máquinas, insumos industriais e veículos produzidos no país vizinho. Até maio de 2026, o Brasil continuava sendo o principal destino das exportações argentinas e a segunda origem das importações, atrás apenas da China.

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Há, porém, uma fissura começando a se abrir. Entre janeiro e maio deste ano, as importações argentinas de automóveis vindas do Brasil caíram cerca de 25%, mesmo com o total de compras externas de veículos crescendo dois dígitos — um sinal de que a Argentina já busca diversificar fornecedores, sobretudo entre fabricantes chineses de carros elétricos. A Biglobal resume o quadro com uma frase que capta bem a ambivalência da relação: o Brasil “continua sendo um sócio indispensável para a Argentina, ainda que a maior abertura comercial e o avanço dos provedores de outras regiões estejam reduzindo seu predomínio em alguns setores”.

O Mercosul como um todo depende do peso econômico do Brasil. O país responde por cerca de 79% de todas as exportações que o bloco faz para fora da região — a Argentina fica com 17,5%, o Uruguai com 2,2% e o Paraguai com 1%. É esse peso que transforma o Brasil, segundo a consultoria, em “um ator decisivo para a agenda externa e para a negociação de acordos comerciais do bloco”.

Impulso aos acordos

No acordo entre Mercosul e União Europeia, fechado depois de duas décadas de negociação, foi o Brasil quem deu o impulso político de alto nível para que avançasse. Na reta final, quando o entendimento enfrentava resistências do lado europeu, foi o governo brasileiro que insistiu no fechamento do texto, argumentando que o Mercosul tinha outras frentes de negociação em andamento e precisava demonstrar capacidade de entrega. O mesmo roteiro se repetiu com o Japão, cuja aproximação ganhou tração depois da visita de Estado de Lula a Tóquio em 2025, e com o Canadá, com o qual a retomada das negociações partiu de gestões diretas entre Brasília e Ottawa.

Segundo a análise da Biglobal, esse protagonismo é o motivo pelo qual qualquer mudança de rumo em Brasília reverbera imediatamente em Assunção, Montevidéu e Buenos Aires. Não é o Brasil que decide unilateralmente a direção do bloco — as decisões do Mercosul exigem consenso dos sócios —, mas é o Brasil que, historicamente, fornece o combustível diplomático e econômico para o Mercosul sair da inércia.

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É justamente nesse ponto que os governos de Lula e Milei divergem com mais nitidez. Para o Palácio do Planalto, o Mercosul segue sendo, nas palavras do relatório, “uma plataforma prioritária de inserção internacional e uma ferramenta de negociação conjunta frente a terceiros mercados”. Essa visão institucionalista se traduz na defesa de que acordos comerciais com países de fora da região sejam negociados em bloco, e não individualmente.

Por conta própria

Milei pensa diferente. Ao fechar um acordo comercial bilateral com os Estados Unidos em fevereiro de 2026 e ao pedir formalmente a adesão da Argentina ao CPTPP, o bloco de livre-comércio do Pacífico, o presidente argentino sinalizou que está disposto a testar os limites — e talvez romper — essa regra de negociação conjunta. O governo brasileiro reagiu pedindo que as preferências tarifárias concedidas aos americanos fossem encaixadas nas exceções previstas pelo próprio Mercosul, preocupado com o impacto sobre os setores automotivo e agrícola dentro do bloco.

A Biglobal considera que, no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, há um risco de que, se ele adotar uma estratégia similar à de Milei, possa haver uma fragmentação ainda mais profunda do bloco. A lógica é simples — como o Brasil é o sócio maior, se também passar a buscar acordos individuais fora do guarda-chuva do Mercosul, ficará muito mais difícil sustentar qualquer modelo de negociação conjunta. Hoje, é a Argentina que testa os limites das regras; se o Brasil fizer o mesmo, o bloco perde sua principal âncora institucional.

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Se Flávio vencer, argumenta o relatório, o resultado prático seria uma maior sintonia política entre os governos de Brasília e Buenos Aires, o que pode parecer benéfico em um primeiro momento, mas também representaria “uma agenda mais receptiva a discutir um Mercosul mais flexível”. Isso significaria, na prática, menos resistência brasileira a movimentos como o acordo argentino com os Estados Unidos ou a adesão ao CPTPP, e talvez até um alinhamento do próprio Brasil a esse tipo de iniciativa bilateral.

Flávio Bolsonaro tem defendido publicamente que o Brasil se afaste das regras do Mercosul para negociar acordos bilaterais, sobretudo com os Estados Unidos, citando Javier Milei como modelo a seguir. Recentemente, ele enviou uma carta ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) defendendo que o Brasil “se liberte das amarras do Mercosul” para poder negociar diretamente com Washington.

Sintonia ou fragmentação

O problema é que sintonia política não é a mesma coisa que solução institucional. Afinal, segundo a consultoria, “a flexibilização requer regras novas; sem elas, a incerteza aumenta nos setores mais integrados, em particular no automotivo”. Ou seja, abrir a porta para acordos individuais sem redesenhar as normas que hoje regem o mercado comum criaria um ambiente de operação mais instável exatamente para as indústrias que mais dependem da integração regional.

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Qualquer que seja o resultado de outubro, a Argentina continuará dependendo do Brasil para 24% de suas importações e para a maior parte de suas exportações, e as cadeias produtivas dos dois países permanecerão entrelaçadas independentemente de quem estiver no Palácio do Planalto.

O que a eleição pode alterar é o tom da relação, não seu peso estrutural. Uma reeleição de Lula significaria continuidade institucional e previsibilidade, ao custo de manter as divergências atuais sobre flexibilização do bloco. Uma vitória de Flávio abriria uma janela de maior afinidade política com Milei, mas transferiria para dentro do próprio Mercosul uma pergunta que hoje incomoda apenas a Argentina: até que ponto ele pode acomodar acordos bilaterais sem deixar de ser, de fato, um mercado comum.

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