De olho no Redata, empresas italianas preveem investir R$ 90 bi no Brasil
Grupos como Almaviva, Zucchetti e Lynx aceleram aquisições no setor de tecnologia e apostam no país como plataforma para a América Latina
O capital italiano deixou de ver o Brasil apenas como um mercado de vendas e passou a tratar o país como base de operações para a América Latina. Um levantamento preliminar de planos anunciados por grupos italianos no país aponta para algo em torno de 70 bilhões de reais em ciclos de investimento já em curso — soma que se aproxima de 90 bilhões de reais quando incorpora compromissos assumidos para os próximos três anos. A avaliação é do presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura (Italcam), Graziano Messana.
Durante décadas, o roteiro das companhias italianas no Brasil seguia um padrão: abrir uma filial do zero para vender serviços de tecnologia às próprias multinacionais italianas já instaladas aqui, caso de Enel, Pirelli, Luxottica, Ferrero e Fiat — parte das 1.100 empresas italianas hoje presentes no país, o segundo com mais companhias italianas fora da Itália, depois dos Estados Unidos. Esse modelo começou a mudar nos últimos dois anos e meio, período em que o interesse migrou da prestação de serviço para a aquisição direta de operações brasileiras.
Nesse intervalo de tempo, a Almaviva, de tecnologia da informação, comprou 51% da Magna Sistemas por 64 milhões de euros (o equivalente hoje a quase 390 milhões de reais) e assumiu 100% da TIVIT em operação estimada pelo mercado em cerca de 1,4 bilhão de reais, tornando-se a segunda maior empresa do setor em faturamento no Brasil e reforçando sua presença em serviços de nuvem, cibersegurança e inteligência artificial (IA).
A Zucchetti, especializada em sistemas informáticos e com faturamento superior a 1 bilhão de euros na Itália, fez uma dezena de aquisições no país — incluindo Compufour, D4Sign e o Grupo Hive/Omnibees — somando cerca de 1 bilhão de reais investidos. Já a Lynx adquiriu a Ímpar, especialista em transformação digital e Microsoft Azure, na maior aquisição internacional da história da companhia. A consultoria BIP, por sua vez, comprou em 2025 a brasileira BITKA Analytics, ampliando sua atuação em inteligência artificial aplicada, entre outros setores, à mineração.
Segundo Messana, a assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia deu um novo impulso a esse fluxo. Em maio deste ano, entrou em aplicação provisória a parte tarifária do acordo, o que já elimina o imposto de importação — antes de até 14% — sobre uma série de máquinas e equipamentos de automação que a indústria brasileira não produz, com desoneração gradual em dez anos para os itens em que já existe produção nacional equivalente. Ele credita à Itália o papel de pioneira entre os europeus.
Para Messana, o padrão observado nas aquisições recentes sugere que o ciclo está apenas começando: nenhuma das companhias que compraram seu primeiro ativo no Brasil parou na primeira operação — todas já avançaram para uma segunda ou terceira aquisição, caracterizando o que ele descreve como “um fenômeno do momento”.
Regime especial
O apetite italiano também é impulsionado pela corrida por infraestrutura de IA no Brasil, favorecida pela matriz energética limpa do país e pelo Redata, programa do governo federal que zerou temporariamente a alíquota de importação sobre equipamentos para construção de data centers. Segundo o governo, a estimativa é de que o setor atraia investimentos da ordem de 80 bilhões a 100 bilhões de reais até 2027.
Nesta quarta-feira, 26, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, prometeu colocar o retorno do Redata em votação. A declaração foi feita após encontro com o presidente Lula e com Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados. O Redata foi criado por meio de uma Medida Provisória para isenção de impostos federais que serviriam de incentivo aos data centers, mas o texto perdeu a validade em fevereiro deste ano. Agora, tenta-se aprovar um projeto de lei para aprovar o programa.
Missão italiana
A Confindustria, entidade italiana equivalente à CNI (Confederação Nacional da Indústria), enviará uma missão de cerca de 100 empresas ao Brasil nos dias 9 e 10 de setembro, a primeira do tipo desde a aprovação do acordo EU-Mercosul, com a presença do vice-premiê italiano Antonio Tajani. A missão vai concentrar encontros de negócios em cinco setores prioritários — agroalimentar, farmacêutico, dispositivos médicos, indústria e transição energética —, três dos quais, segundo Messana, mantêm conexão direta com a cadeia de data centers: mineração de terras raras, transição energética e tecnologia da informação.
Empresas como a TIM italiana já avaliam se tornar operadoras de serviços de inteligência artificial “as a service”, ou seja, oferecendo às companhias um pacote que vai do data center à entrega final do processamento — um movimento pensado, entre outras razões, para manter dados sensíveis dentro do território brasileiro, evitando que informações trafeguem até os Estados Unidos e voltem.






